Covid-19: foco na Azambuja é um dos mais preocupantes na região de Lisboa

No eixo da Estrada Nacional 3 (Carregado-Azambuja) funcionam cerca de 220 empresas com perto de 8500 postos de trabalho. Muitos dos trabalhadores vêm de outros concelhos da região de Lisboa e Vale do Tejo. O mais recente foco é na Sonae mas os trabalhadores dizem-se tranquilos.

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O centro de distribuição da Sonae, na Azambuja Rui Gaudêncio
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O centro de distribuição da Sonae, na Azambuja Rui Gaudêncio
No Espadanal desembarcam todos os dias centenas de trabalhadores da plataforma logístcia
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No Espadanal desembarcam todos os dias centenas de trabalhadores da plataforma logístcia Miguel Manso

Apesar de nesta quinta-feira ser feriado na Azambuja, nem por isso a laboração parou no centro de distribuição em que a Sonae centra a logística. Sentado à porta da fábrica, Everson de Lima, vindo há dois anos do nordeste brasileiro, espera por um autocarro que já passou. O grupo fretou autocarros para evitar que os trabalhadores tenham de usar o comboio nas deslocações entre a casa e o emprego, mas tanto nesta quinta-feira como no dia antes partiram vazias, sem um único passageiro, as carreiras especiais que deviam levar quem despega do turno às 18h20.

Os motoristas não sabem explicar muito bem a falta de afluência. Acham que os operários continuam a preferir o comboio mas a estação ferroviária também está praticamente deserta. Os magotes de trabalhadores que se viam até há pouco tempo a embarcar e desembarcar no apeadeiro às horas de ponta acabaram, assegura quem entra e sai da fábrica. Everson esticou-se a trabalhar mais um bocado na unidade de frio, onde apareceram os casos de covid-19, e perdeu o transporte gratuito para casa, na Póvoa de Santa Iria, onde o esperam a mulher e dois filhos pequeno.

Tem 28 anos e não se mostra assustado com o que se passa. Diz que nem conhecia os colegas que ficaram doentes. Fizeram-lhe esta quinta-feira o teste ao coronavírus, cujo resultado saberá dentro de 24 horas, e os cuidados dentro das instalações, explica, são mais do que muitos. “As pessoas ficam falando. Mas do meu ponto de vista eles estão tratando muito bem do problema aí dentro”, assegura. Há dois meses a separar as mercadorias que hão-de ir parar às prateleiras dos supermercados, Everson enumera as várias medidas adoptadas no combate ao vírus, da medição da temperatura à disponibilização de álcool gel em todos os corredores do armazém em que trabalha. “Fornecem-nos luvas e passaram a dar-nos mais máscaras para as podermos trocar de duas em duas horas, ou coisa assim. E nas áreas de fumo só deixam ficar seis pessoas de cada vez. Quando vêem alguém sem máscara posta a pessoa é chamada à atenção”.

As chefias “preocupam-se muito”, e na semana passada chegaram a mandar parar a laboração durante algum tempo para falarem do problema. O facto de alguns operários serem de origem asiática não criou, segundo este operário, nenhum problema de comunicação das medidas de prevenção: “Conversam com eles em inglês”. Talvez os infectados tenham apanhado a doença fora das instalações da Sonae, nos transportes públicos, aventa. A pandemia já se tinha instalado quando o nordestino tornou operário neste armazém. “A gente precisa de trabalhar, né?”, atira, antes de se levantar  de mochila às costas para apanhar um transporte alternativo aos autocarros fretados, que não levaram ninguém.

Com perto de 200 casos de covid-19 confirmados entre trabalhadores de empresas de logística, transformação e distribuição instaladas no concelho - na Sonae (proprietária do PÚBLICO) detectou-se o mais recente foco - a Azambuja é, nesta altura, uma das grandes preocupações das autoridades de saúde na região de Lisboa. Não só pelo aumento exponencial do número de casos nas últimas semanas, mas porque no eixo da Estrada Nacional 3 (Carregado-Azambuja) funcionam cerca de 220 empresas com perto de 8500 postos de trabalho. E boa parte destes funcionários vive em outros concelhos da região, num raio que pode ir até à margem sul do Tejo e a zonas do Oeste e do interior ribatejano.

Também por isso, os transportes públicos têm sido vistos como uma das principais vias de potencial contágio e o caso já motivou, inclusivamente, reuniões com o ministro das Infra-estruturas e com responsáveis da CP. Outra preocupação é o facto de boa parte destes trabalhadores pertencer a comunidades imigrantes que vivem, por vezes, em condições precárias e/ou alojados em grupos, onde a propagação do novo coronavírus poderá ser facilitada. Por outro lado, a diversidade de origens e de zonas de residência complica o controlo da situação, notando-se que o concelho de Azambuja soma, nesta altura, 67 casos de infecção e que os restantes já identificados em trabalhadores das empresas locais se espalham por concelhos vizinhos como Alenquer, Vila Franca de Xira e Cartaxo, mas também por zonas mais distantes como Loures, Sintra ou mesmo Almada.

Luís de Sousa, presidente da Câmara de Azambuja, foi dos primeiros a alertar para os riscos desta situação e para a necessidade de melhorar as condições de transporte nos comboios da CP, utilizados diariamente por alguns milhares daqueles trabalhadores. Esta quinta-feira, a autarquia azambujense constatou que as insistências junto do Governo estão a produzir efeitos com medidas de reforço da sinalização e de sensibilização dos passageiros nas estações ferroviárias e acções de acompanhamento promovidas pela GNR nessas mesmas estações. O objectivo é fazer cumprir as normas de distanciamento e de utilização de máscaras para minimizar os riscos de contágio.

Por outro lado, revelou Luís de Sousa na reunião de câmara de terça-feira à tarde, já está a ser feito um levantamento de toda a comunidade migrante que existe no concelho de Azambuja, com o apoio do Alto Comissariado para as Migrações, procurando também concertar esforços para “a sensibilização destas comunidades para a problemática da covid-19”.

A câmara anunciou também que as principais empresas de logística comprometeram-se a tentar desfasar os horários, de modo que os trabalhadores não se cruzem nas entradas e saídas e nos acessos e chegadas dos comboios, evitando, assim, maiores aglomerações nas estações e apeadeiros.

Na tarde de quarta-feira, a União de Sindicatos de Lisboa (USL) promoveu uma conferência de imprensa no apeadeiro do Espadanal de Azambuja, exigindo mais medidas para proteger os trabalhadores da indústria alimentar, da logística e dos transportes que “nunca deixaram de trabalhar, mesmo em contexto de surto epidemiológico”, garantindo o abastecimento de bens essenciais, como é a alimentação, muitas vezes sem estarem garantidas as medidas de protecção de saúde e segurança dos trabalhadores. “Num momento de desconfinamento e de retoma exige-se que sejam tomadas medidas urgentes, que tornem os locais de trabalho seguros”, defende a USL, que reclama mais e melhores transportes públicos, fornecimento de equipamentos de protecção individual adequados, fornecimento de biocidas que possam ser constantemente utilizados pelos trabalhadores para se higienizarem e reorganização de espaços e de horários de trabalho de forma a “diminuir o tempo e intensidade da exposição ao risco”. A USL propõe, ainda, a criação e organização de equipas de intervenção “em caso de perigo grave e eminente”, a realização de exames médicos para identificar trabalhadores especialmente vulneráveis e o reforço da fiscalização por parte da Autoridade para as Condições do Trabalho.

Neste eixo da Zona Industrial Vila Nova da Rainha-Azambuja funcionam grandes complexos logísticos dos grupos Sonae (proprietária do PÚBLICO), Auchan e Jerónimo Martins e indústrias do sector alimentar como a Avipronto. Esta unidade industrial foi o maior foco do problema, com 129 casos confirmados de infecção entre os seus cerca de 350 trabalhadores. A empresa esteve encerrada durante alguns dias por ordem das autoridades de saúde, foi alvo de acções de desinfecção e reabriu no dia 11, com cerca de 10% do seu volume de produção. Nesta altura, segundo o presidente da Câmara de Azambuja, decorre uma segunda fase de testes aos funcionários da Avipronto.

Mais recentes são os casos de infecção detectados no complexo da Sonae, que emprega mais de 3000 funcionários e regista, segundo a Câmara, mais de meia de centena de testes positivos.

Na conferência de imprensa desta quinta-feira, a directora-geral da Saúde, Graça Freitas, sublinhou que estes 70 funcionários são “trabalhadores jovens”, muitos dos quais vivem em conjunto em alojamentos por estarem deslocados, e “estão clinicamente bem, não estão internados”.

Segundo Luís de Sousa, estas empresas têm procurado apostar na contratação de autocarros para transporte dos seus funcionários, visando reduzir o risco de contágio nos comboios. É o caso da Sonae, que, em comunicado emitido esta quinta-feira, diz que"desde o início da pandemia que a empresa introduziu uma série de medidas por forma a conter a disseminação do surto, sendo que apenas 1/3 dos colaboradores usam comboios” e que já estão "a reforçar há várias semanas o serviço de autocarros próprios”, com a duplicação do número de autocarros e a higienização, de forma à lotação ser apenas metade da capacidade, garantido o distanciamento social.

As 20 maiores empresas reuniram, no dia 14, com a Câmara, representantes do Governo, autoridade de saúde, Protecção Civil e GNR, no sentido de concertar medidas. Os representantes das empresas mostraram-se disponíveis para integrar uma comissão que acompanhe mais activamente os desenvolvimentos da situação.

Quebra de rendimentos complica 

Rui Corça, vereador do PSD na Câmara de Azambuja, alertou na reunião que os baixos salários e a perda de rendimentos das famílias de alguns destes trabalhadores podem levar a que descurem um pouco as medidas de precaução. “As pessoas ganham pouco e não se podem dar ao luxo de perder rendimentos. Provavelmente este tipo de situação leva a que algumas precauções estejam a ser um pouco negligenciadas porque precisam de continuar a trabalhar e de continuar a colocar comida na mesa”, sublinhou, vincando que, quando o país entra no desconfinamento, o concelho de Azambuja estará numa espécie de “contraciclo”, com o número de casos a aumentar.

Luís de Sousa não tem a mesma opinião: considerou que a Câmara tem feito o que deve fazer e tudo o que está ao seu alcance e que os números locais não se têm agravado nos últimos dias – o concelho tem 67 casos confirmados, dos quais 44 ainda activos e 21 recuperados. Regista, ainda, duas vítimas mortais.

Luís de Sousa salientou que muitas destas empresas estão, agora, a fazer testes para conhecer melhor a situação e que tem sido possível juntar esforços da Câmara, do Governo e das autoridades de saúde, de segurança e da protecção civil. “Vamos ver o que vai acontecer, mas a Câmara está a fazer o que deve fazer, estamos no bom caminho. E estamos a colaborar com as empresas, queremos cá as empresas e não queremos que nenhuma se vá embora”, rematou o edil, na sessão camarária da passada terça-feira.

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