O grande showman com Hugh Jackman

Hugh Jackman domina Bad Education, filme original da HBO sobre um escândalo verídico nos liceus nova-iorquinos.

,HBO
Foto

Não, minha senhora, a sua criancinha não é melhor que as outras todas nem merece tratamento especial ou diferente das outras todas. E não, minha senhora, não estamos aqui para nos substituirmos aos pais. E o seu filho não é uma mera marioneta que a mãe pode usar para tratar do seu estatuto social. É perfeitamente viável acreditar que isto passa pela cabeça de milhões de professores em todo o mundo ao serem confrontados com pais que acham, erradamente, que a escola está lá para fazer as vezes da família ou que exigem aos professores aquilo que eles próprios não são capazes de dar aos filhos.

O problema é que o desabafo moralizador (e, claramente, incompreendido pela mãe que continua completamente absorvida pelo seu próprio interesse pessoal) surtiria muito maior efeito se não fosse feito por um administrador escolar à beira de ser preso por ter desviado 11 milhões de dólares dos cofres do estado.

O administrador existe realmente, chama-se Frank Tassone e desviou ao longo de vários anos 11 milhões do sistema escolar — e fê-lo enquanto o liceu de Roslyn, que dirigia, se tornava numa das escolas com maior sucesso do estado de Nova Iorque, enviando vários dos seus alunos para universidades de topo. É Hugh Jackman quem lhe dá corpo em Bad Education, longa-metragem de Cory Finley agora em streaming no serviço HBO, estreado no festival de Toronto em 2019 mas adquirido em exclusivo pelo canal. É uma daquelas interpretações que no papel parece à medida dos Óscares — estrela de Hollywood em papel de grande aldrabão que abusou da confiança de todos — mas Jackman, e o filme, trocam-nos as voltas de maneira inteligente.

Bad Education foi escrito por Mike Makowsky, que era aluno do liceu de Roslyn no momento em que tudo decorreu. Mesmo tomando em conta as necessárias alterações cosméticas para efeitos cinematográficos, o que ele escreve é menos uma história do escândalo e mais uma radiografia transversal de uma comunidade que colocou o estatuto social, a vontade de ser mais do que um simples subúrbio ignorado, e as consequências económicas daí resultante, acima dos valores básicos da família que alegadamente defendia.

Jackman interpreta Tassone como simultaneamente vítima e instigador desse círculo vicioso e viciado, apanhado numa armadilha que ajudou a criar — um aldrabão consciente, até mesmo orgulhoso, de o ser, mas também “bode expiatório” conveniente para uma comunidade pouco disposta a assumir as suas próprias culpas no cartório. Um “grande showman”, em suma, que Jackman, Finley e Makowski entendem como um ser humano complexo e matizado, à imagem de todas as outras personagens que povoam Bad Education. É muito fácil culpar os outros quando somos todos cúmplices. E é também, há que dizê-lo, muito americano (mesmo que não apenas) — o que torna o filme num olhar muito pouco complacente sobre uma sociedade que perdeu o norte em nome da aparência.

Sugerir correcção