Porto: o dia um das trotinetas e a terceira fase do desconfinamento

Na terceira fase do desconfinamento, a vida na cidade aproxima-se mais um pouco dos tempos pré-covid-19, com mais gente a circular em transportes. Enquanto reabriram bibliotecas, museus e os jardins do Palácio, o Porto inaugurou o seu serviço de trotinetas partilháveis

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As listas azuis estavam pintadas nas ruas há alguns dias, com placas a anunciar a existência de pontos de partilha, e esta segunda-feira já se avistavam as trotinetas eléctricas. O regime de partilha de modos suaves do Porto terá 210 locais de partilha e 2100 velocípedes ou equiparados – e as trotinetas já podem circular. Qualquer pessoa pode utilizar os veículos em deslocações dentro do Porto (por períodos de curta duração), bastando para isso descarregar as aplicações disponibilizadas pelos três operadores em acção na cidade. 

As licenças dadas à Bird (que já opera em Lisboa), à Hive (Lisboa e Braga) e à Circ, a única das três que já estava na área metropolitana do Porto (em Matosinhos e em Gaia), para além de Braga, Lisboa e Almada, são válidas por cinco anos e obedecem a um regulamento mais restritivo do existente na capital, por exemplo. No Porto, os veículos só podem circular entre as 6 e as 22h e têm de ser entregues em pontos de partilha. Se os utilizadores não o fizerem e as viaturas interferirem com a mobilidade de peões e automóveis, há penalizações para os operadores.

Paulo Pimenta
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Paulo Pimenta

O dia um das trotinetas coincidiu com o início da terceira fase de desconfinamento no país. E a aparência de normalidade cresce. Embora devagarinho. São 8h30 e um metro em direcção à Senhora da Hora pára na estação da Trindade. Umas 30 pessoas saem, outras 20 entram. O movimento não é excessivo, mas existe. Os números oficiais da Metro do Porto, para tirar as provas, ainda não estão disponíveis, mas a estimativa é de um “crescimento de 20% face à semana anterior”, onde houve 70 mil validações diárias, disse ao PÚBLICO fonte da empresa. 

Ana Lima faz a limpeza daquela estação todos os dias, entre as sete e as nove da manhã. A plataforma vazia dos tempos de estado de emergência há muito desapareceu e a trabalhadora foi-se habituando a controlar ansiedades ao ver o movimento. Ou pelo menos assim tenta: “A semana passada tive um ataque de pânico. De repente saiu tanta gente do metro, não sabia o que fazer”, conta enquanto esvazia um contentor do lixo. 

“Se há mais movimento? Só mesmo um bocadinho”, avalia Ana Lima, 63 anos, olhando à volta. A máscara tornou-se parte da farda e já não a incomoda – pelo menos se mantiver os óculos no bolso. O método de trabalho, com limpeza mais a fundo, não foi para ela novidade: “Há coisas que se fazem com mais cuidado, mas eu já era muito rigorosa. De cada vez que andava de elevador limpava os botões. Já havia doenças antes.”

Jaime Pinto aguarda o veículo que fará a viagem até ao Hospital de São João. Tem uma consulta marcada e decidiu deixar o carro na garagem para poupar uns trocos e dores de cabeça na hora de estacionar. O receio tenta controlar com radares extra: “Olho sempre à volta, afasto-me”, diz. “Claro que a gente tem um bocadinho de medo…”

Na mesma direcção de Jaime Pinto irá, uma hora depois, Gracinda Marcelina. Mora em Baião e esta segunda-feira apanhou um comboio no Marco de Canaveses para viajar até à estação de São Bento, no Porto. Tem uma consulta agendada. O veículo vinha cheio, conta, ainda cercada das muitas pessoas a sairem das carruagens. Mas isso não é coisa para a incomodar: “Deus me livre se a gente tinha medo... Deixávamos de viver.” Em Baião, a vida de Gracinda Marcelina é “campo-casa, casa-campo” e poucos temem a chegada do SAR-CoV-2.

Ao lado, Adão Oliveira ouve e subscreve a recusa do medo. Trabalha como auxiliar numa escola em Vila Nova de Gaia e desde que os 11.° e 12.° anos retomaram as aulas também ele voltou à escola. Vem de Ermesinde todos os dias e só não está habituado a tanto movimento porque o seu horário é, geralmente, outro. “Geralmente venho mais tarde, isto é a hora em que tudo chega à cidade.” Os autocarros e os automóveis circulam na Avenida dos Aliados quase deserta de gente. As diferenças entre o primeiro dia da terceira fase do desconfinamento e a semana anterior não é visível, pelo menos a olho nu. E o sino da igreja de Santo Ildefonso ainda se ouve à distância. 

Museus, bibliotecas e os jardins do Palácio

Quase três meses depois de Rui Moreira ter ordenado o encerramento dos parques murados da cidade, os jardins do Palácio de Cristal reabriram também esta segunda-feira. As visitas em maior número parecem ter ficado para outro dia. Assim o diz Susana Ferreira, responsável por uma banca de gelados, a ansiar o regresso do movimento para remediar as perdas dos últimos dois meses e meio. Joana Malta, estudante da Universidade de Aveiro e sua ajudante para o Verão, foca a esperança nos portuenses. Os turistas eram os principais consumidores durante a semana e esses, já se sabe, ainda não se avistam na cidade. José Guimarães Ramos e Maria Amélia estão sentados à entrada do jardim com vistas para o Douro. Antes do encerramento, estavam ali todos os dias. Para José, frequentador do espaço “desde menino”, voltar dá uma certa nostalgia. Nos últimos tempos, trocaram estes jardins pelo Parque da Cidade. “Mas não é a mesma coisa.”

O arquivo histórico e as bibliotecas públicas municipais - a Almeida Garrett, dentro deste espaço, e a estrutura principal, junto ao jardim de São Lázaro - reabriram portas esta segunda-feira. O acesso só se faz com marcação prévia – e obviamente com máscara e limitações de lotação. No dia da criança, o Museu do Carro Eléctrico reabriu e com luz verde para os mais pequenos. Nesta terça-feira, dia 2, será a vez do Museu da Cidade, da Galeria Municipal do Porto e de outros equipamentos do património cultural da autarquia retomarem a nova normalidade também. Com Ana da Cunha