Opinião

A teoria da ferradura em Espanha

A extrema-direita espanhola é refém do mesmo modus operandi da extrema-esquerda. Uma e outra confundem-se na essência, só que Abascal consegue a proeza de ser ainda mais reacionário do que Pablo Iglésias.

Numa altura em que os nossos vizinhos espanhóis também começam a desconfinar timidamente, assistiu-se em Madrid e noutras cidades a uma verdadeira capacidade de mobilização do partido de extrema-direita, Vox. Santiago Abascal conseguiu convocar milhões de espanhóis e ainda teve tempo para um discurso no carro a partir de Madrid, transmitido em direto para outras localidades. Através das suas palavras, percebe-se que a extrema-direita espanhola é refém do mesmo mondus operandi da extrema-esquerda. Uma e outra confundem-se na essência, só que Abascal consegue a proeza de ser ainda mais reacionário do que Pablo Iglésias.

A denominada caravana da liberdade do Vox para protestar contra as medidas do governo não foi mais do que o autocarro da libertinagem. Não é novidade que qualquer um dos extremos políticos confunde frequentemente as duas. Tanta libertinagem celebrada através do peso da manada imbecil que até acabou por desvirtuá-los do essencial e de muita da critica justa que havia a apontar ao governo de Pedro Sánchez na gestão desta pandemia. Num país que está cada vez mais fragmentado politicamente e onde escasseiam as visões com perspetiva, torna-se essencial constatar algumas coisas através desta manifestação. Uma delas é que o Vox está para o Podemos como a água está para a terra.

Aliás, ao ver as imagens desta manifestação e todo o seu desenlace, não pude deixar de me lembrar de outras num passado recente em Madrid e Barcelona durante o auge da pandemia na Europa, sempre com a chancela do Podemos e que tiveram na linha da frente Irene Montero, ministra da Igualdade e mulher de Pablo Iglesias. Escrevi aqui há cerca de dez dias que pelo facto de Pedro Sánchez se ter deixado engolir por um governo de extremos onde comunistas e separatistas ditam políticas em ministérios preponderantes, Portugal não deveria fazer parte de certa narrativa espanhola junto da União Europeia. A forma como Pablo Iglésias desprezou a quarentena e procurou passar uma agenda extremista através da crise não passou despercebida. Pouco demorou a que os fetiches identitários e alguns dos rancores nacionalistas que sempre resistiram aos tempos viessem ao de cima. Os franquistas madrilenos não desapareceram com o passar dos anos. Quanto muito, cresceram em número e para isso a atual conjuntura também foi decisiva.

Ao português em Madrid que perante as câmaras se mostrava encantado com a “fibra” dos espanhóis em comparação aos “amorfos” dos “tugas” que ficam em casa no lugar de se manifestarem, apetecia-me dizer-lhe que, apesar de tudo, temos de um lado um dos governos que pior lidou com a gestão desta pandemia e, do outro, um que parece ser o seu contrário. Recomendar-lhe ia ainda que fizesse uma visita ao extraordinário Museu do Prado e perdesse umas horas a observar a pintura de Goya que sobreviveu à guerra civil espanhola, fazendo-se acompanhar de um texto de Sena sobre uma dessas obras, mas confesso que não sei se surtiria o efeito pretendido.

Hoje, ainda mais do que ontem, a teoria da ferradura é uma realidade em Espanha que a cada momento se adensa. Mais do que se tocarem, os dois extremos entre comunistas e separatistas de um lado e fascistas mais ou menos “envergonhados” do outro confundem-se e atropelam-se.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

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