Morte de afro-americano leva a segunda noite de protestos em Mineápolis

A polícia disparou balas de borracha contra manifestantes que se mostravam pacíficos e a situação escalou: prédios foram incendiados e lojas vandalizadas e pilhadas. Uma pessoa morreu. Guarda Nacional já foi chamada a intervir.

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Os bombeiros responderam a 30 chamadas de auxílio NICHOLAS PFOSI/Reuters
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A polícia disparou balas de borracha contra os manifestantes ERIC MILLER/Reuters
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O presidente de Minneapolis já pediu a intervenção da Guarda Nacional NICHOLAS PFOSI/Reuters

A cidade de Mineápolis, no Minnesota, Estados Unidos, foi palco da segunda noite de protestos pelo assassínio do afro-americano George Floyd, de 46 anos, às mãos de um agente da polícia. Uma pessoa morreu, os bombeiros responderam a 30 chamadas de incêndios e lojas foram vandalizadas e pilhadas, enquanto a polícia respondeu indiscriminadamente com balas de borracha do topo de telhados. A Guarda Nacional já foi chamada a intervir. 

Os manifestantes começaram, na noite de quarta para quinta-feira, a concentrar-se pacificamente em frente à esquadra do agente responsável pela morte de Floyd e, do topo do telhado, a polícia disparou balas de borracha, tendo como resposta a construção de barricadas. O sentimento de injustiça e de raiva ganharam força e os elementos mais radicais tomaram conta da situação. Vários edifícios foram incendiados, com os bombeiros a responderem a 30 chamadas de auxílio, e lojas vandalizadas e saqueadas. 

“Fazemos sempre isto: criamos uma barreira, pomos a polícias nas ruas e em linha, com as suas máscaras, e desumanizamo-los, fazemo-los ficar o mais assustadores possível e temos sempre este resultado. E depois queremos apontar o dedo aos membros da comunidade”, disse à rádio MPR o membro do conselho municipal Jeremiah Ellison. 

A única morte registada nesta segunda noite de protestos aconteceu quando o proprietário de uma dessas lojas disparou contra uma pessoa, que acabou por morrer. As autoridades detiveram o dono e estão a investigar as circunstâncias do homicídio. 

Há muito que a comunidade afro-americana nutre desconfiança e desdém pelas forças policiais de Mineápolis​, acusadas de racismo. A morte de Floyd foi, assim, a faísca num barril de pólvora que estava há bastante tempo pronto para explodir – no Minnesota e por todo o país – e ficou bem patente nas últimas duas noites. Muitas foram as palavras de ordem nas fachadas das lojas a condenar a polícia e o racismo, mas também em homenagem a Floyd. “2020: o ano em que vamos ripostar”, lê-se na parede de uma das lojas. “Que se lixe a polícia”, lê-se noutra fachada. 

Nos subúrbios de Oakdale, centenas de manifestantes juntaram-se à porta da casa de Derek Chauvin, o agente responsável pela morte de Floyd, e escreveram “assassino” no portão da sua garagem, com a polícia a ter de criar um cordão para impedir que os manifestantes voltassem a chegar-se perto da habitação. Protesto semelhante aconteceu também na casa do procurador do Condado de Hennepin, Mike Freeman, responsável pela acusação contra o agente. Ambos os protestos foram pacíficos e, no caso do primeiro, o aparato policial foi bastante significativo. 

Em causa está o assassinato do afro-americano George Floyd na segunda-feira. Desarmado, Floyd foi imobilizado por quatro agentes e um deles, Derek Chauvin, pôs, durante cinco minutos, o joelho em cima da sua garganta até o afro-americano deixar de conseguir respirar e morrer à chegada ao hospital. “Não consigo respirar”, ouve-se no vídeo da acção policial divulgado no Facebook. 

Os agentes procuravam um suspeito de roubar uma loja de conveniência e consideraram que Floyd respondia à sua descrição, alegando no relatório do incidente que resistiu à detenção e que “parecia estar alterado”. A comunidade afro-americana acusa a polícia de considerar os afro-americanos criminosos e de ter critérios diferentes na sua actuação para cidadãos caucasianos e afro-americanos, agindo de forma desproporcional à mínima reacção dos segundos. 

As autoridades têm tentado acalmar a raiva sentida entre a comunidade e prometeram investigar a morte de Floyd e levar os responsáveis à Justiça. O chefe da polícia, Medaria Arradondo, despediu Chauvin e os outros três agentes envolvidos na morte de Floyd, pediu ao FBI que investigasse a morte (o Departamento de Justiça já disse que seria uma prioridade imediata) e pediu calma ao longo da noite desta quarta-feira, sem sucesso. E têm surgido dúvidas sobre se Chauvin já não deveria ter sido afastado antes, com a comunidade a pedir a detenção imediata dos agentes.

Soube-se ainda esta quinta-feira que Chauvin e outro dos agentes filmados no vídeo da morte de Floyd estiveram envolvidos noutros casos de violência policial, noticiou o Daily Beast baseando-se em dados da organização não-governamental Communities United Against Police Brutality. Em 2006, Chauvin foi um dos agentes que disparou contra um homem que tinha esfaqueado várias pessoas quando se queria entregar à polícia e, em 2011, o agente foi suspenso por disparar e ferir um índio. Um terceiro caso aconteceu meses depois ao responder a uma chamada de violência doméstica: disparou contra o agressor alegando que estava a tentar chegar a uma arma. 

À semelhança de Fergunson, em 2014, quando um polícia matou a sangue-frio o afro-americano Michael Brown e houve revoltas durante uma semana, é provável que os protestos continuem na noite desta quinta-feira e o mayor de Mineápolis, Jacob Frey, já pediu a intervenção da Guarda Nacional. 

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