Juntos pela saúde mental

É urgente que os serviços de saúde, em conjunto com os seus parceiros, assumam a população pela qual são responsáveis, com as suas características e especificidades, e que se criem redes de respostas articuladas que vão da promoção da saúde mental ao tratamento mais diferenciado das doenças.

Nesta semana que a Europa dedica à saúde pública, interessa refletirmos sobre aquilo que a pandemia tornou claro, e quais as lições que podemos retirar para o futuro. Que sociedade queremos ser e que saúde, em particular que saúde mental, queremos ter?

É nos momentos de crise que a nossa saúde mental individual e coletiva se testa, e que percebemos quais as nossas insuficiências, mas também quais as nossas forças e a capacidade de adaptação que temos face a múltiplos desafios. Reencontramos a nossa essência, aquilo que nos define, e a forma como queremos continuar no tempo que aí vem.

Neste “momento de verdade” e no que toca à saúde mental, a sociedade e, na saúde, os Cuidados de Saúde Primários (CSP) e os Serviços de Psiquiatria (SP) souberam estar à altura, e de forma rápida e articulada foram capazes de se reorganizar e responder às necessidades da população de quem cuidamos. Destes tempos será bom guardarmos a memória de que demos o melhor de nós, e que não ficámos apenas passivamente à espera que nos dissessem o que e como fazer.

Para os próximos tempos, outros desafios se colocam, e haverá opções a fazer. Se num prato da balança teremos uma série de determinantes como a pobreza, o desemprego, a discriminação ou o isolamento, no outro pesará a nossa resposta enquanto cidadãos, nos nossos múltiplos papéis (como familiares, vizinhos, colegas e amigos), assim como a resposta do Estado, das várias IPSS, câmaras, da sociedade civil, de todo o Serviço Nacional de Saúde e dos seus parceiros, assumindo cada um a responsabilidade que lhe compete.

É urgente que os serviços de saúde, em conjunto com os seus parceiros, assumam a população pela qual são responsáveis, com as suas características e especificidades, e que se criem redes de respostas articuladas que vão da promoção da saúde mental ao tratamento mais diferenciado das doenças. Que seja possível agir sobre determinantes que continuarão a deixar a sua marca indelével no percurso da saúde ou do adoecer.

Para isso será fundamental:

  • Estreitar a relação entre a intervenção clínica e a intervenção social;
  • Identificar e intervir em grupos de maior risco de pior saúde mental, com particular enfoque nas intervenções na gravidez e primeiros anos de vida;
  • Intervir em equipas multidisciplinares, promovendo respostas diversas em função de problemas e necessidades distintas;
  • Conciliar proximidade e diferenciação, tornando acessíveis à população intervenções eficazes;
  • Promover o desenvolvimento dos cuidados de saúde mental a crianças e jovens;
  • Garantir a articulação entre saúde mental da infância e da adolescência e saúde mental de adultos, seguir famílias e evitar a perpetuação de fatores de risco e a replicação de modelos patológicos;

Só desta forma nos poderemos antecipar, percebendo quem são os mais vulneráveis, introduzindo estratégias que atenuem discrepâncias e reforcem a resiliência e a coesão social, que interrompam ciclos de pobreza, discriminação e sofrimento. E não ficaremos apenas num papel de espectadores passivos, aguardando o engrossar de fileiras nas nossas consultas.

Temos de identificar boas práticas, investir nos Cuidados de Saúde Primários e na sua articulação com os serviços hospitalares, envolver e motivar parceiros, promover a comunicação entre todos, e perceber o que falta e o que é necessário fazer. 

E de uma vez por todas deve ficar claro que a saúde mental é uma prioridade e uma questão de saúde pública.

Só desta forma poderemos melhorar a saúde mental de todos.

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A Escola Nacional de Saúde Pública e o PÚBLICO juntam-se para comemorar a Semana Europeia de Saúde Pública que, em 2020, é dedicada ao tema Covid-19: Colaboração, Coordenação e Comunicação