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Coronavírus: o que aprendemos

Estamos num momento de viragem. Discute-se agora se a responsabilidade assumida pelo Estado face à proteção da saúde não terá que ser estendida à proteção básica dos cidadãos.

O Estado está de novo no centro do debate social. A retração do Estado nos últimos cinquenta anos, com o triunfo do neoliberalismo nos Estado Unidos e no Reino Unido, tinha sofrido uma inversão temporária com a recessão de 2007-8, mas agora essa inversão é bastante mais profunda e transversal. Pela primeira vez na história, as economias de numerosos países pararam devido à intervenção decidida do Estado, que ordenou o confinamento das pessoas em casa para evitar a difusão do vírus. Esta solução era impensável há um século atrás com a gripe espanhola. A saúde passou à frente da economia.

A difusão do Estado social antes e depois da Segunda Guerra Mundial alterou dramaticamente a visão das competências do Estado; os gastos com educação e saúde subiram exponencialmente desde então, impulsionados por uma noção de responsabilidade coletiva na correção de desigualdades herdadas de geração em geração, bem como na proteção e assistência aos mais vulneráveis. Desde os anos de 1960 que a discussão se tem vindo a centrar na eficácia das políticas de criação de oportunidades iguais, redução da pobreza, estímulo da mobilidade social, limites e possibilidades do Estado-Providência.

A intervenção económica do Estado, com um forte setor de infraestruturas consideradas estratégicas nos países mais desenvolvidos, foi reduzida radicalmente desde os anos de 1980, com a privatização desse setor e redução de impostos. A ideia prevalente era que a economia tinha capacidade para se autorregenerar de crise em crise e que a intervenção do Estado era não só desnecessária como prejudicial. Essa lógica tem vindo a ser demolida. A resposta à recessão de 2007-8 tornou-se problemática, não por ter renovado a intervenção do Estado, mas por ter favorecido os investidores em lugar dos consumidores. A lógica da destruição criativa, com recompensa ou penalização de risco, deixou de funcionar dados os custos sociais acrescidos.

É agora a perspetiva de uma taxa de mortalidade incomportável face a um vírus desconhecido que justifica esta intervenção do Estado sem precedentes. A decisão de parar a economia tem naturalmente custos: o Estado viu-se obrigado a apresentar programas de compensação dos custos económicos com vastos subsídios a empresas e a indivíduos colocados no desemprego. A dívida do Estado está a crescer em todos os países, na ordem dos muitos milhares de milhões, com um valor muito acima do que é considerado sustentável face ao Produto Nacional Bruto.

A reposição da situação económica anterior não parece possível a curto ou médio prazo, mesmo com o regresso faseado ao trabalho na maior parte dos países durante este mês e no próximo. Supondo que não virá uma segunda ronda de vírus, o que não é evidente, será difícil evitar bancarrotas massivas. O turismo está na linha da frente, bem como o comércio de retalho, os transportes, a indústria com numerosas cadeias de fornecimento rompidas. Se o Estado teve capacidade para suspender a atividade económica, o desafio da retoma é gigantesco.

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A pandemia e o vazio: se o Estado teve capacidade para suspender a atividade económica, o desafio da retoma é gigantesco REUTERS/Susana Vera

Muitas universidades britânicas, apenas para falar de um setor que conheço bem, estão a elaborar planos de reformas antecipadas, cortes de salários e despedimentos coletivos. As universidades dependem das propinas dos estudantes dados os cortes orçamentais abissais (80%) do governo de Cameron há dez anos. O registo de estudantes para o ano de 2020-21 variará em função da exposição de cada universidade ao recrutamento internacional. Os casos mais extremos irão sofrer um declínio de mais de 20%. As pensões de reforma, da qual o governo britânico lavou as mãos nos anos de 1950, dependem de fundos investidos nas bolsas de valores. 

O problema não é só o custo social do desemprego e o impacto que a redução da procura representa para o desenvolvimento económico. Com a sucessão de bancarrotas e despedimentos coletivos perde-se igualmente conhecimento em setores vitais. Entretanto, o Estado está comprometido numa situação que não previu e da qual não sabe bem como irá sair. A dívida que assumiu (e que vai crescer) só é possível de resolver com medidas radicais e imaginativas de renegociação ou, eventualmente, erradicação, que irão ter um inevitável impacto na dívida privada e na organização da sociedade.

Estamos num momento de viragem. Discute-se agora se a responsabilidade assumida pelo Estado face à proteção da saúde não terá que ser estendida à proteção básica dos cidadãos. Num inquérito recente no Reino Unido, 74% declararam-se favoráveis ao controle das rendas, 72% à garantia de emprego e 51% ao estabelecimento de um rendimento mínimo universal. Embora a implementação destas políticas não pareça possível no futuro imediato, a mudança da opinião pública é significativa.

Se o foco das atenções está de novo nas responsabilidades do Estado, a organização do trabalho está a sofrer uma enorme transformação imposta pelo confinamento. As vendas via internet passaram a ser a norma, embora as encomendas por telefone praticadas nos anos de 1950 estejam igualmente de volta. As empresas de distribuição, das poucas a abrir postos de trabalho, não conseguem fazer face ao aumento radical dos pedidos. No final de março, quando liguei ao website do meu fornecedor habitual, vi que estava à volta do número 68.000 na fila de espera e desisti. A alternativa está em ir ao melhor supermercado do centro de Cambridge à hora de abertura, junto ao mercado de rua e sem parque de estacionamento (ou seja, sem multidões), bem como telefonar aos talhos, mercearias ou frutarias que têm agora distribuição própria. 

 O trabalho online no setor de serviços tem sido uma das vedetas do confinamento. As minhas sessões de fisioterapia (na prática, guia de ginástica e ioga) passam-se por Zoom, recebo no final ligação a websites com os exercícios recomendados. As minhas sessões individuais com estudantes nunca correram tão bem, enquanto o ensino teve que ser adaptado, pois o tempo de atenção via internet não é mais de 15 minutos seguidos em regime de lição. Intragáveis são as reuniões de departamento, com mais de 60 participantes, mas a opção por som é fantástica, posso ler, mas já nas reuniões em presença ligava ao digitarq, o fundo digitalizado da Torre do Tombo.

Devo confessar que o confinamento, no meu caso, tem sido um bálsamo anti-stress. De manhã ao acordar faço ginástica-ioga, escrevo o meu livro e respondo a estudantes, a seguir ao almoço faço um longo passeio com a Ulinka, à tarde classifico ensaios e exames. Preocupam-me os estudantes, muitos deles asiáticos e europeus, cuja taxa de entrega de ensaios declinou. Num curso, metade pediu extensões por motivos de saúde, coisa nunca vista. Outros trabalham furiosamente, enviam-me respostas a exames de anos anteriores que eu comento e classifico, fazem-me perguntas de bibliografia e argumento. Trabalho mais com eles do que em tempo normal, mas é esse, para mim, o grande incentivo do trabalho universitário a seguir à pesquisa.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

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