Gonçalo Ribeiro Telles

Não abundam em Portugal muitas personalidades com a dignidade, a sabedoria e a humildade inata do Gonçalo Ribeiro Telles. O país terá sempre para com ele uma enorme dívida de gratidão. Que se ergam bem alto as taças neste dia 25 de Maio de 2020!

Foto
Gonçalo Ribeiro Telles PÚBLICO

No dia 25 de Maio, deste ano da pandemia de 2020, comemoram-se e festejam-se os 98 anos de idade do Prof. Arq.º Paisagista Gonçalo Ribeiro Telles.

Figura tutelar da defesa da paisagem e da intervenção ecologicamente fundamentada no território, a ele se fica a dever o lançamento da Política de Ambiente em Portugal, cujas bases programáticas, apesar de muito adulteradas e promiscuamente manipuladas, ainda são as da legislação primeva que ele fez publicar quando lhe deram possibilidade de passar pelo Poder.

Ainda nos Governos Provisórios começou com os primeiros diplomas legais e instituiu na Secretaria de Estado do Ambiente dois serviços fundamentais: o Serviço de Estudos de Ambiente, que seria a matriz para mais tarde se criarem diversos organismos especializados, e o Serviço Nacional de Parques, Reservas e Património Paisagístico, dedicado à Conservação da Natureza e à criação das Áreas Protegidas, mas também ao património inscrito na paisagem, que não era (e continua a não ser…) tido em conta por aquilo que representa: o testemunho mais válido deixado pela vida das sociedades ao longo das gerações.

Já poucos se recordam de o verem, inesperadamente, surgir no jornal da Televisão naquela trágica noite de 1967 depois das catastróficas inundações na região de Lisboa em que morreram muitas centenas de pessoas e foram arrasadas habitações, campos e estradas. E ele surgiu para explicar que tudo se devia à falta de ordenamento do território e à ocupação das cabeceiras das bacias hidrográficas por gente que vivia em condições miseráveis de habitação – um escândalo naquele regime!

Foi mais tarde, enquanto ministro de Estado e da Qualidade de Vida, que fez sair a legislação fundadora da Política de Ambiente, em que se destacam a Reserva Agrícola Nacional (RAN), para defender a pequena percentagem de solos de maior fertilidade de que o país dispõe; a Reserva Ecológica Nacional (REN), a qual, embora muito manipulada, continua a proteger minimamente os valores mais importantes da biodiversidade; os PROTs, que criaram pela primeira vez o conceito de ordenamento regional acima dos municípios; os PDMs, que ainda hoje, apesar de muitas vezes terem saído desequilibrados nas relações de tratamento entre o espaço rural e o urbano, são os instrumentos das intervenções sustentáveis sobre a paisagem; e muita outra legislação de defesa do Ambiente.

Foto
Gonçalo Ribeiro Telles: uma vida ao serviço do país e da paisagem Miguel Manso

As lutas que travou ao longo da vida marcaram a sociedade portuguesa e foram testemunho do pensador e do técnico que estava em regra à frente do seu tempo. Considerado utópico quando há mais de 50 anos se batia pelas hortas urbanas de Lisboa, elas são hoje um sinal da modernidade municipal adaptada à ecologia global.

Vem do tempo do Estado Novo o prestígio que o celebrizou, quer como subscritor de documentos da oposição, quer nas campanhas eleitorais pelos movimentos monárquicos populares e pela CEUD, quer ainda no plano cultural, já que esteve na fundação do Centro Nacional de Cultura (CNC), de que é hoje o único fundador ainda vivo. O CNC foi na época um pólo prestigiado de insubmissão e discussão da política e da cidadania.

Ficou gravada na História de Lisboa a sua intervenção na Avenida da Liberdade com um projecto de urbanismo inovador, que foi recusado pelo município depois de iniciada a sua construção – e de que resultou a sua demissão. E o projecto que propôs incansavelmente durante décadas para o prolongamento da mesma Avenida como um corredor verde até Monsanto – de “penetração de natureza viva no coração de Lisboa”. Como fora já a integração da entrada em Lisboa a partir da auto-estrada do Norte como um corredor verde até ao parque naturalizado de Alvalade.

Eram necessárias muitas páginas para continuar a falar das grandes ideias e projectos de Gonçalo Ribeiro Telles e da sua actividade pedagógica e académica: desde o Instituto Superior de Agronomia, donde saiu por ter sido expulso do ensino quando coadjuvava o Prof. Francisco Caldeira Cabral a lançar o Curso de Arquitectura Paisagista, até à criação do mesmo curso na Universidade de Évora.

Fica tanto por dizer, desde conceitos como paisagem global, jardim do paraíso, e toda uma complexa e holística concepção da Vida, do Homem e da Terra.

Não abundam em Portugal muitas personalidades com a dignidade, a sabedoria e a humildade inata do Gonçalo Ribeiro Telles, cuja vida foi sempre um empenho contínuo em prol da beleza, da integridade do Homem e da Natureza, da liberdade e da cidadania. O país terá sempre para com ele uma enorme dívida de gratidão.

 Que se ergam bem alto as taças neste dia 25 de Maio de 2020!