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Não é preciso ser americano para ser racista

A morte de Floyd demonstra um problema particular no interior da sociedade americana, é certo. Poderão, contudo, os europeus circunscrever o racismo aos Estados Unidos e proclamarem-se como defensores incontestáveis da igualdade?

Todos reconhecem que, por estes dias, a barafunda que molda o globo torna difícil a exclamação de choque pelo que possa acontecer para lá dos efeitos da pandemia. Temos sofrido com imagens que julgávamos extintas: hospitais de campanha atrofiados de enfermos, valas comuns abertas em resposta à mortandade provocada pelo vírus, líderes democraticamente eleitos a aproveitarem um estado de pânico para galgarem, em passo largo, as barreiras que nos separam da margem nada atraente do autoritarismo. Tudo isto faz parte de uma atmosfera naturalmente rarefeita de outros temas e problemas. E isso compreende-se, não estivéssemos a absorver um ataque relâmpago e simultâneo à saúde das populações, ao seu estilo de vida e ao sistema político que as sociedades ocidentais aprimoraram no último século e que, apesar de imperfeito, tem-se como o melhor de todos os já experimentados. 

Assim, quando George Floyd foi morto, a 25 de Maio, pelo polícia de Minneapolis, havia o risco de o crime poder ser ignorado ou esquecido tão rapidamente como foi feito. Felizmente, para todos, não foi. Do lado de cá do Atlântico, a morte de Floyd às mãos da polícia branca foi mobilizada como a fotografia exemplar e necessária para demonstrar que os americanos permanecem profundamente racistas, mesmo quando se trata de cidadãos nacionais. Mas serão só eles? A morte de Floyd demonstra um problema particular no interior da sociedade americana, é certo. Poderão, contudo, os europeus circunscrever o racismo aos Estados Unidos e proclamarem-se como defensores incontestáveis da igualdade?

Não, não podemos. Felizmente, casos como o que se descreve não têm ocorrido cá. Mas é inegável a permanência enraizada, geralmente até involuntária, de um racismo latente e profundo nas sociedades europeias, que se descortina, essencialmente, quando encaramos os Estados africanos e as sociedades que os constituem. Como cidadãos das potências europeias mantemos a ideia de que tudo o que é cultural, política e economicamente relevante nos Estados africanos só existe como resultado da colonização europeia. Através de um ensino centralizado na relevância da Europa no mundo, vincamos a ideia de que, quando iniciámos a expansão marítima, encontrámos apenas povos africanos atrasados, sem história nem cultura próprias. Depois de estabelecer esta premissa é simples partir para a conclusão (profundamente errada!) de que os africanos só podem ser diferentes. Caso contrário, o que justificaria que não tivessem sido aqueles povos a atingir primeiramente um estado de evolução que os permitisse colonizar a Europa, ao invés de terem sido os brancos europeus a alcançarem a sua costa?

Esta sucessão de falácias está impressa no senso comum europeu, disso não haja dúvida. A ideia de superioridade mantém-se entre os cidadãos do velho continente sendo, para já, aparentemente inofensiva, por comparação à realidade americana. Mas nunca deve ser desprezada, pois ela descortina-se diariamente: no conteúdo que nos chega pela televisão, na cultura que consumimos, nos livros em que aprendemos. Esta ideia latente e, sublinho, comummente involuntária, tem sido restringida com o triunfo do Estado de direito democrático. Mas recordemo-nos que este não é invencível, quando tantos há por aí com vontade de galgar as suas linhas vermelhas.

Casos como o de Floyd são hediondos. Mais hediondo se torna se for usado para adensar uma ideia de que o racismo é um problema exclusivo do outro lado do Atlântico. Porque não é, e nós sabemos disso.

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