Caos nos aeroportos no dia em que a Índia entrou em nova fase de desconfinamento

A Índia voltou a quebrar recordes e registou cerca de sete mil novos casos de covid-19 na segunda-feira. No entanto, o país decidiu reabrir os aeroportos, gerando desentendimento e confusão entre governadores locais e Governo.

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Fila no Aeroporto Internacional de Chhatrapati Shivaji Maharaj, em Bombaim LUSA/DIVYAKANT SOLANKI
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Reabertura dos aeroportos decorreu com elevadas medidas de segurança LUSA/RAJAT GUPTA
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Mais de cem voos foram cancelados LUSA/RAJAT GUPTA
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Uso de máscara é obrigatório e os sapatos e as bagageiras têm de ser desinfectados LUSA/SANJAY BAID
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Nem todos os passageiros conseguiram chegar ao destino que pretendiam Reuters/FRANCIS MASCARENHAS

Longas filas para entrar nos aeroportos, apertadas medidas de segurança e dezenas de voos cancelados. No dia em que voltou a registar um novo máximo do número de novos casos de covid-19  6977 nas últimas 24 horas, segundo números do Governo —, a Índia entrou numa nova fase de desconfinamento, com a reabertura dos aeroportos no país, tendo sido autorizado o retomar de um terço dos voos domésticos.

No Aeroporto Internacional Indira Gandhi, em Nova Deli, passageiros e tripulantes descreveram à Reuters um “ambiente sombrio”, com as forças de segurança a implementarem regras rígidas quanto ao distanciamento social. Os seguranças medem a temperatura a todos os passageiros, o uso de máscara é obrigatório e os sapatos e as bagageiras têm de ser desinfectados.

Além disso, os passageiros que viajaram nesta segunda-feira só tinham autorização para embarcar caso não apresentassem sintomas, estivessem registados na Aarogya Setu, a app do Governo para rastrear a covid-19, e tivessem feito o check-in online. “Parece que estou a entrar numa zona de guerra. Ao stress acrescem as máscaras e as luvas”, relatou Subham Dey, que viajou para o estado de Assam, no Norte do país.

No entanto, nem todos os passageiros conseguiram chegar ao destino que pretendiam. De acordo com os media locais, mais de cem voos foram cancelados. Só no Indira Gandhi, o mais movimentado aeroporto do país, pelo menos 82 voos foram cancelados, segundo o Financial Express.

Vários passageiros furiosos dizem não ter sido informados previamente do cancelamento dos voos. “O nosso voo foi cancelado e não há ninguém para nos dar respostas. Não sabemos o que fazer”, disse um passageiro da cidade de Chennai, na baía de Bengala, à agência ANI, acrescentando que apenas foi informado de que o voo tinha sido cancelado quando chegou ao aeroporto e após ter estado longas horas na fila para entrar. 

Indefinição nas regras de quarentena 

A entrada nesta nova fase de desconfinamento, dois meses após um rigoroso lockdown imposto pelo Governo nacionalista hindu de Narendra Modi, não foi consensual entre os governadores, tendo as negociações, descritas como “muito duras” pelo ministro da Aviação Civil, Hardep Singh Puri, decorrido durante o fim-de-semana. O Governo federal decidiu não impor quarentena obrigatória à chegada dos passageiros, deixando as medidas ao critério de cada estado, o que contribuiu para uma maior confusão entre os viajantes que se acumulavam nesta segunda-feira nos aeroportos.

Durante a negociação com o Governo, os governadores dos estados de Maharashtra, Tamil Nadu e Bengala Ocidental  onde ficam os outros aeroportos mais movimentados do país  alertaram que não estavam preparados para esta nova fase de desconfinamento.

No estado de Mahrashtra, por exemplo, pediu-se mais tempo para preparar o Aeroporto Internacional de Chhatrapati Shivaji Maharaj, em Bombaim. Para já, as autoridades locais não aceitam mais de 50 voos diários, quando, antes da pandemia, eram cerca de 900. Já em Bengala Ocidental, as autoridades apelaram ao Governo central para adiar os voos para Calcutá, região que tem de lidar com os danos causados pelo ciclone Amphan. É expectável o retomar de alguns voos em Bengala Ocidental a partir de quinta-feira.

Dada a perspectiva de quarentena obrigatória, muitos indianos estão a ponderar não voar. “Estou desesperada para ver a minha avó em Bangalore. Ela é idosa, está sozinha e tem problemas cardíacos. Mas a perspectiva de uma quarentena de 14 dias, sem ideia de onde será passada, é demasiado para aguentar. Por enquanto, vou continuar com as videochamadas”, disse Sandhya Kapoor, uma professora de Nova Deli, citada pelo The Guardian.

Nos próximos dias, é expectável que a movimentação de pessoas dentro do país continue a aumentar, não só nos aeroportos, mas também nos terminais ferroviários e rodoviários. Segundo a Reuters, as companhias ferroviárias anunciaram 2600 comboios adicionais para os próximos dez dias, para ajudar os cerca de 3,5 milhões de trabalhadores migrantes que estão retidos a chegarem às suas casas.

Com a quarentena rigorosa imposta a 24 de Março, que deixou o país imobilizado, milhões de trabalhadores migrantes, sobretudo nas grandes cidades como Bombaim ou Nova Deli, ficaram em situação precária, sem emprego e sem casa. Desesperados, e sem meios de transporte para regressar às localidades de origem, decidiram regressar a pé, caminhando, por vezes, distâncias superiores a mil quilómetros. Pelo menos cem pessoas morreram de exaustão ou em acidentes enquanto regressavam a casa.

Nesta segunda-feira, a Índia ultrapassou o Irão no número de casos confirmados de covid-19 e entrou para a lista dos dez países com mais casos a nível mundial. Segundo os dados da Universidade Johns Hopkins, a Índia regista 139.911 casos de covid-19 e 4039 mortos.

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