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Covid-19: a grande niveladora?

Para o historiador Walter Scheidel, as catástrofes são as Grande Niveladoras. Quanto mais traumática for a catástrofe, maior é o seu potencial nivelador das desigualdades. As pandemias, diz Scheidel, são uma de quatro catástrofes passíveis de reduzir a desigualdade. As outras três são a revolução, o colapso do Estado e a guerra. A humanidade – parece – só aprende à força.

Um dos grandes mitos da covid-19 é que é democrática. Vírus que é vírus afeta todos por igual. Ninguém está imune, todos podem ser infetados. E mesmo entre os que escapam ao vírus, ninguém consegue escapar ao distanciamento social e ao apagão súbito da economia. Estamos todos no mesmo barco – é a conclusão de dirigentes políticos e, por vezes, até de cientistas sociais.

A solidariedade fácil sempre foi atrativa. No entanto, a verdade é outra. Nem a tempestade covid é a mesma para todos, nem os barcos que a enfrentam são iguais. Desde o primeiro dia, a covid-19 nunca foi igualitária. Os primeiros infetados na Europa eram recém-chegados de férias na neve em Itália. As vítimas, essas, depressa se multiplicaram entre quem sonha com férias no estrangeiro. Na realidade, quanto mais sabemos sobre a propagação da pandemia, mais evidente se torna que a covid-19 de democrática tem muito pouco. A covid-19 não infeta todos os grupos etários por igual. A covid-19 não infeta (nem afeta) homens e mulheres na mesma proporção. Mesmo num país pequeno como o nosso, a covid-19 não se espalha simetricamente pelo território. Braga tem 17 vezes mais casos confirmados do que Setúbal, uma cidade de dimensão equivalente. Notoriamente, a covid-19 não se propaga proporcionalmente entre ricos e pobres.

O mesmo se passa um pouco por todo o mundo. Se a verdade nos ilude, é porque as mortes individualmente reportadas continuam a ser as dos mais “ilustres”. A propagação do vírus conta outra estória, porém: a da reprodução e amplificação de configurações de desigualdade há muito enraizadas. No Reino Unido, a taxa de mortalidade mais elevada surge no bairro londrino de Newham, seguido de perto por Brent, no Norte de Londres, e Hackney – todos eles bolsas de pobreza numa Londres tida por oásis de prosperidade. Privação económica e diversidade étnica fizeram destas áreas alvos fáceis para o vírus. A pobreza traduz-se nas doenças crónicas que agravam o quadro da covid-19. E o confinamento forçado em casas já de si confinadas, em que coabitam múltiplas gerações, dão uma ajuda extra na propagação. Isto para não mencionar que muitos dos membros destas comunidades são “trabalhadores essenciais” – taxistas, trabalhadores da limpeza, auxiliares em lares, condutores de autocarros, donos de pequenos supermercados – para quem não foi possível deixar de trabalhar. Para quem foi, muitas vezes, financeiramente necessário – senão legalmente obrigatório – continuar a trabalhar, mesmo que sem o mínimo equipamento protetor.

As desigualdades da covid-19 não são apenas as das taxas de infeção e mortalidade. Com as economias viradas do avesso, como se propagam – e propagarão – as sequelas do vírus pela economia e pela sociedade? Será que uma doença como a covid-19 pode lançar as bases para uma sociedade mais igualitária?

Há quem julgue que sim. Walter Scheidel é um deles. Para este historiador, as catástrofes são as Grande Niveladoras. Quanto mais traumática for a catástrofe, maior é o seu potencial nivelador das desigualdades. As pandemias, diz Scheidel, são uma de quatro catástrofes passíveis de reduzir a desigualdade. As outras três são a revolução, o colapso do Estado e a guerra.

A história parece dar-lhe razão. A Peste Negra matou um terço da população. O preço do trabalho aumentou. A Revolução Francesa destruiu o feudalismo e lançou as bases para a igualdade política. Já no século XX, a Segunda Guerra Mundial abriu caminho a trinta anos de crescimento económico e diminuição da desigualdade socioeconómica no Ocidente. A humanidade – parece – só aprende à força.

Será a covid-19 capaz de provocar semelhantes mudanças estruturais nos padrões de distribuição de riqueza e influência política? Será que Portugal se vai tornar um país menos desigual em resultado desta pandemia?

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Mural em Londres: a covid-19 não se está a fazer sentir por todos da mesma forma REUTERS/Hannah McKay

Segundo Scheidel, para que uma catástrofe seja niveladora são necessárias duas condições: ela tem de ser suficientemente traumática e suficientemente prolongada. Só assim as pessoas começam a considerar novas opções. O problema desta tese é que, passe a expressão, põe as fichas todas no mesmo cesto: no evento traumático, neste caso, na covid-19. Se doer o suficientemente, e por suficiente tempo, é possível prefigurar um novo futuro.

Os eventos de Scheidel são eventos violentos – eventos que tolhem muitas vidas num repente. O erro de Scheidel é fazer tanto do evento em si mesmo, da sua natureza, e tão pouco de como se lida com ele. A crise financeira de 2008 doeu e doeu por muito tempo – continua a doer, aliás. Contudo, não prefigurou futuro. A desigualdade não parou de aumentar. Os governos e trabalhadores continuaram a acumular dívidas ao mesmo ritmo que outros acumulavam propriedade, ações, títulos e ouro. Tudo dinheiro que não voltou a circular no sistema económico, aumentando salários. O que subiu foi o preço dos ativos. Com os governos a fazer pouco para travar o ciclo crescente de desigualdade, a covid-19 é agora parasitária de um corpo social tão ou mais dividido quanto estava antes de 2008.

Sejamos claros. Portugal está no topo do ranking da desigualdade na Europa, quando considerado o índice de Gini. A tão propalada “austeridade” – a que dizemos não querer voltar – em boa verdade nunca nos abandonou. Foi transferida para onde podia ficar mais escondida. E resultou no desinvestimento público, em sectores como o da saúde, como agora se tornou (mais) evidente. Mas quem nos ouve falar parece que o grande desígnio político nacional é – e sempre foi – o combate à desigualdade. A verdade, por mais que nos custe aceitar, é esta: em Portugal, durante décadas a fio, o discurso contra a desigualdade tem convivido muito bem com níveis elevadíssimos de desigualdade. E enquanto assim for, o resultado é só um. A desigualdade vai estar aí para dar e durar.

Diminuir a desigualdade socioeconómica e política de um país é um problema eminentemente político. Implica mudar a distribuição da riqueza. E a influência política. De uns grupos sobre outros, de uns grupos para outros. Esta é a raiz do problema. Qual é o governo que é capaz de dizer que vai dar uma fatia do bolo menor a uns para que outros possam ter uma fatia suficiente do mesmo? Que vai começar a dar mais ouvidos a certos grupos em detrimento daqueles que sempre ouviu – e com cujos votos sempre contou? Será a covid-19 pretexto suficiente para que aconteça tal inversão do modus operandi?

Malogradamente, as razões para otimismo são poucas. Se o trauma da covid-19 é grande e promete deixar algum lastro, não se está a fazer sentir por todos da mesma forma. No mercado de trabalho, os efeitos imediatos da pandemia estão longe de ser simétricos. O risco de cair no desemprego não é igualmente distribuído por todos os trabalhadores, independentemente do seu grau de qualificação ou experiência profissional. Os lay-offs – agora temporários, amanhã, quem sabe, permanentes – são no sector privado, não no público. As medidas extraordinárias de apoio a manutenção dos contratos – e, em muitos casos, de um rendimento necessário para a subsistência – não cobrem todos. A prazo, os efeitos da crise económica, com aumento de impostos e diminuição da despesa do Estado, irão, como sempre, afetar grupos assimetricamente e deixar a descoberto quem do Estado – dos seus hospitais, das suas escolas, da sua segurança social – mais precisa. Sem que haja palmas que nos valham.

Num futuro pós-covid-19, em que uma vacina barata e eficaz esteja disponível, iremos olhar para estes dias como um período conturbado, de enorme incerteza, em que fomos forçados a mudar de hábitos. Mas o hábito de viver num – e bem conviver com um – país profundamente desigual, esse, arrisca a manter-se por muitos e bons anos.

Os autores escrevem segundo o novo acordo ortográfico

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