Paulo Pimenta
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Paulo Pimenta

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Um estado de emergência de bom senso

Nos próximos meses, pedir a alguém para usar uma máscara na nossa presença será tão legítimo como pedir a alguém para apagar um cigarro numa zona de não-fumadores.

Todos já estivemos naquela conversa em que se chega à conclusão que o português é o mais sereno dos povos latinos. Saímos menos à rua a fazer barulho, fazemos menos greves, incendiamos menos caixotes, queimamos menos falsos ídolos. Perante aumentos de impostos inusitados, congelamento de carreiras, transferências milionárias entre bancos, desresponsabilização de altos cargos, decisões de justiça lentas e duvidosas, ficamo-nos. Entre espanhóis, italianos e gregos, muitos diriam que o português é o mais manso latino.

Provavelmente, foram mais as vezes que em nos deviam ter obrigado ir ‘pra rua gritar do que aquelas em que devíamos ter ficado em casa. Contudo, parecemos agora estar a colher alguns frutos muito saborosos de, por uma vez, termos tomado a mais certa das decisões. Desta vez, não sair foi a melhor manifestação possível da vontade e capacidade de um povo. Muito antes das indicações superiores, já imensas portas de comércio, indústria e restauração se fechavam até nova ordem, esperando dias melhores e trabalhando para isso activamente. Nos nossos vizinhos, as ramblas e as piazzas estiveram cheias até bem mais tarde e reabriram bem mais cedo.

O estado de emergência pelo qual — muito tranquilamente — passámos mostrou que o Governo não precisa de usar músculo sobre a população para esta tomar a escolha certa. Foram feitos sacrifícios económicos, pessoais e familiares. Não houve choros egoístas e exigências descabidas. Emergiu, da emergência, um estado de bom senso colectivo, em que a natural transição para a chamada “vida normal” tem sido feita de forma voluntariamente controlada, temporizada e sem pressões desnecessárias ou abusos egoístas.

É merecido que se admita que o primeiro objectivo foi atingido, permitindo ao sistema de saúde reorganizar-se, evitando uma sobrecarga trágica. Comemoramos essa vitória, mas agora não a podemos perder. Sabemos que manter um país em casa durante tempo indeterminado é impossível. Por isso, o papel que temos nos próximos meses é de transição para um risco minimizado e controlado, sendo responsáveis por nós e pelos nossos, mas sendo também responsáveis por exigir o melhor comportamento ao próximo

Relativamente à protecção do dia-a-dia, importa reforçar essencialmente duas mensagens: uma máscara é muito mais valiosa que uma viseira, lavar as mãos é muito mais importante que usar luvas. A viseira é fácil de produzir e fácil de usar, mas o que tem de atraente tem de inútil. De pouco mais serve do que evitar levar um espirro nos olhos. Não substituem de todo a função das máscaras. O uso de máscara protege mais o outro que a nós, fazendo da sua utilização um instrumento exemplar de cidadania.

Um novo acessório que devemos exigir que seja utilizado por quem nos rodeia. Nos próximos meses, pedir a alguém para usar uma máscara na nossa presença será tão legítimo como pedir a alguém para apagar um cigarro numa zona de não-fumadores. Assim como manter a distância numa fila e, acima de tudo, a capacidade de dizer “afinal não vai ser possível”. Não vai ser possível entrar hoje nesta praia cheia de gente, não vai ser possível comer nesta esplanada, não vai ser possível caminhar nesta marginal. Refazer o plano, mudar o destino, saber decidir com sensatez em vez de ceder aos impulsos.

Vão gastar-se incontáveis milhões de euros em máscaras. Sou da opinião que esta obrigatoriedade deve ser acompanhada por maior apoio do Estado perante evidente necessidade sanitária. Limitar os preços é difícil, uma vez que o custo na origem está já inflacionado, e distribuir gratuitamente máscaras é insustentável. Creio que deveria criar-se uma forma de comparticipação individual, da mesma forma que existe para medicamentos essenciais e populações específicas, reduzindo o esforço económico dos que mais afectados foram pela pandemia.

A emergência do bom senso faz de nós um povo sensato e estóico. Não faz de nós mansos e alinhados. A intervenção governamental nas nossas vidas pode ser absolutamente minimizada se mantivermos esta rota e isso será, sem dúvida, um motivo de orgulho para o povo português. O exemplo latino de um sucesso conquistado e que não podemos deixar cair. 

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