Crónica

As mães têm uma mulher dentro

Uma mulher bem resolvida procura um companheiro e não um pai para os filhos. Os filhos dela já têm um pai e seguramente não precisam de outro.

Foto
Dakota Corbin/Unsplash

Deixem-me começar esta crónica com uma história verídica. Uma amiga minha, depois de oito anos de vida conjunta, separou-se do homem com quem vivia e de quem tinha um filho. Isto aconteceu há pouco mais de um ano e, neste tempo, ela tem estado absolutamente sozinha (e feliz, devo dizê-lo). Há cerca de duas semanas essa minha amiga, de máscara cirúrgica colocada como mandam as circunstâncias, encontrou no supermercado um antigo namorado da adolescência. Com os cumprimentos à distância que o momento exige, ele perguntou-lhe como estava e ela lá disse que estava óptima, apesar de cansada do confinamento. E sabem o que é que ele lhe respondeu? “Sei que te separaste e só te digo que, se não viesses com bicho, ia à luta por ti.”

O resto da história não interessa muito para o objectivo desta crónica, mas posso dizer-vos que ela nem percebeu logo a que é que ele se referia e seguiu caminho. Depois, quando lhe caiu a ficha e percebeu que o “bicho” era o filho, é que sentiu a onda de indignação apoderar-se dela. Diz que ainda deu duas ou três voltas ao supermercado, agarrada a um carrinho de compras cheio de iogurtes e papas infantis, à procura dele para lhe poder responder. Mas já não o encontrou.

Quando ela me telefonou a contar este encontro surreal fiquei sem saber o que lhe havia de dizer. Pelo menos para lá dos lugares comuns do “não me surpreende” e do “já não valia nada antes e continua a não valer nada agora”. Acontece que este assunto ficou a martelar na minha cabeça e, depois de meia dúzia de pesquisas no Google, percebi a dimensão real do problema. Aparentemente uma mulher sozinha mas com filhos, independentemente das muitas qualidades que possa ter, está sempre em último lugar nas preferências masculinas. E se, por um lado, eu até consigo perceber isto vindo de homens sem filhos, tenho sérias dificuldades em percebê-lo quando vem de homens que, por acaso, até são pais.

Os filhos trazem (muitas) responsabilidades e, que ninguém se iluda, serão sempre uma prioridade. Além disso, são a prova viva de que existiu uma relação anterior e, queira-se ou não, o vínculo com o outro progenitor permanecerá para sempre. E eu percebo que isto não seja fácil de aceitar, pelo menos para alguns homens. Mas é importante deixar claro um ponto: uma mulher bem resolvida procura um companheiro e não um pai para os filhos. Os filhos dela já têm um pai e seguramente não precisam de outro. É óbvio que se alguém não está disposto a aceitar a realidade ou se, como li em muitos casos, cultiva um sentimento de ciúmes em relação às crianças (que podem até já nem ser assim tão crianças), o melhor é fazer-se à estrada e ir pregar para outras paragens. Agora, evitem lá fazer comentários idiotas como o do “bicho”, por favor. Ah, e antes que me esqueça, as mulheres que são mães também não andam (pelo menos a esmagadora maioria) à procura de alguém que as sustente. Acreditem que se elas vivem sozinhas com os filhos e conseguem “dar conta do recado” é porque são mais do que auto-suficientes em todos os aspectos (aliás, eu tenho até a teoria de que essa auto-suficiência é uma das coisas que mais fazem tremer alguns homens).

A maternidade é difícil em muitos aspectos e, queira-se ou não, muda-nos sempre. Ainda assim, acreditem em mim, não deixamos nunca de ser mulheres. É verdade que, por vezes, o papel de mãe acaba por se sobrepor a todos os outros mas, para quem souber procurar, o resto ainda lá está e, muitas vezes, só precisa de uma pequena ajuda para emergir. Além disso, acreditem que a maternidade também nos faz desenvolver muitas qualidades. A maturidade, a paciência, a resiliência… Matar logo à partida a mulher que cada mãe tem dentro é, quanto a mim, um erro gigante. E sabem porquê? Porque em muitos casos ela é absolutamente incrível e avassaladora. Provavelmente a mulher mais incrível e avassaladora que vão conhecer na vossa vida.

Sugerir correcção