Primeira-ministra da Nova Zelândia sugere semana de quatro dias para recuperar turismo

A hipótese de ter quatro dias de trabalho e três dias de folga foi referida pela primeira-ministra neozelandesa num comentário informal no Facebook. A ideia é dar mais flexibilidade aos trabalhadores para que possam aproveitar o tempo livre e estimular o turismo.

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Os primeiros dias de desconfinamento na Nova Zelândia, no final de Abril REUTERS

A primeira-ministra neozelandesa, Jacinda Ardern, sugeriu às empresas do país que ponderem optar por uma semana de quatro dias de trabalho para que os funcionários possam ter mais flexibilidade para sair e passear – o objectivo é reavivar a indústria do turismo, uma das mais afectadas pela pandemia de covid-19, numa altura em que as fronteiras continuam fechadas.

Ardern diz que uma das boas notícias é que “60% da indústria do turismo na Nova Zelândia é garantida por turismo doméstico”, mas muitos trabalhadores queixam-se de falta de flexibilidade para viajar e para conciliar passeios com a vida profissional.

“Ouço muitas pessoas a dizer que deveríamos ter uma semana de quatro dias de trabalho – e, em última instância, essa é uma decisão entre empresas e trabalhadores”, começou por dizer num comentário informal feito num directo do Facebook, na terça-feira. “Há muitas coisas que aprendemos com a covid-19, incluindo a flexibilidade de as pessoas trabalharem a partir de casa, a produtividade que daí advém. Aconselho os empregadores a pensarem nisso, se estiverem numa posição em que é possível fazê-lo e em que funcionaria no ambiente de trabalho – porque, de certeza, iria ajudar o turismo em todo o país”, concluiu.

O comentário foi feito depois de uma visita à cidade de Rotorua – uma das regiões mais turísticas do país e o último lugar que visitou antes da quarentena, conta –, onde falou com comerciantes locais e com empresários do sector do turismo, restauração e alojamento. Aí apercebeu-se da necessidade de fomentar o sector, sobretudo enquanto as fronteiras continuarem fechadas a estrangeiros.

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Primeiros dias de desconfinamento numa praia perto de Auckland, na Nova Zelândia REUTERS

“São tempos extraordinários e devemos estar abertos a ideias extraordinárias”, afirmou mais tarde, numa conferência de imprensa divulgada ao final do dia em directo no Facebook. A primeira-ministra tem utilizado as redes sociais para fazer actualizações diárias da evolução da pandemia no país. 

O sucesso da Nova Zelândia

A Nova Zelândia tem quase cinco milhões de habitantes e regista um total de 1503 casos de infecção e 21 mortes. Os números podem parecer baixos comparados com outros países, mas a primeira-ministra afirma que tal só acontece porque foi imposta uma quarentena de cinco semanas que permitiu rasgar as cadeias de transmissão – a mesma razão pela qual os neozelandeses podem agora voltar a sair à rua e até ir a bares e discotecas, sempre com cuidados.

“Sabemos que um único caso de covid-19 se pode transformar em 90 depois de uma saída à noite ou de um simples evento”, afirmou Ardern nessa conferência de imprensa de terça-feira. “A nossa jornada está longe de estar terminada.”

Ardern anunciou no final de Abril a “eliminação” do novo coronavírus na Nova Zelândia, ressalvando que tal significava que o número de casos diários desceu para menos de dez e que as autoridades conseguiram identificar a origem de todos. Não significa que o vírus tenha sido erradicado. “A eliminação significa que podemos chegar aos zero casos, mas que depois disso podemos assistir ao surgimento de um pequeno número de casos”, disse Jacinda Ardern nesse dia em que se registavam 19 mortes e 1469 casos de infecção pelo vírus SARS-CoV-2. “Isso não significa que falhámos, significa apenas que vamos poder manter a nossa política de tolerância zero e gerir esses novos casos de uma forma agressiva para os mantermos controlados.”

Também em Abril, a primeira-ministra anunciou que iria doar, em conjunto com os restantes elementos do Governo, 20% do seu salário nos seis meses seguintes para ajudar na luta contra os efeitos da pandemia. Ao todo, a doação ascende a 2,6 milhões de dólares neozelandeses (884 mil euros). Ardern assumiu o controlo do Governo neozelandês em Outubro de 2017, tornando-se a primeira-ministra mulher mais jovem na altura. Foi a segunda líder mundial a dar à luz em funções, depois da antiga primeira-ministra paquistanesa Benazir Bhutto.

Agora, Ardern tornou-se a primeira-ministra mais popular em um século pela resposta que o seu Governo tem dado à pandemia, segundo uma sondagem do Newshub-Reid divulgada na segunda-feira. A primeira-ministra subiu 14 pontos percentuais na escala de popularidade, tendo agora 56,5% de pessoas favoráveis ao seu partido – mais do que qualquer outro partido neozelandês conseguiu até hoje.

Menos horas de trabalho, mais produtividade?

Em Agosto de 2019, a Microsoft aplicou o modelo de quatro dias de trabalho e três dias de folga aos 2300 trabalhadores dos seus escritórios no Japão. Os resultados do teste-piloto em que ninguém trabalhava às sextas-feiras teve resultados positivos: aumentaram em 39,9% os níveis de produtividade (o resultado da divisão do número de vendas pelo número de funcionários, comparando-se com os valores homólogos de 2018) e conseguiram ainda fazer subir a taxa de cumprimento (mais 46%) do objectivo de fazer reuniões com a duração máxima de 30 minutos. O salário era o mesmo, apesar de trabalharem menos dias, e 92% dos trabalhadores disseram ter gostado da semana reduzida.

Não foi caso único. Em 2018, a empresa neozelandesa Perpetual Guardian aplicou o modelo de quatro dias de trabalho durante dois meses, com os seus 240 trabalhadores. Os trabalhadores disseram sentir-se melhor, argumentando que se conseguiam concentrar mais facilmente no trabalho; os níveis de stress desceram 7%.

O fundador da Perpetual Guardian, Andrew Barnes, diz agora que “a Nova Zelândia conseguiria, sem dúvida, utilizar uma semana de quatro dias de trabalho no rescaldo da covid-19, o que seria uma estratégia para reconstruir a economia e, particularmente, o mercado do turismo ao focar-se em quem vive no país”. Citado pelo jornal britânico The Guardian, Barnes disse acreditar que “esta é uma oportunidade para reconfigurar” o sistema laboral por todo o país.

Em Portugal, a Câmara de Mafra optou pelo sistema de quatro dias de trabalho em 2009, mas viria a abandoná-lo em 2013, quando entrou em vigor o regime das 40 horas de trabalho por semana – comprometendo-se na mesma a manter a flexibilidade dos horários. Em Julho de 2019, o PS anunciou que queria retomar a sua proposta do direito a desligar do trabalho nesta legislatura, depois de ter sido chumbada anteriormente. Os socialistas comprometem-se a regular “de forma equilibrada o direito ao desligamento, como factor de separação entre tempo de trabalho e tempo de não trabalho”.