CARTAS DE MÃE E FILHA EM TEMPOS DE QUARENTENA

Dia 45: A independência conquista-se sem chucha?

Uma mãe/avó e uma filha/mãe falam de educação. De birras e mal-entendidos, de raivas e perplexidades, mas também dos momentos bons. Para avós e mães, separadas pela quarentena, e não só.

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@DESIGNER.SANDRAF

Querida Filha,

Usei chucha para dormir até aos 6 anos, altura em que a deixei por amor: foi a condição que a tua avó impôs para autorizar que o meu namorado da pré-primária viesse dormir lá a casa (não sei porquê foi o primeiro e o último!). A verdade é que funcionou. Senti vergonha que me achasse bebé e atirei-a pela janela.

A minha mãe habitualmente tão rigorosa com tudo, não só condescendeu na dependência como, quando eu ia tirar a chucha ao teu irmão Francisco, aí pelos 2 anos, avisou-me para não o fazer. A argumentação era que, a partir dai, não só adormecer se tornava um filme, como era expectável que ele passasse a acordar de madrugada e não voltasse a dormir. Para uma pessoa como eu que odeia madrugadas era, de facto, uma perspectiva apocalíptica. Como sabes, sou a sétima filha, talvez fosse já a voz da sabedoria a falar.

Agora sou avó e não herdei a tolerância da minha mãe. Odeio ver chuchas nas bocas das crianças durante o dia (para dormir é-me indiferente). Podia alegar que é por ter medo que lhes entorte os dentes, que quero que as mães poupem em aparelhos dos dentes, mas se for sincera comigo mesma, não é nada disso. Também não sei muito bem o que é, mas parece-me que é a ideia do vício, da bengala, da bebificação. Mas, e não me mates, sinal exterior de que os pais não foram capazes de traçar limites, de promover o crescimento daquela criança. E, sobretudo, de aguentarem a dor que lhes provoca o “sofrimento” do filho, a ansiedade e a agitação que implica o “desmame”. Compreendo, sou daquelas pessoas que pede a alguém que deixe de fumar, e quando a vejo nervosa quase que lhe estendo um cigarro.

Como compreendo, também, que os pais exaustos adiem este dia esperando um em que estejam menos cansados, que estendam a chucha para calar uma birra, percebo tudo. Mas...

Filha, faz de mim saco de boxe. Esmurra à vontade. É para isso que servem estas cartas.


Querida Mãe,

Ummm... Parece-me que é capaz de precisar de ajuda profissional (!), porque se a sua própria experiência e os conselhos sábios da sua mãe não funcionaram, duvido que os meus argumentos sirvam para alguma coisa. Suspeito que os sabe todos racionalmente e que isto é mais visceral!

Mas, como acredito que tantos outros avós partilham esses sentimentos, e como eu partilho a irritação que essas acusações suscitam com tantos outros filhos, mães como eu, vamos lá a isso!

Começo por argumentar que chuchar é um reflexo que os bebés têm desde o útero. Além da utilidade óbvia para a sobrevivência, os estudos mostram que chuchar diminui o ritmo cardíaco, pressão arterial e níveis de stress. A maior parte das crianças em culturas tradicionais amamentam (ou seja, chucham) até pelo menos aos 4 anos e por isso é natural que usem chucha até essa idade. Mas não me parece que seja esse o problema dos avós. O problema é estarem internamente convencidos de que as crianças devem conseguir ser “independentes”, e fazer tudo sem ajudas — porque para vocês isso é que define “estar preparado para a vida”. Muito francamente, a palavra autonomia de tão usada deixou de me parecer uma coisa boa e desejável, para me provocar a maior irritação. Parece que é pecado as crianças precisarem dos pais, de fraldas, de chucha, de ajuda para adormecer. Subjacente a esta postura, parece estar sempre a ideia de que a aproximação dos pais aos filhos é nociva, que cria dependência e inseguranças, que no fundo, no fundo, os pais não querem deixar os filhos crescer, para se sentirem necessários.

Mãe, disse-me para a usar como saco de boxe, e é o que vou fazer, até porque hoje o dia não me está a correr bem. A questão não é quando é que as crianças devem largar as chuchas — quantos adultos conhece que as usam? Fez-lhe diferença usá-la até aos 6 anos? E agora, não rói canetas? O “tio Zé” não bebe um copo de vinho todos os fins de tarde, e a “tia Maria” não faz ginástica para se acalmar, para reduzir os níveis de stress? —, a questão é porque é que este “hábito” em particular incomoda tanto os avós. Parece-me que devem fazer um esforço por perceber de onde lhes vem a angústia: se há, de facto, uma preocupação justificável de que a chucha está a prejudicar o neto (porque afecta a fala, entorta os dentes), então deve calmamente colocar a questão aos pais, mas se — como escreve — o problema é só o que “fica bem ou não fica bem”, então talvez seja de respeitar o tempo daquela família. A vida não pode ser uma prova de superação constante, e ninguém vai para a universidade de chucha.

E outra coisa... é normal não querer ver os filhos a sofrer. Ainda mais normal não gostar de causar esse sofrimento. O que não é normal é os pais serem constantemente acusados de não serem capazes de o fazer se for preciso, e de não saberem distinguir quando é e quando não é. Porque somos.


No Birras de Mãe, uma avó/ mãe (e também sogra) e uma mãe/filha, logo de quatro filhos, separadas pela quarentena, vão diariamente escrever-se, para falar dos medos, irritações, perplexidade, raivas, mal-entendidos, mas também da sensação de perfeita comunhão que — ocasionalmente! — as invade. Na esperança de que quem as leia, mãe ou avó, sinta que é de si que falam. Facebook e Instagram

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