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O milagre?

Hoje é dia 13 de Maio. Pode ser que se faça o milagre de se recomeçar a reerguer o país, na pesca, na agricultura, na indústria e se continue, reforçadamente, a apostar nas tecnologias e na investigação.

Talvez os dias que vamos vivendo pudessem ajudar a construir uma sociedade melhor, mas nada o indica. Definitivamente, a espécie humana, em geral, não é mesmo nada boa e, portanto, nada solidária. Vejamos:

1. A tão propalada solidariedade enreda-se em contradições e discussões sobre os limites das competências dos Estados-membros versus as da União Europeia, no que concerne aos auxílios económicos face à pandemia, já que a Saúde é competência de cada país. Na União Europeia há bem quem aproveite para cercear direitos, liberdades e garantias, incluindo a liberdade de imprensa, ou seja, a própria Democracia (é ver a Hungria). Onde estão as instituições europeias?

2. Em Portugal, fábricas e serviços encerram, muitos para não reabrir, na verdade sem culpa dos próprios. Claro que há sempre oportunismos. Mas, na verdade, os países não podem pôr os ovos todos no mesmo cesto. No caso português, a aposta desenfreada no turismo não augurava nada de bom, mesmo antes da pandemia. Bastava olhar para países que tanto apostavam na actividade turística e que por razões outras se viram sem turismo (veja-se o Egipto, felizmente já a recuperar, embora de forma ligeira).

Onde estão a indústria, a pesca, a agricultura, por exemplo? Somos óptimos nas novas tecnologias, na investigação. Na medicina. Mas investimos suficientemente nestes sectores? O SNS está um caos, até com o adiamento da remarcação de consultas em várias áreas críticas, além da falta de material.

3. Na sequência do que vai dito anteriormente, o desemprego cresce e muito, com todo o vale de misérias que lhe está associado, em que avulta a fome, como é patente, por exemplo, no recurso ao Banco Alimentar e na ajuda das autarquias.

4. E quanto ao ensino? A indefinição do que se espera para as creches é assustadora, se é que é possível regular, sem riscos, a sua actividade. Regulação que tarda, talvez dada a sua dificuldade. Explique-se a uma criança de um ou dois anos que não pode partilhar os seus brinquedos, que lhe pertencem exclusivamente, que se deve afastar dos seus colegas e as regras que têm, obrigatoriamente, de cumprir.

E quanto às educadoras? Basta um minuto para acudir a uma criança, para que as outras infrinjam todas as regras. Como é evidente.

Quanto ao mais, nem todos os estudantes podem ter os mesmos meios para o ensino à distância. Nem todos podem ter a companhia ou a ajuda dos pais e muitos dos que podem são os próprios pais que não os conseguem ajudar. Claro que sairão beneficiados os que dispõem de mais meios materiais e apoio humano. O ensino é crucial para estabelecer um padrão para o caminho da igualdade.

Criou-se mais um fosso de desigualdade. Onde fica, assim, a igualdade de oportunidades?

5. As forças de segurança e os profissionais de saúde são desrespeitados e agredidos. Onde está a autoridade (não confundir com autoritarismo) do Estado?

6. A intolerância, a raiva, associadas à falta de alternativas, crescem. Ora, estes sentimentos, quando se instalam nas sociedades, dificilmente voltam atrás, ainda que subsistam de forma larvar.

Finda a pandemia, vamos deparar-nos com uma sociedade mais pobre, mais desigual, sem que o Estado ajude (com atrasos das Finanças, a bloquear milhares de empresas exportadoras, criadoras de trabalho).

Hoje é dia 13 de Maio. Pode ser que se faça o milagre de se recomeçar a reerguer o país, na pesca, na agricultura, na indústria e se continue, reforçadamente, a apostar nas tecnologias e na investigação.

Porém, não há milagres em que o ser humano não entre; tem é de fazer por isso. Mas que exista mais solidariedade, menos indiferença, mais fé um no outro. E que cada um de nós faça a sua parte.

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