Envelhecer com saúde

A maior proteção da população idosa não significa excluí-la dos processos decisórios. Ao contrário, promover um envelhecimento saudável implica criar estratégias que visem maior participação das pessoas mais velhas na sociedade.

A longevidade da população reflete os avanços e conquistas sociais, económicas e científicas produzidos em todo o mundo, nomeadamente ao longo da segunda metade do século XX. Os cuidados de saúde, que se iniciam ainda na idade pré-natal e se mantêm ao longo de todas as fases da vida, aliados à melhoria progressiva das condições de vida e de trabalho, ainda que de maneira desigual, têm contribuído para evitar mortes prematuras.

Se a possibilidade de chegar a uma idade avançada é um facto que deve ser socialmente destacado, colocam-se imensos desafios em agregar qualidade de vida aos anos vividos. Ainda mais no contexto da situação de pandemia em que estamos a viver.

No momento em que se celebra a Semana Europeia da Saúde Pública, vale a pena destacar as potenciais consequências negativas que a pandemia está a trazer para certos setores da população idosa e os desafios que se impõem aos sistemas nacionais de saúde para garantir um envelhecimento saudável.

As primeiras informações sobre a covid-19 evidenciaram que as pessoas mais idosas eram o grupo com maior vulnerabilidade às formas graves de manifestação da doença. Talvez por possuírem um sistema imunológico com maiores fragilidades e por terem associadas uma ou mais doenças crónicas, não só o tratamento se torna mais complexo como o risco de morte se revela mais elevado. As difíceis decisões que envolvem os cuidados de saúde nos casos mais graves que afetam os idosos devem ser guiadas pelo compromisso com a dignidade e o direito à saúde e não meramente pela variável idade.

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A Escola Nacional de Saúde Pública e o PÚBLICO juntam-se para comemorar a Semana Europeia de Saúde Pública que, em 2020, é dedicada ao tema Covid-19: Colaboração, Coordenação e Comunicação

O isolamento/distanciamento social, principal medida sanitária para a contenção da propagação do vírus, por sua vez, está a trazer consequências psicológicas intangíveis para esse grupo populacional. Os mais vulneráveis ao espectro da solidão e do abandono no contexto da pandemia são aqueles que vivem sozinhos, para os quais o único contacto possível se encontra fora das suas residências, restrito a redes de apoio social (centros de dia, organizações religiosas etc.), de amigos, familiares e de vizinhos. Acresce-se a este contingente todos os que vivem em instituições de acolhimento social (lares de idosos, por exemplo). Para esta parcela da população, muitas vezes invisível à sociedade, torna-se fundamental promover uma ação coordenada e integrada no sentido de reforçar a inclusão social e a solidariedade durante o distanciamento social. Nesse contexto, é possível utilizarem-se as tecnologias de comunicação disponíveis, e de acordo com cada situação.

Outra questão relevante no cenário da pandemia são as pessoas que, apesar da idade relativamente avançada, se mantêm ativas no mercado de trabalho. Entre estas, destacam-se as que atuam nos setores essenciais do funcionamento da vida coletiva, como trabalhadores em instituições de saúde e sociais, da limpeza urbana, da segurança pública, entre outros. A adequada proteção para que estas pessoas possam exercer as suas funções com segurança deve ser reforçada, não só pelos riscos inerentes à natureza da ocupação, mas, principalmente, pela maior vulnerabilidade em função da idade. 

Por último, a maior proteção da população idosa não significa excluí-la dos processos decisórios. Ao contrário, promover um envelhecimento saudável implica criar estratégias que visem maior participação das pessoas mais velhas na sociedade.

Oxalá venha o dia em que chegar às idades mais avançadas deixe de ser uma ameaça, individual e coletiva, e passe a ser uma oportunidade de compartilhar, solidariamente, as experiências e de promover os valores acumulados ao longo da vida.