Uma estátua de um toureiro é desinfectada em Ronda, sul de Espanha
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Uma estátua de um toureiro é desinfectada em Ronda, sul de Espanha REUTERS/Jon Nazca

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Fora de cena quem não é de cena

Se este sector se diz marginalizado é porque, de facto, ele está à margem da Cultura. Ele não faz realmente parte de uma cultura positiva, que alimenta o povo, que lhe acrescenta. Falamos de um tipo de actividade cultural que está ultrapassado e deve, tal como tantas tradições culturais do passado, ser abolido.

O impacto da pandemia no sector cultural tem sido devastador. São diversas as actividades que estão paradas, com inúmeras/os funcionárias/os em layoff ou mesmo sem contrato, famílias com pouco ou nenhum apoio e, verdade seja dita, em muitas dessas actividades, independentemente do que seja estipulado pelo Governo, não se sabe que tipo de normalidade virá a existir.

Em Portugal, dentro da tutela da Cultura, está uma indústria cuja actividade fundamental assenta num exercício de violência contra animais. Falo da tauromaquia. Sim, é uma actividade regulamentada nos termos da lei, bem sei. Também sei que nem tudo o que é legal é eticamente aceitável. Falo de uma actividade que é apenas apreciada por uma facção de pessoas que cresceram com ela, habituadas àquela realidade, às quais acrescem umas poucas que, não tendo sido esse o caso, por alguma razão se encantaram pelo mundo tauromáquico. Tal como sucede com todos os espectáculos que implicam público ao vivo, também a tauromaquia teve eventos cancelados e alguns adiados para data incerta.

A este propósito, veio o sector tauromáquico, através da Federação Portuguesa de Tauromaquia, apresentar ao Governo e à tutela um pacote de 21 medidas de apoio que, na maioria, são absolutamente surreais. Queixam-se, nos seus sites e nos seus fóruns privados, que estão a ser, e cito, “marginalizados”. Indignaram-se com o facto de o primeiro-ministro, ministra da Cultura, ministro da Economia e ministra da Saúde terem reunido com uma série de agentes culturais e terem deixado a tauromaquia de fora e reclamam que nem as suas missivas nem os pedidos de reunião foram respondidos.

Claro que a Cultura deve, aliás tem, que ser apoiada pelo Estado, não há dúvidas relativamente a isso. Sem cultura não há país. À parte de toda a riqueza que nos traz, mesmo nesta altura difícil, se pensarmos bem, aquilo que nos tem ajudado a aguentar melhor os dias não tem sido mais do que a cultura, nas suas várias vertentes. Ninguém pode negar este facto.

Em todas as áreas afectas à Cultura, são milhares os funcionárias/os e empresárias/os de variadíssimas funções que estão sem capacidade económica para seguirem as suas actividades. Pese embora já se tenha definido “cultura” de mais de 200 formas diferentes, é muito comum encontrar — quer na antropologia, na filosofia e/ou noutras ciências sociais —, a ideia de que esta tem um carácter dinâmico, evolutivo.

Ora, a tauromaquia nada tem de civilidade e em nada representa progresso. Trata-se de uma prática que já não deveria ter lugar nos tempos que correm, pois assenta única e exclusivamente na violência. Hoje, com tudo o que sabemos sobre a sensibilidade e a senciência dos animais, neste caso, bovinos (e cavalos), não é, para a maioria da população, aceitável que isto continue a suceder — e, pior, que seja apoiado com dinheiros públicos.

Em desespero pela falta de respostas, o sector dirigiu-se aos grupos parlamentares. Alguns grupos e alguns membros do parlamento em particular, independentemente do grupo, vieram tomar as dores da tauromaquia. Quem são e porque o fizeram? Algumas dessas pessoas são, elas próprias, aficionadas e/ou têm interesses pessoais na dita indústria. Como se poderá ver em algumas intervenções recentemente feitas no parlamento, não há objectividade, não há noção de que não se pode querer comparar a tauromaquia a nenhuma outra forma de cultura, porque, efectivamente, elas não têm comparação. Uma trata de humilhação, subjugação, sangue e morte, e as demais tratam de beleza, de criação, de crescimento intelectual e moral, de avanço civilizacional. As tradições das sociedades não são nem devem ser concepções estanques. Se assim fosse, ainda hoje teríamos, apenas com a desculpa da tradição, práticas horríveis e atentatórias dos mais básicos Direitos Humanos.

Se este sector se diz marginalizado é porque, de facto, ele está à margem da Cultura. Ele não faz realmente parte de uma cultura positiva, que alimenta o povo, que lhe acrescenta. Falamos de tipo de actividade cultural que está ultrapassado e que deve, tal como tantas tradições culturais do passado, ser abolido. Já foi o seu tempo, quando não se sabia mais nem melhor. Agora é tempo de reconverter a actividade e não ceder a um pequeno grupo de apaixonados. Sim, porque é disso que trata a existência da tauromaquia; daquilo a que orgulhosamente chamam afición.

Não são milhares de postos de trabalho em risco, nada disso. São muito poucas as pessoas que subsistem única e exclusivamente da tauromaquia. As restantes têm outros negócios e outras valências. Tantas vezes lemos e ouvimos responsáveis da área admitirem que só a sua “paixão pela festa” é que ainda a mantém. “E quanto a quem, de facto, tem menos recursos e só vive mesmo daquilo?”, perguntarão. Esse reduzido número de pessoas, usualmente ligadas ao sector da agricultura, poderá ser redireccionado. Claro que as pessoas devem ser apoiadas, claro que, em 2020, num país da Europa civilizada, ninguém deveria passar necessidades, muito menos fome. Mas atenção, não é isso que está em causa quando mais de 114 mil pessoas dizem, em três países distintos da Europa onde ainda existe tauromaquia (Portugal, Espanha e França), que não querem ajudas públicas a essa indústria. Não estamos a desprezar quem passa necessidades, estamos a querer que elas sejam apoiadas sem que mais ninguém seja prejudicado. Não é uma utopia; é perfeitamente exequível, assim haja vontade.

Posto tudo isto, sucede que esta quarta-feira, 20 de Maio, o silêncio por parte do Governo foi quebrado. O primeiro-ministro disse, claramente, que o Governo “não tenciona dar nenhum apoio extraordinário a essa actividade”, referindo-se à tauromaquia. Assim esperamos. Eu e todas as pessoas que acreditam que nem um euro deveria ser direccionado para aquela vergonha.

É mais do que tempo de dizermos “não” àquele tipo de exercício degradante. Enquanto povo, somos tão melhores do que aquilo. Não é por acaso que apenas oito países no mundo ainda têm tauromaquia e cada vez com menos expressão. É tempo de a deixarmos guardada na História como algo de uma altura em que não sabíamos melhor. Reconvertam-se as actividades. Apoie-se essa reconversão.

E um recado final, em jeito de repetição: não, a tauromaquia não é um sector igual aos outros que a Cultura tutela. Por mais que se queira misturar, nunca será. E não, não há nada de elitista nisto. Chama-se decência. Portanto: “Em cena quem é de cena e fora de cena quem não é de cena”.

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