Torne-se perito Opinião

Vírus e antivírus

Entre a não cooperação, que ninguém entenderia, e a não fiscalização, vai uma enorme distância. Será que o presidente do PSD tem entendido e interpretado bem a diferença?

O actual presidente do PSD, Rui Rio, tem estado bem ao não agredir politicamente o Governo, no que toca à pandemia, isto é, ao não fazer desta arma de arremesso e combate político. Para além desta atitude responsável de unidade dos partidos democráticos face a uma crise nacional com origem numa pandemia, há que sublinhar que essa unidade não pode dispensar uma coisa distinta, o facto de competir ao maior partido da oposição a indeclinável função de fiscalização do Governo.

Entre a não cooperação, que ninguém entenderia, e a não fiscalização, vai uma enorme distância. Será que o presidente do PSD tem entendido e interpretado bem a diferença? Ora, algumas pequenas “grandes” coisas a que temos assistido recentemente parecem mostrar que o objectivo principal do senhor deputado Rui Rio não tem sido, manifestamente, fazer uma oposição responsável, apoiando o Governo no que tem de apoiar, embora chamando a atenção para as falhas deste (no que obviamente ajudaria o país), mas antes, novamente e como tem acontecido de forma recorrente, uma obsessão de olhar para dentro do partido de que é presidente e de fiscalizar os “críticos”.

Na realidade, o senhor deputado Rui Rui tem de ver sempre a sombra de um “inimigo interno”, como inexplicavelmente considera os que com ele não concordam. E, como já é seu hábito, vira o combate para o interior do Partido Social Democrata, para a Justiça e para os media.

Os seus conselheiros que lhe expliquem as consequências.

O mau gosto e a falta de sensibilidade são infelizmente patentes em Rui Rio. Em época de pandemia, como em todas as doenças, não se faz desadequado humor. Mas foi precisamente o que aconteceu e para o qual também não tem jeito – diga-se de passagem (mesmo que tal fosse admissível, e não é, sobretudo para os que sofrem a tragédia pessoal e colectiva da doença e dos devastadores efeitos sociais da crise da covid-19).

Em resposta a Ricardo Araújo Pereira em programa televisivo, afirmou: “Os vírus estão em mutação e os vírus no PSD, se reparar, estão sempre em mutação. Eu estou presidente do PSD há dois anos e pouco e se reparar eles já sofreram para aí umas 20 mutações, permanentemente.

O que é que eu tenho feito? Eu, no fundo, o que tenho feito é achatar a curva. Vou achatando, achatando e achatando para quê? Não é para o SNS responder, é para a comunicação social que tem de acolher esses vírus contra mim poder ter capacidade de resposta.

Portanto, aqueles que estão pior, que estão a necessitar de tratamento mais pesado, estão todos internados no Observador. Depois há uns outros que estão internados por outros lados, isto aqui na SIC também há para aí uns ventiladores.

Portanto, se eu achatar a coisa eu controlo isto, mas eles estão sempre em mutação, como já viu.”

E a 6 de Maio, em entrevista à CMTV, criticando a compra antecipada de publicidade institucional: “As empresas de comunicação social são empresas iguais às que fabricam móveis, sapatos, têxteis.”

As afirmações supra descritas revelam-lhe um pouco da alma e do carácter.

Eu, que sempre gostei da Liberdade, sou, aos olhos do senhor deputado Rui Rio, um vírus. Ao menos que me considerasse um electrão livre!

O seu discurso é absolutamente típico e revelador dos pequenos tiques ditatoriais dos supostos líderes que se dirigem a quem não controlam, como se de uma manada se tratasse, ou, agora, pelos vistos, como um vírus.

O senhor deputado não conhece a Justiça nem os media (para além de outras coisas que não vêm ao caso).

Mas o senhor deputado também não conhece as liberdades, a começar pelas liberdades de espírito e de expressão de pensamento. Lamento, mas não está num pedestal, excepto talvez na sua imaginação e numa certa raiva por qualidades que aparentemente não tem.

Lamento tanto. Mas, no que me toca, não “achatará” a minha curva de liberdade!

Se me considera (como a muitos outros) um vírus, a solução é simples: é melhor passar a considerar-me um antivírus contra o seu desejado monopólio de pensamento único.

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