Fátima: “Ou nos salvamos todos juntos ou afundamos todos juntos”, diz cardeal António Marto

Um nevoeiro cerrado abateu-se sobre o santuário de Fátima, com apenas alguns peregrinos que, do lado de fora das grades, não quiseram perder “este 13 de Maio único”.

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O nevoeiro cerrado que se abateu esta manhã sobre Fátima não permitiu que as pessoas que se foram posicionando do lado de fora das grades vislumbrassem o que se passava no recinto do santuário. Mas o nevoeiro não impede a propagação do som. Alzira Guerra, posta em layoff desde que o dia 19 de Março, bem pode ter pensado que era para si que falava o cardeal António Marto, quando, a partir do altar da basílica, desviou o olhar da Igreja para “os que sentiram o chão a fugir-lhe debaixo dos pés”.

Enquanto Alzira Guerra pensava na inevitabilidade do encerramento das portas aos peregrinos (porque “se chegasse aqui tudo ao monte e o vírus se espalhasse onde é que haveria depois hospitais para tanta gente?”), o bispo de Leiria-Fátima rasgava o nevoeiro para dirigir os olhos dos que o ouviam para as consequências da pandemia, “económicas, sociais e laborais”, com a consequente “extensão da pobreza, da fome e da exclusão social”.

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Daniel Rocha

“É uma situação que já bate às portas das cáritas diocesanas e de várias paróquias e soa a grito de alarme”, sublinhou, reforçando o apelo já antes lançado pelo Papa a “um impulso de solidariedade que oriente uma resposta mundial perante a anunciada quebra do sistema económico e social”. De resto, Francisco fez chegar uma curta mensagem “aos peregrinos ausentes”, pedindo-lhes que rezem pelas vítimas da covid-19. Antes de esta ser lida, no final da missa, António Marto reforçara os consecutivos apelos do pontífice durante esta crise sanitária. “Seremos capazes de actuar com responsabilidade diante da fome que muitos sofrem, sabendo que temos alimentos para todos?”, interpelou, para, entre apelos a medidas capazes de “deter a devastação do meio ambiente”, denunciar o “silêncio cúmplice” dos que consentem “nas guerras fomentadas por desejos de domínio e de poder”.

Sem negar “um coeficiente de tristeza e dor”, António Marto disse esperar que “a peregrinação interior” que este ano substituiu o calcorrear dos caminhos até Fátima, ajude os fiéis a “ver o lado positivo das crises, das noites escuras”. “[Esta crise] obriga-nos a repensar os nossos hábitos, o nosso estilo de vida, a escala de valores”, considerou, dizendo abalada a confiança dos tantos que acreditavam que o poder científico-técnico e económico-financeiro era capaz de garantir a imunidade perante este vírus “imprevisível, invisível, silencioso, capaz de contagiar tudo e todos”.

“Todas as nossas agendas e programações caíram como um castelo de cartas”, recordou, para lembrar que, com o caos instalado à escala mundial, “nos salvamos todos juntos ou nos afundamos todos juntos”. Assim, que “o vírus da indiferença” sirva ao menos para abrir o coração a um deus “tão esquecido, ignorado, marginalizado”.

Do lado de fora do recinto, segurando uma vela acesa na mão que a chuva miudinha não conseguiu apagar, Alzira Guerra receia vir a sentir na pele a miséria. “Não é só a tristeza de ver isto tudo fechadinho. Preocupa-me o emprego que, sem os peregrinos que não hão-de cá voltar tão cedo, vai desaparecer também.” São 57 anos de Fátima, quase todos a trabalhar num hotel que, neste 13 de Maio, em vez dos costumeiros 500 hóspedes, tem sete.

Não muito longe, junto à entrada no recinto pela rua Padre Manuel Nunes Formigão, sete pessoas assistiram ajoelhadas à missa. Outras preferiram ficar de pé, espreitando, pela nesga disponível, a capela do santuário. Francisco Franco Afonso, 49 anos, veio como peregrino desde Sintra, “em representação dos que não puderam vir”. “Fui convidado por Deus”, declara, sugerindo que nenhuma grade o impede de exercer a sua fé e seu o direito a agradecer “a vida maravilhosa” que diz ter. “Estas velas” – descreve — apontando as 10 que segura numa só mão, “representam cada uma das pessoas” que lhe são importantes. Quando as grades do santuário se levantarem, conta entrar para as acender junto à capela. “Está a ser um 13 de Maio único. Não podia deixar de cá estar”, remata.