América Latina: Peru, segundo com mais casos de covid-19, primeiro na ajuda económica

Presidente peruano continua com taxa de aprovação alta (80%), apesar de mais de cem mil casos e mais de três mil mortos. O país, que está em isolamento desde 16 de Março, teve o segundo maior número de casos diários na quarta-feira.

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Um profissional da saúde durante uma manifestação de protesto, em Lima, contra a falta de material de protecção nos hospitais Sebastian Castaneda/Reuters

O Peru é o segundo país da América Latina com mais casos de covid-19 (104.020), a seguir ao Brasil (291.579), sendo o terceiro com mais mortos (3024), superado pelo México, que tem pouco mais da metade dos infectados (56.594), mas o dobro das mortes (6090). Mesmo assim, o Presidente Martín Vizcarra e o Governo mantêm uma taxa de aprovação elevada, com a do chefe de Estado a estar agora nos 80%, de acordo com a sondagem da Ipsos para o diário Peru 21.

O país está em estado de emergência desde 16 de Março, três dias antes de se registar a primeira morte oficial por causa da pandemia, com fecho de fronteiras, cancelamento de viagens (aviões, barcos, comboios e automóveis particulares), isolamento social e recolher obrigatório uns dias depois. O estado de emergência tem vindo a ser prolongado desde então e Miguel Palacios, o bastonário da Ordem dos Médicos, já pediu ao Governo que o prolongue até 11 de Julho. Para já, vigora até 11 de Junho.

Ao contrário do Brasil, o Peru agiu cedo e em força, a sua debilidade em matéria de saúde pública assim o exigia. E com mais de 50% da sua mão-de-obra no sector informal, o Governo aprovou programas de ajuda social e empresarial que totalizam cerca de 9% do Produto Interno Bruto, de acordo com um estudo da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, que contabilizou as injecções financeiras feitas pelos Governos de 168 países.

Um valor que coloca o Peru na liderança na América Latina, onde os apoios públicos se têm mantido abaixo da média mundial – mesmo quando a região superou esta quinta-feira os Estados Unidos e a Europa como a região com maior número de casos diários. Nos países latino-americanos, os apoios públicos dos Estados à economia ficam-se por uma média de 2,4% do PIB, enquanto a média mundial chega a 3,7%.

Ainda esta quinta-feira, o Governo peruano aprovou um decreto de urgência para mitigar os efeitos económicos causados nas indústrias culturais, nas artes e no património pela pandemia. Serão 50 milhões de soles (quase 13,2 milhões de euros) para apoiar aqueles que trabalham nas actividades culturais, como artistas, artesãos, gestores culturais, empresários e associações.

Além disso, o Banco de Crédito do Peru conseguiu arrecadar a maior quantidade de fundos numa campanha de solidariedade na história do país. Em três semanas, a campanha #YoMeSumo juntou 126,3 milhões de soles (33,3 milhões de euros) que estão a ser distribuídos a milhares de famílias dos sectores mais afectados.

Mesmo assim, mais de nove semanas de isolamento estão a deixar as suas marcas, que o diga a popularidade de Vizcarra, que desceu 3% em relação a Abril, tal como a do Governo, situando-se esta agora em 65%. As autoridades começaram a aligeirar as regras da quarentena, permitindo desde segunda-feira que os menores de 14 anos possam sair à rua acompanhados por um adulto, com excepção das zonas consideradas de alto risco.

Os números continuam a ser preocupantes. Na quarta-feira, os 4537 casos positivos em 24 horas foram o segundo maior aumento num só dia desde o princípio da pandemia. Há casos de pessoas que morrem em suas casas por falta de assistência e de cadáveres que esperam horas antes de serem recuperados pelas funerárias para serem cremados ou enterrados. Imigrantes venezuelanos foram contratados para ajudar na recolha dos mortos.

“Todos os dias peço a Deus para não ser contaminado”, conta ao jornal argentino Clarín Jhoan Faneite, um electricista venezuelano de 35 anos que há dois anos imigrou para o Peru fugindo da crise económica e agora trabalha numa funerária.

As autoridades instalaram cerca de duas centenas de contentores nos hospitais de Lima, a capital, para conseguir manter os cadáveres que esperam para ser cremados a uma temperatura de zero graus e assim evitar juntar mais focos de doença a uma situação de calamidade.

As autoridades já consideram a pandemia como o pior desastre de saúde pública a atingir o país desde a chegada dos europeus em 1492 e, isto mesmo quando, segundo as estimativas, o número de infectados está substancialmente subnotificado, calculando-se que possam ser pelo menos o dobro.