Editorial

Costa resolveu o seu problema e criou outro à direita

A jogada de antecipação do líder do PS manietou PSD e CDS e agora pouco mais lhes resta do que serem os figurantes de uma campanha na qual entrarão pela porta dos fundos.

António Costa empurrou Marcelo Rebelo de Sousa para um segundo mandato como Presidente da República, antecipando-se ao próprio, numa conjuntura que ameaçava ser-lhe desfavorável devido à falta de comunicação com o “Ronaldo das Finanças”. O aluno trocou as voltas ao professor. Costa não surpreendeu apenas Marcelo. Surpreendeu o próprio PS – fê-lo, aliás, enquanto primeiro-ministro, numa visita a uma fábrica de automóveis alemã — e ciente de que o congresso dos socialistas só se realizará no primeiro trimestre de 2021, já depois das presidenciais resolvidas. As presidenciais são um irritante permanente para o PS.

Mas Costa surpreendeu, também, uma direita atónita e incapaz de fingir o seu desamor por este Marcelo. PSD e CDS passaram da desconfiança da sua parentalidade para uma clara orfandade face a um Presidente escolhido pelo eleitorado de direita: Miguel Albuquerque será um novo Defensor Moura e Adolfo Mesquita Nunes (apoiado pela Iniciativa Liberal) ou inspira um casamento ou causa um terramoto no Caldas. A jogada de antecipação do líder do PS manietou os dois partidos e agora pouco mais lhes resta do que serem os figurantes de uma campanha na qual entrarão pela porta dos fundos.

Ana Gomes tem mais do que razões para se candidatar. O eleitorado tem dela a imagem de alguém com coragem para confrontar Marcelo ou Ventura com toda a frontalidade de que tem dado provas em todos os casos em que se envolve. Se há alguém que não depende de meras tácticas políticas e se orienta por segundas intenções, é Ana Gomes, por muito que o estilo seja desapropriado ou o seu tom roçague o populismo.

O PS que sobreviveu ao confronto entre Soares e Alegre ou entre Sampaio da Nóvoa e Maria de Belém irá eleger Marcelo com pragmatismo de nota artística. Será curioso saber se a esquerda do PS se juntará a Francisco Assis, o primeiro a sugerir o nome da ex-eurodeputada, e se Ana Gomes conseguirá que a sua candidatura seja um espaço alargado de convergência a outros partidos de esquerda.

Costa resolveu o seu problema, criou outro à direita e instigou Ana Gomes a candidatar-se. Caso esta avance, o problema, de facto, será do BE e do PCP. Os seus candidatos habituais, a constante Marisa Matias e o camarada anónimo da praxe, arriscam-se a ficar atrás de Ana Gomes e de Ventura.

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