Falta mundo às opiniões que ouço à minha volta

Vou acompanhando com estranheza o chavão do momento: “A vida é mais importante do que a economia!” Certo. Estamos todos de acordo. Mas, e quando a economia começa a tirar vidas?

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Em Banguecoque, o artista Mue Bon pinta um mural de elogio aos profissionais de saúde que combatem a covid-19 Reuters/JUARAWEE KITTISILPA

Podem criticar-me à vontade, mas a vida levou-me por caminhos que me fizeram dar de frente com algumas das maiores catástrofes humanitárias dos últimos tempos. Guerra na Síria, Congo, Iraque, Iémen, Sudão do Sul e outras quantas.

Vou-vos contar um “segredo”: é horrível ver pessoas a morrer. É dilacerante quando sentimos que não “precisavam” de morrer. E há dores que carrego até aos dias de hoje quando penso nas vidas que me morreram nas mãos e que poderiam ter sido salvas, se tivesse mais recursos. É horrível. Causa-me tristeza, angústia e até uma certa revolta. E a única forma que eu tenho encontrado para manter a minha sanidade mental é mantendo o meu foco em duas coisas: primeiro, fazer o que depende de mim; e, segundo, trazer as vozes que tenho dentro de mim aos que me rodeiam.

Sou ingénuo ao ponto de acreditar que a maioria das pessoas pensaria como eu, se tivesse visto o que eu vi. Sem querer ser condescendente, acredito que falta um bocado de mundo às opiniões que ouço à minha volta.

Ser decisor político em Portugal significa pensar no melhor para dez milhões de pessoas. Ter um pensamento humanitário é viver na utopia dolorosa de que somos uma família de quase oito mil milhões e que a minha vida e dos meus mais queridos não é, nem deve ser, mais importante do que nenhuma outra desta mesma casa. Temos todos o mesmo direito à vida.

Vou acompanhando com estranheza o chavão do momento: “A vida é mais importante do que a economia!” Certo. Estamos todos de acordo. Mas, e quando a economia começa a tirar vidas?

Estou preocupado, há mais de dois meses, com a crise sanitária, económica e social que tudo indica que não terá paralelo nas memórias de ninguém vivo. E rapidamente perdi a esperança que daqui viria uma reflexão colectiva para melhor. Sinto que esta ameaça à vida veio catapultar os níveis de egoísmo espicaçados pelo facto de estarmos todos a sofrer de solidão... Vejo os indivíduos e as sociedades a olharem cada vez mais para dentro, esquecendo-se que respiramos todos o mesmo ar e bebemos todos da mesma água. Era disto que falávamos antes deste vírus, mas já nos esquecemos...

No desespero, e com uma enorme sensação de impotência regresso aos dois pontos que me tiram da depressão:

  1. Sou médico e tenho-me esforçado bastante para que não morra tanta gente nos Cuidados Intensivos. E reforcei a minha atenção e o meu apoio a muitas organizações não governamentais que protegem os mais fracos, em Portugal e no mundo.
  2. Há que dar voz às pessoas que ficaram sem emprego, que não têm como alimentar os seus filhos. Há que dar também voz ao mundo incontável de gente que está a morrer, porque o mundo dos ricos parou. Há que desfocar o mundo deste monotema, porque enquanto estamos afastados e distraídos esquecemo-nos do que nos une — os afectos, as emoções, a empatia, o sentimento de pertença à mesma família. E enquanto olhamos para o lado há muitas vidas a perderem-se no anonimato, a dos mais frágeis. E isto não está certo!

Não podemos ficar imunes ao melhor que há em nós. O desafio é enorme e é longo. Não escrevo de uma moralidade superior. Escrevo para que não me esqueça.