“O número de casos vai aumentar, não nos iludamos”, dizem especialistas em saúde pública

Seis especialistas em sectores de saúde pública debateram na Webinar promovida pelo PÚBLICO. Argumentou-se que Portugal demorou a reagir ao surto nos lares de idosos, que a saúde mental deve ser prioritária e que “a globalização levou uma pancada enorme” com a covid-19.

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No debate promovido pelo PÚBLICO elogiou-se o trabalho dos profissionais de saúde Manuel Roberto

A prioridade para Portugal é, daqui para a frente, evitar o aumento mortes – e não tanto o crescimento dos casos de infecção por covid-19. Quem o diz é o Alexandre Abrantes, professor de Políticas e Administração de Saúde, numa visão partilhada na Webinar do PÚBLICO sobre saúde pública com seis especialistas da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP). A base do raciocínio é a inevitabilidade do aumento de casos, fruto do desconfinamento.

“Poderá haver a expectativa de que o desconfinamento vai passar sem aumentar os casos, mas é claro que vai aumentar (…) o ponto é termos olho nos óbitos. O vírus mata muito e temos de evitar, pelo menos, metade das mortes. O foco é evitar mortes, não é evitar casos. O número de casos vai aumentar, não nos iludamos”, dispara.

Sendo a dos idosos a faixa etária mais afectada pela doença, os países, em geral, e Portugal, em particular, deveriam ter reagido de forma mais rápida – e mais eficaz, por consequência – na aplicação de medidas de contenção do vírus nesta população. E os convidados na conferência apontam que havia, no estrangeiro, indicadores que deveriam ter funcionado como “bandeira vermelha” para Portugal no combate à covid-19.

A “bandeira vermelha” foi levantada um bocadinho tarde. “Tivemos casos de idosos que tinham de ser hospitalizados e que, quando voltaram do hospital, voltaram covid positivos e contaminaram funcionários. Já tínhamos indicadores de que a doença seria problemática para estas pessoas, pelo que a resposta de fechar os lares chegou um pouco tarde”, argumentou José Luiz Telles, professor de Promoção da Saúde, na área do envelhecimento.

A directora da ENSP, Carla Nunes, aponta, porém, uma atenuante para Portugal: o país teve, inicialmente, um contágio mais focado na população jovem. “Isto começou com pessoas jovens. No início da pandemia, em Portugal, não era a população idosa a mais afectada e o vírus ainda não tinha chegado aos lares. Depois, fechou-se de repente todos os lares [a visitas], mas já com algum atraso”, justifica esta professora de Epidemiologia e Estatística. Ter profissionais de saúde a trabalharem em vários locais também não ajudou no controlo do contágio inicial nestas instituições, defende.

Saúde mental é uma preocupação

Utilizando os lares como ponto de partida, os convidados do PÚBLICO lembraram ainda que o desconfinamento, a nível nacional, passará, em breve, pelo retomar das visitas a lares de idosos. E que, aí, tal como nas creches, poderá ser feita uma medição mais clara dos efeitos no país.

Apesar de Joana Alves, professora de Economia da Saúde, garantir que “os indicadores de desemprego e o rendimento das famílias já mostram alterações”, a análise global é a de que ainda não é possível tirar conclusões claras.

“As medidas de 4 de Maio não provocaram situação grave, mas não houve tempo para isso. São precisos 14 dias para avaliar o impacto de uma medida. Por um lado, ainda não atingimos esse tempo. Por outro, os dados que temos é de que este desconfinamento foi leve. As pessoas não mudaram os seus hábitos – ou mudaram em cerca de 10%. Continuam em casa, em teletrabalho, e não estão a ir a sítios diferentes. As medidas de dia 18 já terão outra dimensão. Quando se mexe nos lares e nas escolas, isso terá impacto a vários níveis.”

Um dos factores essenciais para reabrir os lares é a saúde mental dos idosos, como destacou José Luiz Telles. E Teresa Maia, médica Psiquiatra e professora de Promoção da Saúde​, complementou com uma análise ao que tem sido a evolução dos cuidados com a saúde mental dos portugueses desde a chegada do novo coronavírus.

Apesar de referir que as pessoas se adaptam facilmente e que “o esforço dos profissionais foi significativo e permitiu controlar boa parte do impacto do vírus na saúde mental”, Teresa Maia alertou que “daqui para a frente, poderão vir quadros depressivos pelo isolamento e pela quebra de rendimentos”.

E não adianta dar antidepressivos, se a pessoa continuar a não ter emprego. É preciso uma abordagem mais global”, acrescentou, apelando à contratação de mais profissionais da saúde mental, criação de mais equipas e equilíbrio entre os “serviços com muitos recursos e os que não têm recursos nenhuns”.

“A globalização levou uma pancada enorme”

Segundo os especialistas, além de controlar o vírus com foco nas mortes e não nos novos casos, uma das formas de melhorar a resposta a estes surtos, no futuro, passa por os países serem auto-suficientes. E passará também por aqui a celeridade na resposta que, por exemplo, não houve em relação aos lares de idosos.

Alexandre Abrantes explicou-o “atacando” o fenómeno da globalização. “O impacto que tudo isto vai ter na dinâmica internacional é definido por uma capa do The Economist, que dizia “bye-bye globalization”. Isto [pandemia] não é um problema de saúde, mas um problema de segurança nacional. Os países descobriram que têm de manter uma reserva estratégica de resposta a estas doenças. Medicamentos, equipamentos, etc vão deixar de ser feitos na China, e passar a ser feitos em cada local. A globalização levou uma pancada enorme.”

Ainda com foco no futuro, Portugal, crêem os oradores, deve adaptar o tratamento que dá aos dados sobre o estado epidemiológico da doença. “Os sistemas de informação comportaram-se melhor do que eu estava à espera”, aponta Alexandre Abrantes, apesar de criticar o modelo utilizado por Portugal: “No futuro, o sistema não pode ser de dados nacionais, tem de ser de precisão. Temos de detectar precocemente onde há um pico. A mudança de dados agregados para específicos permite mudarmos de medidas nacionais ou regionais para actuarmos num certo lar ou numa certa aldeia.”

A mesma ideia é sustentada por Rui Santana, professor de Gestão de Organizações e Serviços de Saúde. “Os sistemas não estão preparados para responder, porque estão numa base mensal. Para tomarmos boas decisões, temos de ter informações real time.

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