Covid-19 e o desvario do poder

Se o “America first” trumpista já pressupunha uma viragem do avesso do legado multilateralista americano, talvez nunca se tivesse imaginado que essa viragem fosse tão radical e ameaçadora para os equilíbrios mundiais edificados ao longo das últimas décadas.

Já escrevi neste espaço que a pandemia da covid-19, apesar dos seus efeitos apocalípticos (ou até por causa deles), pode funcionar como um ponto de partida para a necessidade imperiosa de mudar a lógica predadora do mundo em que vivemos e, sendo assim, lançar as bases de outro mundo mais equilibrado, menos consumista, mais respeitador do ambiente e da natureza. Mas este propósito construtivo, embora se mantenha vivo no seu apelo à sobrevivência da(s) espécie(s), parece crescentemente ameaçado por várias formas de exercício desvairado do poder, cuja expressão limite é cada vez mais representada pelo Presidente americano Donald Trump.

Em poucos dias, Trump envolveu-se numa guerrilha com as redes sociais – ameaçando controlá-las ou até fechá-las – depois de a direcção do Twitter ter deliberado submeter a “fact-checking” algumas das suas mensagens, incluindo os “tweets” chamando “cães raivosos” aos manifestantes que protestavam contra o assassinato a sangue frio – e registado por telemóvel – de George Floyd, um militante negro, por um polícia. Note-se que, anteriormente, Trump se limitara a lamentar a morte do manifestante negro, sem adjectivar de forma idêntica o responsável pela sua morte. Além disso, nos seus últimos “tweets”, o chefe da Casa Branca multiplicara os ajustes de contas e as teorias de conspiração envolvendo personagens que se tinham tornado detestáveis aos seus olhos, incluindo um antigo representante republicano que Trump insiste em considerar culpado da morte de uma assistente há cerca de 20 anos, apesar de todas as evidências e conclusões da investigação e dos protestos do próprio viúvo da vítima.

Como se tudo isto não fosse suficiente como revelação do carácter e da saúde mental do Presidente norte-americano, Trump decidiu cortar os últimos laços da relação dos EUA com a China – e abandonando de passagem as ligações com Hong Kong, no preciso momento em que a região rebelde mais precisava delas –, agravando o clima de Guerra Fria que favorece os propósitos autocráticos do “imperador” Xi Jinping e os delírios do poder cultivados por ele próprio. Isto sem falar do corte de relações definitivas com a Organização Mundial da Saúde, independentemente das razões que possam assistir aos EUA na denúncia das dependências pró-chinesas da OMS.

Se o “America first” trumpista já pressupunha uma viragem do avesso do legado multilateralista americano, talvez nunca se tivesse imaginado que essa viragem fosse tão radical e ameaçadora para os equilíbrios mundiais edificados ao longo das últimas décadas. A covid-19 não só pôs a nu como exacerbou a revelação da natureza inquietante do trumpismo, mas essa natureza ainda não suscitou a perplexidade e a rejeição previsíveis numa democracia aparentemente consolidada (mau grado todas as suas imperfeições) como é a americana. Ora, num mundo onde as autocracias tendem a expandir-se, a ruína da democracia americana é um dos maiores perigos que espreitam o mundo nestes tempos de covid-19 (cuja gestão pela administração Trump é, de resto, das mais caóticas e catastróficas que se poderiam imaginar).

Tendo tudo isto em conta, pouco mais resta do que a Europa para inspirar um sopro de verdadeira mudança num mundo progressivamente bloqueado. Daí o desafio sem precedentes que os europeus enfrentam hoje: ou assumem solidariamente os objectivos definidos por Macron, Merkel e Von der Leyen sobre a resposta às consequências da covid-19 ou voltam a ser derrotados – uma derrota irrecuperável e de repercussões trágicas – pelas tradicionais divisões e egoísmos suicidários. Infelizmente, há motivos para temer que essas divisões e egoísmos acabem por sepultar a esperança de que a Europa é, hoje, um farol quase único no mundo. A obrigatoriedade de um voto unânime de todos os países numa matéria tão sensível e decisiva é manifestamente anti-democrática, já que a democracia é o governo da maioria – simples ou qualificada – e não de uma artificial e até impossível totalidade.