Crónica

Parece normal ser-se racista, outra vez

Apesar de a memória histórica e de a luta contra a impunidade serem pedras basilares na criação de um mundo melhor, acredito que a nossa arma mais poderosa é dar o exemplo.

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Nuno Ferreira Santos

Numa altura em que parece normal ser-se racista, outra vez, há duas hipóteses de lidar com este retrocesso civilizacional: criticar, espezinhar e humilhar a malvadez; ou realçar, ampliar e deixarmo-nos inspirar pelos espíritos mais iluminados.

Eu já engoli lâminas de revolta em Auschwitz na Polónia, no memorial do genocídio em Kigali no Ruanda, no museu dos direitos humanos de Santiago do Chile, no museu da história afro-americana em Washington DC, ou na Casa da Inquisição em Cartagena na Colômbia... E, infelizmente, já vi muitas guerras, de muito perto. A vontade de cuspir fogo, contra-atacar à bomba, gritar odeio-vos de boca aberta e pendurar pelos tornozelos todos os culpados, os responsáveis, os coniventes, os amigos, os primos e os que alguma vez ouviram falar e não fizeram nada, para uma morte lenta, sofredora e o mais duradoura possível... é uma tentação enorme.

Mas, apesar de a memória histórica e de a luta contra a impunidade serem pedras basilares na criação de um mundo melhor, acredito que a nossa arma mais poderosa é dar o exemplo, glorificar os heróis da humanidade para assim moldarmos o mundo com as inspirações que nos arrepiam a pele, pelo carácter, pela honra, pela luta feroz sem violência, entregando à empatia a força de superação quando os nacionalismos, a xenofobia e o racismo nos desafiam.

Aqueles que nos fazem querer ser pessoas melhores têm de ser o nosso caminho!

Viemos todos do mesmo sítio, somos uma mistura de histórias, de cores, de religiões, reinados e divisões afins, mas somos todos iguais. Todos!

O que nos falta é gritar mais vezes ao mundo sobre os heróis do Holocausto como Schindler, Aristides de Sousa Mendes e tantos outros; ou os feitos da Cruz Vermelha e dos Médicos sem Fronteiras aquando do genocídio do Ruanda; ou o discurso de Salvador Allende antes de Pinochet chegar ao poder, ou a história de Rosa Parks e Martin Luther King; ou ainda a bravura dos nativos americanos pela libertação do que sempre foi deles, em resposta aos cinco exemplos acima.

Mais do que criticar a pequenez e ignorância dos que viram homens contra homens que só amplifica a agenda de alguns, é preciso relembrar que os que ficam adorados para a história são os de coração grande: Nelson Mandela, Gandhi, Malala, Pepe Mujica, Papa Francisco, homens e mulheres que, independentemente do seu credo, raça, estatuto ou cor, nos relembram que a bondade pode sempre vencer a maldade.

Vai sempre haver vozes de raiva, cabe-nos ouvir quem queremos ser. E eu gostava de estar do lado bom da história que neste momento é o presente. É preciso coragem para abraçar um desconhecido, mas a felicidade é mais honesta, mais duradoura e a multiplicar por dois.

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