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O problema chinês do “lixo estrangeiro”: racismo e xenofobia em tempos de pandemia

Donald Trump e Xi Jinping não são assim tão diferentes neste aspeto. Estes dirigentes não hesitam em disseminar narrativas nacionalistas, racistas e xenófobas nas suas respectivas esferas de influência porque ambos estão a participar numa corrida pela supremacia tecnológica e económica.

Uma lei importante em antropologia e em estudos sociais de ciência e tecnologia é a ideia de que os desastres humanos ou naturais afetam as pessoas de forma desigual dependendo das suas posses e capacidades. A desigualdade é o grande problema ético levantado pelo desastre e a questão fundamental para um governo justo e responsável é tentar aliviar os efeitos negativos da desigualdade. Isto me parece uma questão fundamental na atual pandemia covid-19, mas há uma outra lei antropológica igualmente importante que tem sido menos falada na imprensa portuguesa: a lei da xenofobia e do racismo. Se é verdade que os desastres têm a capacidade de gerar vagas de compaixão e entreajuda humanitária que ultrapassam distâncias e fronteiras, também é verdade que os desastres são terreno fértil para o crescimento do racismo e da xenofobia, e quando os desastres têm uma escala global como é o caso da atual pandemia, esse racismo e xenofobia pode atingir proporções planetárias e se tornar num instrumento de lutas geopolíticas.

Meados de Janeiro de 2020: a China anuncia a primeira morte causada por covid-19 na cidade de Wuhan, alertando o país e o mundo para a existência de uma nova epidemia de coronavírus. Este alerta deveria ter acontecido umas semanas antes à luz de revelações subsequentes, mas, apesar destes soluços iniciais, o governo central conseguiu responder de forma suficientemente célere para evitar que a conjuntura de hiper-mobilidade das celebrações do ano novo chinês amplificasse a velocidade e a escala do processo de contágio. Foi um momento difícil para a China e não faltaram manifestações de apoio e de solidariedade vindas de várias partes do mundo, mas também houve uma vaga crescente de mensagens anti-chinesas a circular por plataformas sociais internacionais como WhatsApp e Facebook. Foram estas mensagens que transformaram a covid-19 numa “doença chinesa” e o SARS-Cov-2 num “vírus chinês” causado pelos costumes “bárbaros” dos chineses, incluindo a sua predileção gastronómica por animais selvagens.

Foi neste contexto de comentários racistas e xenófobos crescentes, e numa altura em que a China ainda estava no epicentro do surto, que o mundo começou a ser confrontado com as primeiras notícias de ataques físicos e abusos verbais a chineses e asiáticos na Europa, Estados Unidos e outras partes do mundo. Muitos destes incidentes racistas e xenófobos se dirigiram a pessoas de aparência asiática portadoras de máscaras cirúrgicas e identificadas pelos atacantes como chinesas. Estes incidentes anti-chineses culminariam em meados de fevereiro num episódio algo caricato no qual é divulgada numa rádio holandesa uma canção paródica sobre o coronavírus com uma mensagem claramente anti-chinesa. A letra da canção não é muito criativa mas ajuda a capturar o espírito anti-chinês que estava então a emergir no mundo sob a influência do comportamento de dirigentes como Donald Trump: “Nós não precisamos do vírus no nosso país, é tudo causado por esses chineses malcheirosos”, ou “[o vírus] vai chegar em breve ao arroz xau-xau, não comam comida chinesa”.

Fast-forward para final de março de 2020: a mudança do epicentro da pandemia de covid-19 para a Europa e os EUA ocorreu de forma gradual, e os chineses não foram indiferentes a este desenvolvimento, expressando a sua solidariedade através de atos filantrópicos e manifestações de apoio transcontinental. O próprio governo chinês esteve envolvido em várias iniciativas internacionais de apoio médico e logístico, mostrando a sua capacidade de liderança. A verdade é que estes atos de generosidade diplomática coexistiram com estratégias políticas domésticas indo na direção contrária. Já em fevereiro de 2020, em resposta às provocações de Donald Trump, a máquina de propaganda do governo chinês começou a espalhar a ideia de que o surto de covid-19 é uma fabricação americana destinada a questionar a crescente influência da China no mundo. Esta contra-narrativa tornou-se popular na China no espaço de algumas semanas. Mas o sucesso desta contra-narrativa não foi apenas o produto de propaganda; foi também o resultado de troca de ideias entre cidadãos no mundo das redes sociais em redor daquilo que ficaria conhecido no final de março de 2020 como o problema do “lixo estrangeiro” (yang laji).

O termo “lixo estrangeiro” é normalmente usado pelos chineses para falar dos riscos de poluição associados à indústria doméstica de reciclagem de lixo oriundo de países “estrangeiros” ricos. Mas, neste caso, o termo começou a ser usado metaforicamente em redes sociais para descrever o perigo de contaminação que decorre da entrada na China de pessoas “estrangeiras” vindas de países com muitos casos de covid-19. Se a China abrir as portas a este “lixo estrangeiro,” especialmente o “lixo americano,” o governo terá de ser muito vigilante no trabalho de monitorização por forma a evitar uma nova vaga de covid-19. É importante notar que o uso da expressão “lixo estrangeiro” não é considerado aceitável por muitos chineses, mas isso não impede a sua circulação, à semelhança do que se passa na Europa e nos EUA com expressões derrogatórias como “chineses bárbaros”. A proliferação de termos como “lixo estrangeiro” nas redes sociais chinesas reflete o espírito anti-estrangeiro (e anti-americano) de parte da população chinesa, mas o governo tem um papel importante neste processo. O governo não encoraja o uso de expressões racistas e xenófobas, mas promove a disseminação de narrativas ultranacionalistas cujos efeitos são amplificados no atual clima de pânico pandémico.

Donald Trump e Xi Jinping não são assim tão diferentes neste aspeto. Estes dirigentes não hesitam em disseminar narrativas nacionalistas, racistas e xenófobas nas suas respectivas esferas de influência porque ambos estão a participar numa corrida pela supremacia tecnológica e económica. Estas rivalidades nacionais foram recentemente ilustradas de forma particularmente contundente com as polémicas em torno da Huawei e 5G, e um dos desafios do século XXI será encontrar formas de reduzir a utilização de retóricas racistas e xenófobas de facionalização no contexto destas rivalidades. Um primeiro passo em frente seria reorientar estas rivalidades da questão da supremacia tecnológica e económica para a questão da sustentabilidade planetária.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

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