Lançamento da SpaceX foi adiado

Condições meteorológicas ditaram cancelamento a poucos minutos da hora prevista para o lançamento. Pela primeira vez, dois astronautas seriam transportados até à Estação Espacial Internacional por uma empresa privada: a SpaceX, de Elon Musk. Este sábado a NASA vai tentar de novo a descolagem.

Era o início de uma nova era da agência espacial norte-americana NASA no espaço. Quando faltava menos de um quarto de hora para o lançamento, a operação foi cancelada devido às condições meteorológicas que não melhoraram como se esperava. No próximo sábado, espera-se que a natureza ajude e a NASA consiga realizar esta missão especial. O mundo foi convidado a assistir ao regresso de voos espaciais que partem do solo norte-americano após uma pausa de nove anos. Pela primeira vez, os EUA recorrem a uma empresa privada, a SpaceX, para colocar astronautas em órbita. O especial episódio da NASA foi adiado para o próximo sábado na plataforma 39 do Centro Espacial Kennedy, na Florida, e chama-se “reacender o sonho do espaço”.

O início da sessão desta quarta-feira estava marcado para as 21h33 (hora de Portugal continental). Cerca de duas horas antes da hora de lançamento, a NASA transmitia uma curta e entusiástica conversa com Jim Bridenstine, administrador da NASA, e Elon Musk, dono da SpaceX, criada em 2002. Se o administrador da NASA falava num “feito monumental”, o empresário da SpaceX assegurava que nem nos seus sonhos mais delirantes tinha imaginado que este dia ia chegar. “Não posso dizer que isto é um sonho tornado realidade, porque em 2002 eu nem sequer sonhei que isto pudesse acontecer.”

Sublinhando que esta é a porta de entrada para “comercializar o espaço”, o administrador da NASA lembrou – talvez na tentativa de convencer os mais cépticos sobre estas dispendiosas aventuras no espaço – que a tecnologia que permite estes voos também beneficia as pessoas com os pés bem assentes na Terra, nomeadamente no campo das tecnologias que são colocadas ao serviço da saúde. Elon Musk apresentou mais um argumento para celebrar o momento. “Temos de reacender o sonho do espaço. Queremos inspirar as crianças, a nova geração”, defendeu o empresário. E, confessou, os fatos futuristas dos astronautas que demoraram anos a desenhar – “não só tinham de assentar bem, mas também tinham de funcionar bem” – também têm o objectivo de inspirar as novas gerações.

Jim Bridenstine e Elon Musk garantiram ainda que Douglas Hurley e Robert Behnken, os dois astronautas, estavam muito bem-dispostos e prontos para a acção. Depois de uma pausa, Elon Musk partilhou o que pouco tempo antes tinha dito às famílias dos astronautas. “Disse-lhes …vamos fazer tudo para que os vossos pais voltem OK.”

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Jim Bridenstine, administrador da NASA (à esquerda), e Elon Musk, dono da SpaceX REUTERS/Joe Skipper

Quando faltava pouco mais de meia hora, ouvíamos falar sobre a instabilidade do tempo. Esperava-se que as nuvens dissipassem e os ventos soprassem na direcção esperada. Falava-se na possibilidade de adiar o lançamento meia hora ou mesmo reagendar o lançamento para o próximo sábado. Mas a contagem decrescente não parou. Quando faltavam 20 minutos, mantinha-se o suspense e adiava-se a decisão final mais uns minutos. Minutos depois, a contagem decrescente parou.

Tudo passa para o próximo sábado, às 20h22 (hora de Portugal continental). A cápsula Crew Dragon do foguetão Falcon 9 vai levar Douglas Hurley e Robert Behnken, dois dos elementos da chamada “tripulação comercial” que trabalha para a NASA, até à Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês). A chegada ao destino está agora prevista para este domingo. Inicialmente previa-se uma curta estadia de apenas duas semanas na estação espacial, mas é provável que permaneçam por lá por mais algum tempo.

O que é que este voo tem de especial? Até agora os projectos da NASA foram sempre executados com os seus próprios meios, sendo a agência a proprietária e a única responsável pelas operações dos seus veículos espaciais. Em 2011 realizou-se o último voo com a NASA como dona de tudo e desde aí a agência tem “comprado” lugares nos foguetões russos que levam astronautas para a ISS.

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O nascer do Sol esta quarta-feira no Centro Espacial Kennedy, na Florida NASA/Joel Kowsky

Porém, com o contrato de milhares de milhões de dólares assinado em 2014 com a SpaceX, e também com a Boeing, traçou-se o plano da mudança. Ainda que com algum atraso, o novo modelo de operações da NASA arrancará agora com o transporte de tripulação do sector comercial a funcionar baseado numa parceria público e privada. A SpaceX (que já viajou até à estação em testes com a cápsula Crew Dragon sem tripulação) e a Boeing (que criou o foguetão CST-100 Starliner) são as “entidades comerciais privadas” contratadas para o transporte do futuro, num negócio em órbitas próximas da Terra e orientado para o sector comercial.

“Estamos a começar uma nova era no espaço; o espaço vai estar disponível para mais pessoas do que nunca”, anunciou o administrador da NASA, Jim Bridenstine, em comunicado, acrescentando: “Prevemos um futuro em que a órbita terrestre baixa é totalmente comercializada e em que a NASA é um cliente entre muitos clientes e onde vamos ter muitos fornecedores que podem competir em custo, inovação e segurança.” Vem aí um novo serviço de “táxi espacial” mas, por enquanto, será um privilégio de uma mão cheia de aventureiros multimilionários. E da NASA, claro.

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Os dois astronautas a despedirem-se da família, ainda longe de saber que o lançamento seria adiado REUTERS/Joe Skipper

Para a NASA, esta é uma missão que servirá, acima de tudo, para testar e verificar as capacidades da nave, que entre outras particularidades, tem a capacidade de se acoplar à estação de forma autónoma. A Crew Dragon que vai transportar os astronautas para a ISS é uma nova versão mais sofisticada da nave Dragon, que foi construída para transportar carga. Neste caso, a cápsula foi projectada para transportar no máximo sete passageiros, mas nos voos da NASA transportarão apenas quatro, com o restante do espaço ocupado por mantimentos. As naves espaciais para transportar astronautas precisam de passar por um processo que de validação e é basicamente para isso que vai servir esta primeira missão.

Quando for a altura de regressar a casa, Douglas Hurley e Robert Behnken vão cair de pára-quedas no oceano Atlântico. A cápsula e a tripulação serão recuperadas por um navio chamado Go Navigator.

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Donald Trump fez questão de estar presente e chegou ao centro espacial na Florida cerca de duas horas antes do lançamento que acabou por ser adiado REUTERS/Jonathan Ernst

O que se segue? Se a missão da Crew Dragon for bem-sucedida, a SpaceX vai continuar a cumprir o seu contrato de 2600 milhões de dólares com a NASA, que inclui seis missões “operacionais”. A Boeing mantém um acordo semelhante, no valor 4200 milhões de dólares, para o transporte de tripulação dos EUA para a estação espacial com o seu veículo CST-100 Starliner.

Já se sabe há muito tempo que no calendário da NASA está também assinalada uma viagem de regresso à Lua. Há várias propostas que estão a ser analisadas, mas alguns dados já estão definidos: a viagem deverá realizar-se em 2024 e, desta vez, além de um homem os EUA vão levar a primeira mulher à Lua. O que a NASA pretende agora é criar uma base de apoio na Lua para outras missões mais longínquas. “Vamos à Lua para ficar” é o lema da NASA. Esse será o próximo episódio da odisseia da NASA no espaço. Esse ou – como admitiu o administrador da agência espacial norte-americana – um filme com Tom Cruise no Centro Espacial Kennedy numa versão melhorada e aumentada para novas gerações do histórico Top Gun. Tudo para reacender o sonho do espaço. Mas antes é preciso esperar pelo lançamento de sucesso no próximo sábado.

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