“Ele está zangado, ela é só histérica”: como vemos as iras feminina e masculina?

“Histérica”, “chata”, “descontrolada”, “emotiva” e “exagerada” são adjectivos associados a mulheres zangadas? O ensaio fotográfico da polaca Werokina Perłowska, Anger Detracts From Her Beauty, convida-nos à reflexão: existe uma diferença de percepção no que concerne à ira masculina e à feminina?

©Weronika Perlowska
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©Weronika Perlowska

“A ira masculina é geralmente entendida como justificada, racional, é até um sinal de poder”, explica Werokina Perłowska ao P3, em entrevista. “Mas quando uma mulher se mostra zangada, abertamente, é vista como irracional, agressiva, histérica.” Na Polónia, o país de onde é natural a fotógrafa, existe um ditado dirigido às mulheres que remete para esse facto: “A ira diminui a sua beleza.”

Weronika cresceu com este ditado e, desde que tem memória, para si a ira sempre esteve associada a embaraço, a vergonha. “Na maior parte das vezes era a minha mãe ou avó quem repetia o ditado”, reflecte. “As mulheres também podem ser sexistas, claro. Todas crescemos num ambiente patriarcal, é muito difícil anular anos de educação machista.” Mas a artista não tem dúvidas: a mãe e a avó “faziam-no por bem”. “Esconder emoção era, para elas, uma forma de sobrevivência.” E recorda uma história familiar que aconteceu na infância e que vem confirmar a sua conclusão. “Quando meu avô estava a morrer de cancro, a minha avó visitou-o apenas uma vez no hospital. Ao sair disse-lhe ‘nunca mais me irás bater’. Essa foi a sua única expressão de dor e ira após décadas a cumprir o papel de uma boa esposa.” O mais chocante desta história, confessa, foi perceber “que muitos membros da família acharam isso horrível, algo terrível de se dizer”.

A artista cresceu alheia ao conceito de feminismo. “Nenhuma mulher, na pequena cidade do Norte da Polónia onde cresci, se auto-intitularia de feminista. Isso estava associado ao estereótipo de mulher feia, zangada, solteirona. Por isso, nem eu nem as minhas amigas nos identificávamos com o conceito. Era assim há 15 anos. Mas muito mudou, embora alguns problemas se mantenham. Não existe, por exemplo, nem uma mulher no corpo docente do departamento de fotografia da minha faculdade, ou seja, nenhuma mulher para falar sobre o meu trabalho. Isso, sim, deixa-me zangada.”

Estudos científicos confirmam a existência de uma diferença de percepção no que toca a ira masculina e feminina: a maioria “refere-se à esfera pública, ou seja, a mulheres em contexto laboral, político”. No contexto médico, estudos indicam que há mais mulheres a morrer de ataque cardíaco por verem os seus sintomas confundidos com ansiedade. “A relação entre a feminilidade e a doença mental tem uma longa história, que tem sido vei