Florestas com árvores mais jovens e mais pequenas. O futuro será assim?

Estudo publicado na revista Science indica que a mortalidade entre as árvores mais antigas e maiores tem vindo a aumentar nas últimas décadas, o que implica que as florestas captam menos dióxido de carbono e podem ficar com menos biodiversidade.

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As florestas mais antigas, como a de laurissilva, na Madeira, pesam cada vez menos na área florestal mundial Gregório Cunha

As florestas do mundo estão a mudar e a transformar-se cada vez mais num espaço de árvores mais jovens e de menor porte, com as respectivas consequências para a captação de carbono ou para o desenvolvimento de um ecossistema mais rico. A grande questão que se coloca é se esta transição para uma floresta menos rica, motivada por vários factores, incluindo as alterações climáticas, é uma tendência que se vai manter. Um estudo agora divulgado admite que assim seja, mas refere que ainda há muitas dúvidas e que é preciso melhorar o método de análise. 

O estudo com o título Alterações generalizadas na dinâmica florestal num mundo em mudança  (Pervasive shifts in forest dynamics in a changing world, no original) está na revista Science e os autores, que analisaram um conjunto de dados e outros estudos divulgados ao longo dos anos, concluíram: “Mudanças contínuas nos factores ambientais e noutros responsáveis pela perturbação [dos ecossistemas] têm aumentando consistentemente a mortalidade, forçando as florestas a ficarem mais baixas e mais jovens, reduzindo o potencial de armazenamento de carbono.”

A evolução das florestas pode ser influenciada por diversos factores, sejam crónicos ou o que os autores designam “de distúrbios transitórios”. O que a evolução dos últimos anos tem mostrado é que “a dinâmica da floresta está a mudar devido à exacerbação antropogénica de factores crónicos, como o aumento da temperatura e do CO2 [dióxido de carbono], e o aumento de distúrbios transitórios, incluindo incêndios, secas, golpes de vento, ataques de agentes bióticos e mudanças no uso do solo”.

Só que estas mudanças estão todas as acontecer em simultâneo e se algumas apontam claramente para um “aumento da mortalidade das árvores” – como as alterações climáticas ou a mudanças no uso dos solos –​, factores como o aumento de CO2 na atmosfera estimulam o crescimento de florestas mais jovens, referem os autores do estudo liderado pelo Laboratório Nacional do Noroeste do Pacífico, do Departamento de Energia dos Estados Unidos, e em que participou também a britânica Universidade de Birmingham, através do seu Instituto de Investigação Florestal. Falta, por isso, saber, se no balanço final haverá alguma espécie de equilíbrio nas florestas do futuro. “Estes processos antagónicos estão a acontecer em simultâneo globalmente, deixando o destino das florestas futuras na incerteza”, referem.

O que não oferece qualquer dúvida aos autores é que as “mudanças generalizadas na dinâmica da vegetação florestal já estão a acontecer”. O que consideram como provável é que elas “irão acelerar-se sob futuras mudanças globais, com consequências para a biodiversidade.”

Olhando para os dados disponíveis, o artigo refere que nos “ecossistemas maduros”, com árvores que têm, pelo menos, 140 anos, “a taxa de mortalidade duplicou em quase todo o continente americano e na Europa, nas últimas quatro décadas.”

As provas da mudança não se ficam por aqui. Segundo os dados referidos no artigo, o aumento das florestas jovens directamente relacionado com a mudança no uso dos solos ou o corte de árvores “aumentou de 4,8 milhões de quilómetros quadrados em 1900 para 12,5 quilómetros quadrados em 2015”, ou seja, passou de 11,3% para 33,6% da área florestal.

E se a mudança do uso dos solos ou o corte de árvores estão a destruir as florestas mais antigas, há sempre que ter em conta outros factores cujo resultado final continua a suscitar dúvidas aos investigadores. Por exemplo, o aumento de CO2 na atmosfera parece não ter grande influência no crescimento das florestas antigas, mas acelera o desenvolvimento das mais jovens. Só que este crescimento rápido é muitas vezes associado a uma menor densidade na madeira da árvore, o que a torna susceptível a ser derrubada ou seriamente afectada por uma rajada de vento forte. O balanço final para o futuro das florestas quando se junta tudo isto é, por isso, difícil de adivinhar.

Ainda assim, as árvores mais antigas e maiores parecem ser mais influenciadas negativamente pelos diversos factores analisados pelos autores, levando-os a defender: “As árvores maiores são mais susceptíveis a morrer pela fragmentação causada pela mudança do uso dos solos, secas, o aumento da temperatura ou um défice de pressão de vapor no ar, rajadas de vento, ataques de agentes bióticos e raios, sendo os impactos do fogo variáveis.”

Apesar de considerarem que a informação disponível permite perceber exactamente o que aconteceu até aqui, os autores não arriscam apontar um caminho certo para o futuro, no que se refere à evolução das florestas. Haverá factores de mitigação capazes de as levar a adaptar-se, conduzindo à quebra na mortalidade das árvores mais antigas? Poderá uma boa gestão florestal alterar alguma coisa? Para o futuro há apenas “hipóteses”, dizem, apelando a que sejam disponibilizados mais meios para estudar este ecossistema e a sua evolução, nomeadamente com o desenvolvimento de modelos que permitam simular algumas dessas hipóteses, ajudando a perspectivar melhor o que aí virá.
Para já, como refere Tom Pugh, do Instituto de Investigação Florestal, “há imensas provas de que as alterações climáticas estão a acelerar a mortalidade das árvores, levando a que as florestas mundiais sejam cada vez mais jovens e compostas por árvores mais pequenas”. Isto, diz ainda, “implica a redução na sua capacidade para armazenar carbono e potencia grandes mudanças na mistura de espécies que compõem e habitam estas florestas”. O futuro é, por isso, um desafio: “Tudo isto terá, provavelmente, grandes implicações nos serviços que as florestas prestam, como a mitigação das alterações climáticas. O aumento da taxa de mortalidade causado pelo clima e pelo uso dos solos, combinado com a incerteza sobre as espécies que irão formar a próxima geração, coloca grandes desafios tanto aos conservacionistas como aos gestores das florestas.”