Torne-se perito

A primeira sessão, ou o regresso ao cinema

O lisboeta Ideal foi a primeira sala de cinema a reabrir depois do confinamento, com Retrato da Rapariga em Chamas. O PÚBLICO foi à primeira sessão e encontrou um público de cinéfilos entusiasmados por voltar às salas.

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“As saudades da experiência de ver um filme no grande ecrã eram demasiado grandes”, diz Joana Bértholo, que na tarde desta segunda-feira assistiu à reabertura da sala de cinema Ideal JOÃO RELVAS/LUSA
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Ver (ou rever) em sala "Retrato da Rapariga em Chamas", de Céline Sciamma JOÃO RELVAS/LUSA
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Com as novas limitações, a sala poderá receber 55 pessoas quando a sua capacidade é de 192 JOÃO RELVAS/LUSA
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Pedro Borges esteve por trás da reabertura do Ideal em 2014 e a sua distribuidora Midas Filmes explora a sala desde então JOÃO RELVAS/LUSA

“Já estava a ressacar de não poder vir ao cinema,” diz Carolina Mendes, desenhando aspas no ar com as mãos enquanto olha para os DVDs à venda no cinema Ideal, e o sorriso adivinha-se por trás da máscara. A jovem que antes do encerramento das salas de cinema, forçado pela pandemia de covid-19, ia ao cinema uma vez por semana não é frequentadora regular da pequena sala independente do Chiado, onde diz só ter ido antes uma vez; mas a oportunidade de poder rever em sala Retrato da Rapariga em Chamas, de Céline Sciamma, do qual gostou “imenso”, não podia passar-lhe ao lado.

Carolina é uma das duas dezenas de espectadores que se deslocaram esta segunda-feira ao Ideal para a primeira sessão de cinema em Portugal depois do encerramento. A sala gerida pela Midas Filmes foi o primeiro cinema português a reabrir, com a matiné das 14h de 1 de Junho (o segundo cinema sendo o portuense Trindade, que reiniciou sessões ao fim da tarde de dia 1) e Fernando Vidal, responsável pela sala, reconheceu desde logo um punhado de habitués da sala por trás das máscaras, cirúrgicas ou de pano. O que o gerente avança é que a frequência desta primeira sessão na terceira fase do desconfinamento é razoavelmente superior ao normal para as 14h, “geralmente a sessão mais fraca do dia”. 

Enquanto não toca a campainha, fotógrafos e câmaras de televisão — com equipas da agência Lusa e até da France-Presse — recolhem imagens do átrio do cinema ou do próprio auditório, que se mantém de portas abertas e com as luzes acesas durante os trailers para facilitar a entrada aos retardatários ou àqueles que esperam na fila (socialmente distanciada) para levantar os bilhetes reservados por telefone ou e-mail. 

Se Carolina Mendes já tinha visto Retrato da Rapariga em Chamas, vários dos outros presentes com quem o PÚBLICO falou quiseram aproveitar a oportunidade de voltar ao cinema para descobrir um filme que ainda não tinham visto — caso da escritora Joana Bértholo ou do cineasta Miguel Clara Vasconcelos, ambos a confessarem que tinham de estar presentes neste regresso à sala mas também que não tinham chegado a conseguir ver o filme em Março. 

“As saudades da experiência de ver um filme no grande ecrã eram demasiado grandes”, diz Joana Bértholo. “Claro que vi filmes durante o confinamento, em casa, mas nunca é a mesma coisa”. Como ficou provado durante a projecção do filme de Céline Sciamma: era palpável — mesmo com as máscaras que o grosso dos espectadores usou durante a projecção — o entusiasmo por voltar ao espaço da sala de cinema, e o alívio de o poder voltar a fazer, de ter atravessado a quarentena. 

Não faltou o breve toque de telemóvel deixado ligado por engano, logo no início da sessão, nem a absorção completa no que se está a ver que, no seu melhor, a experiência comunal de ver um filme em sala atinge. Mesmo que com limitações e novas obrigações: a reserva obrigatória prévia de lugares, todos marcados; a higienização das mãos, com soluções alcoólicas, junto à bilheteira e às entradas para a sala; e a saída pelas traseiras da sala, para permitir a desinfecção do auditório e deixar espaço para entrarem os espectadores que aguardam no átrio.

Pedro Borges, que esteve por trás da reabertura do Ideal em 2014 e cuja distribuidora Midas Filmes explora a sala desde então, explica ao PÚBLICO que, nesta fase de desconfinamento, o Ideal apenas vende bilhetes em filas intercaladas e deixando duas cadeiras de intervalo entre cada espectador ou conjunto de espectadores. Na lotação máxima, esta configuração apenas poderá receber 55 pessoas numa sala com capacidade para 192.

Ao fim de dois meses e meio de encerramento, Borges mostra-se satisfeito por finalmente poder reabrir a sala, mesmo sabendo que será ainda um longo caminho de regresso a uma potencial “normalidade” (que não prevê antes do fim do ano). Para já, a programação do Ideal retoma as grandes linhas que estavam previstas antes de Março. Retrato da Rapariga em Chamas, um dos filmes que estavam em exibição aquando do encerramento,  regressa em três sessões diárias até dia 10 de Junho (14h, 16h30 e 21h30); a reabertura completa-se com o documentário de Roberta Grossman Quem Escreverá a Nossa História, exibido na sessão das 19h até dia 5, substituído, no dia 6, por Uma Vida Alemã, que estará em cartaz até dia 10, filmes que deveriam ter estreado em Abril para coincidir com os 75 anos do final da II Guerra Mundial. 

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