O teletrabalho em regime de confinamento

O psiquiatra Júlio Machado Vaz analisa os prós e contras de trabalhar em casa e os reflexos dessa prática nas relações pessoais e laborais, em mais um episódio de Por Falar Nisso, um projecto em parceria com a Multicare.

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D.R.

E, de um dia para o outro, o escritório passou a ser (n)a nossa casa. Para uns, foi um sonho tornado realidade – pelo menos nos primeiros tempos; para outros, uma espécie de “condenação” entre paredes.

Ainda que o teletrabalho não tenha «sido foi inventado durante a pandemia», como faz questão de sublinhar o psiquiatra Júlio Machado Vaz na quinta sessão de Por Falar Nisso, um projecto conjunto com a Multicare, o facto de essa prática ter entrado na rotina de milhares de portugueses, como forma de combater a propagação do novo coronavírus, leva-nos a reflectir sobre os seus reais prós e contras.

Dizem alguns estudos sobre o tema, afirma Júlio Machado Vaz, que «o teletrabalho permite uma maior flexibilização do trabalho, maior autonomia da pessoa que o executa e um maior contacto familiar», sendo mesmo apontado por muitos como uma filosofia laboral que permite «um acompanhamento maior do crescimento das crianças», chegando mesmo a ser encarado como uma estratégia de «combater a crise de natalidade com que nos debatemos». 

Ainda assim, outras pesquisas indiciam outras questões, nomeadamente em relação aos homens mais velhos, pessoas «perfeitamente capazes de funcionar em teletrabalho sem problema nenhum prático e, no entanto, não se sentem à vontade, referindo mal-estar», refere o psiquiatra. A razão apontada: o facto de serem pessoas de uma geração «formatada para um determinado tipo de trabalho e sobretudo para um determinado tipo de organização familiar, em que o homem era o ganha-pão da família».

Nesses estudos, esta geração de homens com outra perspectiva de relação familiar e laboral, referiam «que o facto de estarem a trabalhar em casa, lhes despertava uma certa angústia», não sentindo mesmo o teletrabalho, como uma actividade laboral real…«porque estavam em casa».  

Outras faces da mesma moeda

Actualmente, analisar o teletrabalho enquanto actividade, é uma tarefa ainda mais complexa, pois, afirma Júlio Machado Vaz, «apresenta vantagens em termos de redução de custos, aumentos de produtividade», mas «também descobrimos que há outra face da moeda». ​

Em contrapartida, surgem outras opiniões sobre trabalhar em casa, em especial entre as mulheres, que se queixam de estar «exaustas e, pior que isso, terem a sensação de não estar a ser eficaz em nada», principalmente por terem de apoiar os filhos «com a telescola» e «não conseguirem deitar mãos a tudo», refere o especialista.

«Há um triângulo no teletrabalho que tanto pode ser», diz Júlio Machado Vaz, «uma espécie de santíssima Trindade, quando tudo corre muito bem, ou como o triângulo das Bermudas». Isto porque trabalhar em casa influencia directamente a «relação que se mantém com as chefias, com os nossos pares, estando em teletrabalho ou não, e sobre a família, ou seja, na relação que se estabelece entre trabalho e família» enumera. E, muitas vezes, essa dinâmica faz com que «as fronteiras entre essas realidades praticamente desapareçam».

Entre as razões apontadas estão as diferenças entre trabalhar fora de casa e fazê-lo entre as paredes que partilhamos com a nossa família. «É muito complicado porque quem estava habituado a ter um trabalho que cumpria escrupulosamente, mas depois ia para casa, depois era fim-de-semana», agora está «em três videoconferências ao mesmo tempo, com alguém que pediu qualquer coisa à hora do jantar», exemplifica Júlio Machado Vaz. E é esse estar «sempre contactável que pode transformar a vida num inferno».

Para o evitar, aconselha o psiquiatra, «é fundamental manter fronteiras, preservar o nosso espaço individual, a nossa saúde física». Para contrabalançar «as muitas horas em frente ao computador, temos de nos levantar e dar uma volta pela casa, ou na rua». Além disso, é preciso «autodisciplina, sermos capazes de organizar a nossa vida», estratégias que permitam «uma verdadeira alienação» daquilo que é teletrabalhar, principalmente em tempos de confinamento ou no processo de transição para o regresso à vida activa.

Na próxima semana, não perca mais um episódio de Por Falar Nisso, com Júlio Machado Vaz. Veja este e outros vídeos na página do projecto da Multicare, Por Falar Nisso. 

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