Daniel Rocha
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Daniel Rocha

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Desconfinar sem teimosia

No fundo, temos uma enorme obsessão pela realização de exames nacionais, mas não estamos a conseguir garantir aos alunos condições básicas para se prepararem para esse momento de avaliação, que é o acesso igualitário às aulas.

Devemos começar a desconfinar? Sim. É óbvio que, tão cedo, não vamos ter uma vacina ou um tratamento eficaz contra o vírus, por isso, as actividades devem retomar de forma gradual e devem ser adaptadas ao momento adverso que estamos a viver, seguindo as normas da DGS.

Temos de ter a clara consciência de que vamos ter de aprender a viver com o vírus e que não podemos estar eternamente fechados em casa, mas também temos de ter a consciência de que as aulas presenciais do 11.° e 12.° anos retomam porque existe uma espécie de teimosia relacionada com os exames nacionais.

Estamos a perder uma excelente oportunidade para reformular o acesso ao ensino superior, de o tornar verdadeiramente justo, de não deixar para trás aqueles que não têm as devidas condições socioeconómicas para se prepararem para um exame e que, numa fase atípica como a que vivemos, vêem a sua situação agravada.

Algumas normas que foram impostas pelo Governo para a reabertura das escolas são erradas. Porquê que um aluno que não quer fazer um determinado exame é obrigado a ir à aula dessa disciplina? Os alunos que não forem às aulas sem uma justificação médica ficam desprotegidos, uma vez que as escolas não são obrigadas a fornecer um serviço de aulas virtuais. Será que não pensaram que existem alunos que vivem com pessoas que fazem parte de um grupo de risco e podem não querer arriscar as suas vidas ao voltar às aulas?

Na terça-feira, 19 de Março, voltei às aulas presenciais. A minha professora, como faz parte de um grupo de risco, deu a aula a partir de casa, sendo que tínhamos um professor coadjuvante na sala para ajudar. É de louvar o enorme esforço que os professores estão a fazer para nos ajudar. A escola adoptou de forma rigorosa todas as medidas de segurança, os funcionários estão a fazer um trabalho irrepreensível e sentimos que estamos num ambiente seguro para voltar às aulas.

Apesar de eu me sentir seguro, compreendo que os meus colegas que vivem com pessoas que fazem parte de um grupo de risco não se sintam. Assim, ao não fornecermos um serviço de aulas virtuais a estes alunos de forma obrigatória, estamos a comprometer a sua preparação para os exames e, consequentemente, estamos a comprometer o seu futuro.

No fundo, temos uma enorme obsessão pela realização de exames nacionais, mas não estamos a conseguir garantir aos alunos condições básicas para se prepararem para esse momento de avaliação, que é o acesso igualitário às aulas. E, se os professores que fazem parte de um grupo de risco podem ficar protegidos em casa (e bem), os alunos também deveriam ter a mesma opção, sem saírem prejudicados.

Apelo para que o Governo considere o caso destes alunos e que pense em soluções que permitam assegurar que nenhum deles fica sem apoio, apenas por não querer colocar os seus familiares em risco.

É óbvio que não podemos viver para sempre com medo do vírus, é óbvio que temos de começar a sair, a ir trabalhar, a ir para a escola, a ir aos barbeiros e cabeleireiros, a ir comprar livros ou a ir comer ao restaurante, mas também é óbvio que não podemos deixar ninguém para trás, seja nesta fase de pandemia, seja numa altura normal. Neste momento, infelizmente, não é isso que está a acontecer.