Podemos contrair covid-19 ao andar de elevador?

A evidência científica que existe até ao momento não sugere que a aerossolização seja uma via particularmente frequente de transmissão do vírus. Embora seja “possível”, também é “pouco provável” que o vírus se transmita desta forma, diz especialista.

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Covid-19 impõe cuidados na utilização dos elevadores Russ Ward

Se existem ainda muitas incertezas quanto à transmissão do novo coronavírus, também há factores que já são dados como certos. O vírus que causa a covid-19 é transmitido principalmente pelo contacto directo com gotículas respiratórias produzidas quando, por exemplo, uma pessoa infectada tosse, espirra ou fala, que podem ser inaladas ou pousar na boca, nariz ou olhos de pessoas que estão próximas. As gotículas podem ainda depositar-se em objectos ou superfícies e, desta forma, infectar pessoas que neles toquem com as mãos, tocando depois nos seus olhos, nariz ou boca.

No entanto, e como realçou recentemente a Organização Mundial de Saúde (OMS), verifica-se também “uma possível transmissão aérea em locais onde são realizados determinados procedimentos de geração de aerossóis” (pequenas partículas que permanecem suspensas no ar e que se podem dispersar por longas distâncias). A transmissão por aerossolização​ tem sido sugerida em vários estudos como uma forma de contágio em espaços confinados, mas ainda se sabe pouco sobre este processo.

Sabendo isto, quão seguro é andar nos elevadores dos locais de trabalho ou dos prédios residenciais durante a pandemia? Mesmo que consigamos evitar fazer a viagem com outras pessoas, ainda existe a possibilidade de estarmos em contacto com os germes que outros passageiros deixaram para trás?

É possível alguém ser infectado ao andar de elevador, mas a possibilidade é “mínima”, explica ao PÚBLICO Ricardo Mexia, médico de saúde pública do Departamento de Epidemiologia (DEP) do Instituto Ricardo Jorge.

“Possível é, o problema é quantificar essa possibilidade. Se eu for dentro do elevador com um doente positivo a tossir tenho um risco, se for dentro de um elevador sozinho tenho outro. Há a possibilidade, ainda que pequena, de outras formas de transmissão do vírus [além das gotículas ou do contacto com superfícies infectadas], mas tendencialmente não deverá ser um risco muito elevado”, refere o também presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública.

O médico de saúde pública explica que, segundo a evidência científica actual, aerossolização não é uma via particularmente frequente de transmissão do vírus, ainda que seja possível que se propague dessa forma. “Se a transmissão por aerossolização fosse mais frequente teríamos muito mais casos. Não digo que seja impossível, mas é pouco provável”, sublinha.

Ainda que existam modelos científicos que mostrem a transmissão aérea “em acção”, muitos especialistas em doenças infecciosas não acreditam que as partículas transportadas pelo ar em elevadores vazios representem um risco significativo “na vida real” quando se trata do novo coronavírus. Segundo explica ao New York Times Ilan Schwartz, professor assistente de doenças infecciosas da Universidade de Alberta, no Canadá, mesmo quando um doente diagnosticado com covid-19 está a viver no mesmo espaço com outras pessoas, a taxa de infecção estimada varia entre os 10% e os 20%, um valor muito abaixo do de outras doenças transmitidas pelo ar. No caso do sarampo, por exemplo, esta taxa pode variar entre os 75% e os 90%, refere o especialista ao jornal norte-americano.

Para prevenir qualquer tipo de risco, Ricardo Mexia recomenda que se evite andar de elevador acompanhado, já que são espaços normalmente pequenos que impossibilitam que se respeite a regra do distanciamento social.

Como o elevador é um espaço fechado, é aconselhada a utilização de máscara de protecção individual para reduzir o risco de contágio. Outras das medidas a adoptar depois de uma viagem de elevador é evitar tocar no rosto depois de tocar nos botões do elevador e lavar as mãos assim que chegar a casa ou ao trabalho.

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