Líder do CDS não afasta apoio a recandidatura de Marcelo, mas para já está na “retranca”

Numa grande entrevista à TSF esta quarta-feira, Francisco Rodrigues dos Santos admite coligações com o Chega, mas impõe linhas vermelhas.

 Francisco Rodrigues do Santos foi eleito líder do CDS há quatro meses
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Francisco Rodrigues do Santos foi eleito líder do CDS há quatro meses LUSA/ANTÓNIO COTRIM

O líder do CDS, Francisco Rodrigues dos Santos, não afasta um eventual apoio do seu partido a uma recandidatura de Marcelo Rebelo de Sousa a Belém em 2021, apesar das críticas que tem feito ao Presidente da República.

Numa grande entrevista esta quarta-feira à TSF, Francisco Rodrigues dos Santos diz que neste momento a prioridade do CDS não são as eleições presidenciais. “As eleições presidenciais são daqui a oito meses, portanto, acho que vamos ter tempo para falar sobre isso. E até ao nível dos ciclos eleitorais, nós temos antes disso eleições regionais dos Açores, que para o CDS também são bastante importantes”, afirmou o líder centrista.

Questionado sobre se tem já uma ideia na cabeça do que é que vai propor ao partido, o líder do CDS declarou: “Eu, neste momento, estou na retranca. Estou à espera que haja uma clarificação de cenários. Quero saber se o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa é ou não candidato. Como sabe, as eleições presidenciais pressupõem uma declaração individual que não depende dos partidos (...) Gostaríamos que os candidatos se apresentassem para depois reunirmos o órgão máximo do partido entre congressos e tomarmos uma decisão depois dessa clarificação de cenário que, neste momento, é bastante prematura”.

Sobre se a sua postura de “retranca” pode ser encarada como relutância em declarar apoio a Marcelo, até pelas críticas que já lhe fez, Francisco Rodrigues dos Santos foi taxativo: “Não. Na qualidade de presidente do CDS procuro ser institucionalista nas relações com o chefe de Estado.” E acrescentou: “Quando noto que pode haver uma determinada inclinação do plano ou que a relação do mais alto magistrado da nação poderá estar a ser, em alguma medida, confundida com um quadrante político, nomeadamente se não for aquele seu de origem, acho que o presidente do CDS tem de dar um sinal de que esperava outro tipo de influência do chefe de Estado. Portanto, isso não significa que nós estejamos condenados a uma crítica acérrima ou que não seja construtiva da função do Presidente da República.

Na entrevista, o presidente do CDS deixou claro que o facto de criticar o Presidente da República não tem necessariamente de inviabilizar um apoio à sua recandidatura. “Nós não estamos a excluir nenhum cenário à partida, mas também temos o direito de apontar construtivamente algumas debilidades ou aspectos que na nossa óptica são menos positivos na actuação do Presidente da República”, sublinhou. Já em relação à pergunta: o que é que diria a um eleitor do CDS que não queira votar em Marcelo Rebelo de Sousa e que esteja a ponderar votar em André Ventura, o líder centrista afirmou: “Diria para se apresentar no conselho nacional do CDS, onde essa matéria será debatida para podermos discutir amplamente o tema. Também já disse muitas vezes que o CDS não está preocupado com candidaturas à direita, seja nas eleições presidenciais, seja em eleições legislativas ou autárquicas”.

Coligações com o Chega

Na grande entrevista à TSF, que acontece na semana em que se assinalam quatro meses desde que foi eleito líder do CDS, também se falou de Adolfo Mesquita Nunes, um nome que tem sido apontado para liderar uma candidatura a Belém e do apoio do CDS-Madeira a um eventual avanço de Miguel Albuquerque como candidato à Presidência da República. Em relação a Adolfo Mesquita Nunes, o líder democrata-cristão foi comedido: “Acho que essa é uma opção que cabe ao Adolfo Mesquita Nunes tomar. Eu acho que só são bons candidatos, aqueles que querem ser candidatos. Portanto, até saber se Adolfo Mesquita Nunes quer ser candidato não poderei sequer formular um juízo porque essa declaração de vontade dependerá em primeira instância dele próprio”.

Quanto à posição assumida pelo CDS-Madeira em relação a Miguel Albuquerque, o presidente do partido começa por argumentar que não teve acesso a essas declarações (…) e acaba dizendo que percebe que haja uma certa solidariedade orgânica na Madeira dado a coligação com o PSD. “Mas é um assunto que também temos de abordar a seu tempo. Não estou minimamente preocupado com isso.”

Sobre eventuais alianças com o Chega, não as coloca de parte.“Acho que os partidos à direita do PS devem ter as mesmas ferramentas que o PS tem no relacionamento com os partidos de esquerda. Esta resposta levou o jornalista a perguntar: “Portanto, a resposta é sim? Ao que o dirigente do CDS sentenciou: “Depende do caderno de encargos, depende das nossas linhas vermelhas, depende das políticas concretas a avaliar localmente. O CDS é um partido democrata-cristão que tem valores firmes que são inegociáveis. Se a ideia é transformar o CDS num partido de protesto, que tenha um discurso de ódio, que coloque uma sociedade contra parte de si mesma, que se opte por um populismo agressivo, que semeie o medo e as fracturas sociais, o CDS não vai para esse discurso, como é óbvio”.

À TSF, o presidente do CDS aproveita para se demarcar de algumas propostas que estão no ADN do Chega, como a prisão perpétua, castração química ou confinamento de ciganos. “Todas essas propostas não são aceitáveis para mim”, declarou, mas faz um sublinhado: “Se me disser assim: nenhuma dessas propostas está consagrada num programa comum à direita, seja com o PSD, com a Iniciativa Liberal ou com o Chega…”

Francisco Rodrigues dos Santos assumiu que se o Chega deixar cair as propostas com as quais o CDS não concorda, o partido terá disponibilidade para entendimentos. “Se chegarmos a um plataforma de entendimento programática que respeite os valores fundacionais do CDS e não enverede por uma espiral populista demagógica e de um discurso populista de ódio e de fractura social, o CDS terá disponibilidade desde que respeite os seus princípios”, vaticinou Francisco Rodrigues dos Santos.