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Paulo J. Mendes

No “bairro do Siza”, o que rima com vizinhança?

Será que um vírus pode realmente mudar algo na relação entre vizinhos? Fomos ao Bairro da Bouça, no Porto, recolher quatro histórias de vizinhança, num bairro construído por moradores, que tanto são família, como nunca se encontram.

Se há coisa que esta pandemia fez foi recordar a importância de uma boa rede de vizinhança. Um pouco por todo o país, e mundo, organizaram-se redes e projectos solidários, escreveram-se poemas à janela, fizeram-se concertos, à janela e à varanda, e festejou-se o 25 de Abril, enquanto se batiam palmas a quem estava na linha da frente a lutar contra a covid-19. Mas será que um vírus pode realmente mudar alguma coisa na relação entre vizinhos?

Esta semana, não fosse o novo coronavírus, celebrar-se-ia o Dia Europeu dos Vizinhos – em França, os festejos oficiais da La Fête des Voisins foram adiados para Setembro, conta-nos Atanase Périfan, presidente da Federação Europeia de Solidariedade Local, que promove a efeméride desde 1990; esta sexta-feira, a data original, tem lugar um festejo à varanda e à janela.

Por cá, pelas mesmas razões, não há actividades agendadas, mas apoderamo-nos do mote para, de vizinhos para vizinhos, com o urban sketcher Paulo J. Mendes pela mão, recolher quatro histórias de vizinhança, num bairro diverso cheio de história, construído originalmente pela força de vizinhos em luta pelo direito à habitação. Desenhado por Siza Vieira, produto do SAAL, o Bairro da Bouça, no Porto, conhecido por muitos como o “bairro do Siza”, ainda carrega nas paredes os ecos dessas relações — e outras se foram ganhando, ou perdendo, com o passar dos anos, entre as 128 casas. Se a pandemia pode mudar alguma coisa? Só o tempo o dirá. Os seguintes depoimentos foram construídos a partir de entrevistas.

António Santos, o “reguila”​

A primeira vez que entrei em minha casa parti a cabeça (risos). Foi uma entrada à cowboy. Não estava habituado a tantos vidros. Eu todo contente a mostrar a casa ao meu vizinho, “anda cá ver, Adriano, isto é que é uma casa!”, e pumba!

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António Santos Paulo J. Mendes

Claro que conhecia toda a gente quando vim para cá. Agora, nesta casa, só estou eu e a minha mulher. Eu era cantoneiro, fui militar de Abril (chamavam-me o “reguila"). Nasci ali na Rua dos Burgães. Estou há 67 anos por aqui, ao fim e ao cabo isto é meu. Nasci na “ilha das Miquinhas": todas as pessoas das seis casas se chamavam Maria. A minha mãe era a Miquinhas Manquinha ou a Miquinhas do Canto. As nossas casas eram velhas, só soube o que era um quarto de banho aos 20 anos, quando fui para a tropa. 

Sempre fui de esquerda (risos). Para mim, desde que uma pessoa seja de esquerda… está tudo bem. Este bairro nasce de um movimento de gente que vivia ali nas ilhas. Juntámo-nos e criámos a Associação de Moradores da Bouça [em Julho de 1974]. A ideia era conseguir arranjar casas. E, entretanto, ocupámos as casas do Ministério da Justiça [em Outubro de 1974, alguns dos futuros habitantes ocuparam um prédio próximo, localizado no bairro da Tutoria, actualmente Centro Educativo de Santo António]. Com um intuito: tentar que o Governo olhasse para nós, que não tínhamos casa. 

Foi um movimento forte —​ éramos quase 900 pessoas. Foram passadas arrojadas. Até nos cederem o terreno e começar a construção, ninguém saiu dali [a ocupação terminou em Maio de 1980]. Eu nunca vivi lá, ia dar apoio. Conseguimos o terreno e arranjámos o arquitecto Siza Vieira [no âmbito do SAAL - Serviço Ambulatório de Apoio Local, programa que pôs em diálogo populações carenciadas e arquitectos para a construção de novas habitações entre 1974 e 1976]. Houve algumas assembleias picantes, mas ele dava a volta. Adoro o Siza. É o meu arquitecto, ele e o Souto Moura. Primeiro, foram feitas casas para umas 60 pessoas, escolheram-se as pessoas que realmente tinham mais necessidade, mas depois a obra ficou parada. A conclusão do projecto em 2006? Foi espectacular. Toda a gente ficou contente. Como a associação não tinha possibilidade de fazer mais casas, fez-se a Cooperativa [de Habitação e Construção Águas Férreas]. Essa gente nova veio dar mais tranquilidade. 

Eu dou-me muitíssimo bem com toda a gente, mas é verdade que nós no nosso tempo éramos mais felizes. Tinha outra história. Vínhamos cá fora: Ó António, ó Maria, ó Quim, ó Zé! (Grita). Às vezes são 22h e não se vê ninguém. Eu acho que é um bocado mau… No nosso tempo era como agora, com a covid-19: havia união. Acho que neste momento há mais solidariedade, mas espero ver isto daqui para a frente. Já vi aí gente ir à porta de uma pessoa levar isto e aquilo, isso para mim conta.

Fico revoltado quando vejo que há quem compre três ou quatro casas para arrendar e nunca fez puto por isto. Não é pelas pessoas  quando organizo aqui a brincadeira do São João sou aceite em casa deles todos. Sou um bocado contra o alojamento local aqui. Por acaso, a casa é minha, estou a pagar ao banco, mas vamos supor que não era. Nós chegamos a viver aqui 60, 70 anos, e chega aqui um fidalgo e manda-me para Gondomar ou Ermesinde? 

Este período de isolamento custou-me. E não é só pela minha personalidade. Eu tinha um quintalzinho que não era meu, em Francos. Eles destruíram tudo e mexeu comigo. Já lá estava há cinco anos a pôr as minhas coisas... Tinha gasto quase 250 euros. Podiam ter-nos dado um prazo para sair, por exemplo, quando as coisinhas saíssem todas eu agora estava a comer ervilhas, vagens, favas. E espalhava pela vizinhança.

Bertinho, o “dos fadinhos”​

Chamo-me Alberto Fernandes, mas aqui no bairro toda a gente me conhece por Bertinho. Faço 86 anos em Dezembro, na véspera de Natal. Faço anos a 23, na verdade, mas celebro sempre na Consoada. Abençoada!

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Bertinho Paulo J. Mendes

Nasci e cresci numa família de cinco na Rua da Bouça, aqui ao pé, numa ilha com sete casas. Havia uma casa de banho exterior para seis famílias – e uma só para a senhoria. Logo desde cedo, fiquei sozinho com os meus pais na ilha. Nem era para casar, para poder tomar conta deles. Nessa altura, trabalhava com calçado. Depois, para começar a descontar, fui torneiro e, mais tarde, operário de uma fábrica de borrachas. Fui sempre melhorando.

Na altura, era difícil viver na ilha, as condições eram más. Por isso, lutámos, junto da Câmara Municipal, para nos tirarem de lá. E eles lá iam vistoriar, prometiam mundos e fundos, mas nunca acontecia nada. Um dia, um grupo de pessoas das ilhas decidiu tomar conta de uma casa que pertencia ao Ministério da Justiça, aqui ao lado da tutoria. E foi assim que tudo começou.

Formámos a Associação de Moradores da Bouça – à qual pertenci desde o início – e o município deu-nos a escolher entre essa casa e o terreno onde estamos agora; e nós preferimos o terreno porque dava para alojar mais pessoas. Queríamos dar casa a todos. O António também fazia parte do movimento. Eu conheço a família dele há muitos anos. Éramos como irmãos. E agora somos vizinhos. Olha ele ali! Ó António!

Eu vim para cá em 1982 ou 83 e fiquei com um apartamento com dois quartinhos, uma cozinha e uma casa de banho. Parecia que tinha mudado para um palacete. Palavra de honra! Vim com a minha mãe – o meu pai tinha já falecido –, com a minha mulher, Palmira, e com o meu filho. Mais tarde juntou-se a minha nora. A minha mãe entretanto faleceu, há muitos anos. E a vida sorriu ao meu filho e à esposa e compraram uma vivenda, onde vivem com a minha neta. A minha mulher faleceu há pouco tempo e eu agora estou aqui sozinho, a olhar para as paredes. Sozinho custa-me mais a passar o tempo.

Eu dou-me bem com toda a gente e ainda conheço muitas pessoas pelo nome – os mais antigos, sobretudo. Dos novos conheço poucos. Passo muito tempo dentro de casa, mas depois do almoço – que me trazem umas senhoras do lar – vou deitar fora o lixo e dou uma volta. Às vezes encontro uns vizinhos e estamos aí a conversar, sentados nas escadas. E quando vejo a Fátima à janela ainda lhe grito “olha a roupa!”, a brincar. Ainda há estas piadas entre vizinhos. Quando volto para casa, se a televisão não me interessar, venho para as escadas, ligo o rádio portátil e fico a ouvir uns fadinhos, na Rádio Festival.

O meu filho liga-me todos os dias. Ligou há bocado a perguntar se precisava de alguma coisa. Disse-lhe que não é preciso nada, que estava a lanchar um bacalhauzinho desfiado com cebola. E há um vizinho que passa por aí e grita “he!” na direcção da minha janela e fica à espera que lhe responda, para ter certeza que está tudo bem comigo.

Antes da pandemia, todos os domingos ia dar uma volta à Póvoa do Varzim, para ir à praia ver o mar. Era um hábito que já tinha com a minha mulher. Agora, com esta doença no ar, já não posso fazer isso. Até o São João nos roubaram por causa do veneno que pode ir para as sardinhas. Estou desejoso de que isto passe. Eu sou sócio do Boavista e vou sempre à bola quando a equipa joga. Agora, vejo na televisão. Mas quando abrirem o estádio vou outra vez.

Carolina Marques, a “persistente”​

Cheguei ao bairro em Novembro, mas a minha ligação começou há quase dez anos porque o meu irmão vivia cá. Lembro-me perfeitamente do dia em que entrei. A primeira coisa que disse foi: um dia, vou viver aqui. E depois aconteceu o São João, e aí rendi-me. Alguém que me adopte já! (risos) Deu-me uma sensação de comunidade. Eram vizinhos que eu não conhecia a perguntar se precisava de alguma coisa, “olhe temos aqui umas brasas”. Fiquei muito emocionada com essa troca. 

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Carolina Marques Paulo J. Mendes

Sou designer têxtil/gráfica, estive cinco anos a trabalhar em Espanha. Estava confortável na Inditex, mas decidi voltar no final de 2018 e arriscar. Trabalho numa fábrica, em Fafe. Sabia que ia perder imenso tempo em viagens, mas não queria abrir mão de viver no Porto. Deparei-me com uma cidade completamente diferente — quando saí ainda havia T1s por 300 euros, agora é ridículo. Antes de chegar aqui, vivi na Rua de Cedofeita, mas fomos despejados; depois, arranjei uma casinha na Torrinha, daquelas em que se dorme de pé (risos). 

Nunca desisti do bairro — às vezes, ainda em Espanha, ia metendo um olhinho nos anúncios. Visitei duas casas antes desta, mas as rendas eram incomportáveis. Quando vi este anúncio, escrevi um texto enorme. Disse tudo. Que conhecia o bairro, que o meu irmão tinha vivido aqui, que era um sonho viver cá. Disse que não tinha o valor que estava a ser pedido, mas prometia estimar a casa. E o senhorio ligou-me. Era ele a mostrar-me a casa e eu já a imaginar o que ia fazer aqui e ali parecia que estava em ácidos (risos). Tivemos uma conversa e ele aceitou a minha proposta. Não chorei, mas confesso, sem vergonha, que o dia das mudanças foi emocionante. Perceber que passados dez anos tinha a chave na mão e estava aqui. 

Sou um bocado persistente. Agora, se tudo correr bem, não saio daqui tão cedo. Cheguei em Novembro e, pouco depois, aparecia a covid-19 — a 13 de Março já estava em casa. Estive em layoff até Abril, depois em teletrabalho. Sempre sozinha, em confinamento. Acaba por ser irónico porque estes seriam os primeiros dias em que ia ficar cá para conhecer o bairro, mas ninguém podia sair. Foi bastante duro esse... desplazamiento. A sensação de ter tudo e, de repente, ficar sem nada. 

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Só saía de casa para ir às compras. E comecei a pensar na minha avó, que vive sozinha, e nas pessoas que deveriam estar aqui na mesma situação. Decidi enviar um e-mail ao condomínio a dizer que me disponibilizava para fazer compras, ajudar quem precisasse. Uns dias depois, fui à caixa de correio e vi um papel com a minha mensagem e o meu número. Achei piada: eu estou na caixa de correio de toda a gente (risos). Ninguém pediu ajuda, o que até é bom sinal. Recebi só uma mensagem de um casal vizinho a oferecer-se para me ajudar: achei tão bonito, até pensei dar-lhes um vaso. No meio disto, fiz 34 anos, a 8 de Maio. Pensei… estou sozinha, como é que vou pôr este bairro a festejar comigo? Escrevi uma folha A4 a pedir desculpa pela música alta, mas era o meu aniversário. Passado uma hora, voltei a descer e tinha um cartaz gigante a dizer “Parabéns” — eram as vizinhas da frente, que acabei por conhecer.

E agora aqui estou, mais animada. Já conheço pessoas. Também falo com a Dona Ofélia, a minha vizinha do lado, que tem uma cadela, a Fofinha — o grande medo dela era que esta casa se tornasse um AirBnb. Estou triste por não ter o São João, era outra oportunidade para ver mais gente, conhecer histórias antigas, das ilhas, do pós-25 de Abril. Achei que com o voluntariado também poderia ajudar estas pessoas ou, se calhar, ouvi-las. Sei lá… tentar tirar um bocado a solidão, tanto a minha como a dos outros. 

Raquel Pratas e Patrick Monteiro, “da nova vaga”​​

Somos arquitectos de formação e vivemos juntos no Bairro da Bouça, desde 2012. Mas a ligação com o bairro data de 2009 [ano em que a Raquel arrendou, na altura sozinha, um apartamento]. Por essa altura, nós tínhamos começado a namoriscar há uns meses. E hoje a casa, que antes parecia muito grande, é pequena porque a família cresceu. Quando o nosso filho Daniel nasceu, um T2 ainda era o suficiente, mas com a chegada da Sofia, o espaço tornou-se pequeno. Tornou-se urgente mudar de casa.

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Raquel, Patrick, Sofia e Daniel Paulo J. Mendes

Além de vivermos cá, também trabalhamos num pequeno estúdio aqui no bairro, somos fotógrafos de casamentos. Sempre que pensávamos em mudar, achávamos que o ideal seria encontrar uma casa maior não muito longe daqui. Encontrámos um T3 recentemente e estamos, desde Novembro, a preparar a nossa mudança para a casa nova, que também fica aqui no bairro, mas noutro bloco. (risos)

Não queríamos virar a vida do avesso e ficar aqui torna tudo mais fácil. Depois junta-se essa comodidade com algo fantástico, que é a relação do bairro com a cidade em si. Estás em pleno centro da cidade e a ouvir os passarinhos cantar. Os carros só se ouvem lá ao fundo, assim como o metro. Há toda esta magia dos espaços verdes e da diversidade de pessoas que habitam este espaço. As relações interpessoais que se vão criando dentro do bairro são muito interessantes.

Ao longo dos anos, fomos conhecendo os vizinhos, mas o que realmente fez toda a diferença foi o nascimento do Daniel e da Sofia. As crianças desfrutam muito do espaço exterior e formam amizades com outras crianças. Sem nos darmos conta, também nos tornámos amigos de outros pais que vivem aqui. Há poucos dias, convidámos para jantar um vizinho que é o pai de uma amiga de infantário do Daniel. Esse vizinho é mais ou menos da nossa idade e é um dos moradores originais, ou seja, nasceu cá. Durante o jantar a conversa foi, naturalmente, na direcção da história do bairro, que sempre nos interessou.

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Amanda Ribeiro e Ana Marques Maia ilustradas por Paulo J. Mendes

Já na faculdade o Bairro da Bouça era um objecto de estudo. A assinatura Siza Vieira transformou este edifício numa espécie de ex-líbris da cidade. Não é, por isso, estranho que a gentrificação também já tenha chegado até cá. Também já há alojamento local – embora a presença seja ainda tímida. E também há apartamentos a serem arrendados, para habitação de longo termo, por valores que são muito altos. Mas também desse ponto de vista, o projecto é especial; porque embora tenha sido viabilizado para habitação social, resultou em casas muito dignas, muito desejadas. Vivem cá pessoas de todos os estratos sociais, de todas as idades e profissões. A diversidade é enorme e isso é uma vantagem.

[A filha entrega à mãe um punhado de flores que colheu no jardim] Obrigada, Sofia! Agora ela vai trazer-nos todas as flores do jardim. (risos)

Este espaço exterior é, de facto, uma vantagem. Sentimos isso sobretudo neste período de confinamento. Manter as crianças constantemente dentro de portas é um desafio. O facto de poderem correr à vontade, num espaço seguro, é um alívio. Sim, porque este é, apesar de tudo, um espaço familiar, seguro. Existe uma convivência saudável e jovial entre os novos e os velhos moradores e até se nota uma certa “passagem de testemunho” na própria gestão do bairro. Tanto que na última reunião de condomínio nós, que pertencemos à “nova vaga” de moradores, assumimos o cargo de administradores do condomínio. Esta pluralidade mantém o bairro em movimento e harmonia. Diria mesmo que a vizinhança é a nossa melhor segurança.