Opinião

Bom dia, hoje tenho dez alunos comigo. Importa-se que eles o palpem?

Aumentar o número de vagas nas faculdades de Medicina, indiscriminadamente, quando estas já são das mais altas do mundo, não resolverá o problema de base do sistema de saúde português.

Há uma crença de que mais alunos de Medicina significa mais médicos e que mais médicos significa mais e melhores cuidados de saúde. No entanto, esta ideia é profundamente errada. Veja-se o caso de Portugal, país que forma mais médicos por 100.000 habitantes do que a Alemanha, a Noruega ou a França, sem que isso redunde em resultados melhores quando comparamos a prestação dos sistemas de saúde. Porque será que isto ocorre?

Em primeiro lugar, porque o ensino médico nas universidades tem limites nas capacidades de formação que pode dar aos seus alunos. E isto acontece não só para assegurar a qualidade formativa, mas também por respeito e esguardo para com os doentes. De facto, imagine chegar a uma consulta e ter cinco estudantes a olhar para si e a palpar-lhe a barriga; imagine estar internado, e todos os dias entrarem pelo quarto sete estudantes, que o examinam à vez sob o olhar atento dos restantes; ou imagine chegar ao Serviço de Urgência e ter cinco estudantes a debater-se para o auscultar ou ver-lhe a garganta, enquanto perguntam pela sua medicação habitual, pela sua vida sexual e pelos animais de estimação. E se pensa que este pesadelo é apenas uma visão distante, na realidade é o que está a acontecer, neste momento, nas faculdades de Medicina portuguesas, que se debatem para conseguir que os seus mais de 12.000 alunos contactem com doentes.

Hoje o ensino médico é muito mais que o ensino prático clínico, envolvendo novas componentes associadas à investigação, à gestão e administração hospitalar, às chamadas soft skills associadas ao humanismo e empatia médica, entre muitas outras. Esta formação é revestida de enorme complexidade e exige docentes especializados, infraestruturas de ensino e investigação altamente diferenciadas e centros hospitalares com um grande número de especialidades. Só assim se pode ter um ensino transversal, que habilite o aluno à realidade médica atual, e que só pode ser fornecido nos chamados hospitais universitários. Ainda que se admita que uma parte da formação possa ser realizada em hospitais e centros de saúde mais pequenos, há sempre uma grande componente que não pode ser transposta, sob pena de ser perdida a qualidade da formação médica, tão elogiada nacional e internacionalmente, e de termos médicos que nunca contactaram com determinadas doenças, impedindo a prestação dos cuidados de saúde numa visão integrada do doente. Aliás, hoje a sociedade é cada vez mais informada e exigente, quer ser vista e acompanhada por médicos que saibam mais e sobre tudo. Para isso, precisamos também que o ensino e a formação decorram em locais abrangentes e dinâmicos, com uma população alargada e com uma representatividade de doenças maior.

Infelizmente, nestes locais, o número de vagas é limitado. Não só pelo número de médicos e docentes disponíveis e pela capacidade das infraestruturas – de elevada precariedade atualmente –, mas também pelo próprio número de doentes. Reconhecendo a importância da visualização e prática em doentes reais, o número de alunos é determinado também em função dos primeiros. Ora, por hipótese, se uma determinada doença aparece dez vezes por ano num hospital, e cada aluno deve treinar cinco vezes o tratamento dessa doença, o máximo número de alunos que podemos ter é dois. Aumentar o número de alunos para dez faz com que cada um treine apenas uma vez, com consequências futuras graves na qualidade dos cuidados de saúde. Afinal, o que prefere o cidadão? Que o seu cirurgião tenha realizado a sua cirurgia 5000 vezes antes ou apenas cinco?

Aumentar o número de vagas nas faculdades de Medicina, indiscriminadamente, quando estas já são das mais altas do mundo, não resolverá o problema de base do sistema de saúde português. Na prática, aumentar o número de vagas significa optar por recursos humanos menos diferenciados, menos capazes e com maior probabilidade de errar, em situações que potencialmente podem custar uma vida humana. Isto decorre enquanto, paralelamente, se limita o investimento no Serviço Nacional de Saúde, com menos aposta em equipamentos, inovações tecnológicas ou medicamentosas, ou nos recursos humanos já existentes. Tentar resolver por quantidade um problema que é, principalmente, de qualidade é um erro tremendo, e o seu custo na saúde da população acabará por ser pago, a médio e a longo prazo. Só esperamos que a tutela perceba a tempo e corrija o seu rumo.

A autora escreve segundo o novo acordo ortográfico

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