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Na Tailândia, as atenções estão voltadas para a covid-19 — e o desperdício de plástico aumenta

Depois de uma tentativa de banir o plástico descartável, a Tailândia vê agora o desperdício aumentar. A pandemia levou a que mais pessoas encomendassem comida — entregue em casa em recipientes de plástico. Durante o mês de Abril, o desperdício de plástico aumentou 62%.

A Tailândia começou o ano a banir o plástico descartável. Nicha Singhanoi, trabalhadora de um escritório em Banguecoque, esperava que a decisão levasse a uma diminuição do lixo que coloca o seu país na lista dos cinco que mais asfixiam os oceanos com plástico.

Até que a pandemia provocada pelo novo coronavírus forçou o encerramento das escolas e as autoridades ordenaram que as pessoas ficassem em casa. Desde então, em vez de diminuir, o desperdício de plástico disparou 62% em Abril, uma vez que mais pessoas optaram por encomendar comida e outros bens que agora são entregues em casa.

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“Há demasiado plástico, embalagens e sacos nas entregas de comida”, afirma Nicha, de 27 anos, uma ávida compradora online, que diz que trabalhar em casa a privou de tempo para cozinhar.

Ainda que a pandemia dê tréguas, ambientalistas temem que a Tailândia seja um indicador daquilo que será o panorama do Sudeste Asiático — onde se situam os quatro países que mais poluem os oceanos. O primeiro é a China.

Cerca de 3432 toneladas de plástico foram descartadas todos os dias na capital tailandesa durante o mês de Abril. Mais do que a média do ano anterior, de 2115 toneladas. Itens como embalagens de take-away, garrafas e copos representam mais de 80% dos resíduos.

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A situação da Tailândia serve para alertar a região, diz Wijarn Simachaya, presidente do Instituto do Ambiente da Tailândia. “O grande aumento [do uso de plástico] é muito preocupante”, refere Wijarn à Reuters. “Todo o progresso que fizemos com a campanha contra o uso de plástico descartável voltou à estaca zero.”

Apesar de uma pequena diminuição na produção de lixo comum, provocada pelo encerramento de negócios, a Tailândia — que normalmente gera cerca de dois milhões de toneladas de lixo plástico todos os anos — deverá ver um aumento de 30% desses resíduos este ano, avisa Wijarn. “Há muito plástico utilizado num só pedido. Seja o saco de uma comida quente, uma embalagem para os molhos ou os utensílios que também são embrulhados em plástico.”

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O ministro do Ambiente Varawut Silpa-archa reconhece o passo atrás na luta contra o desperdício de plástico, mas mantém a esperança de que o país ainda pode reconquiste o território perdido. “Não se pode lutar tantas batalhas ao mesmo tempo”, diz Varawut à Reuters. “Agora, a covid-19 está primeiro”, acrescentou, referindo-se à doença que já provocou 3015 infecções e 56 mortes na Tailândia.

Aumento da entrega de comida

Estima-se que o sector de entrega de comida tenha crescido 33% em pouco mais de um mês, o que representa cerca de 4,5 mil milhões de baht (128 milhões de dólares), diz Siwat Luangsboon, director-geral do Centro de Investigação de Kasikorn, uma unidade do banco da Tailândia.

“A Tailândia estava no caminho certo para reduzir os plásticos de uso único em 30% ainda este ano, depois de terem sido banidos os sacos plásticos. Mas com o comportamento dos consumidores a virar-se para a entrega de comida, podemos não ser capazes de voltar a esse caminho”, referiu.

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O serviço de entrega de comida Line Man, da app japonesa Line Corp, viu as suas encomendas crescerem 300% desde o início do confinamento em Banguecoque (de Março ao final de Abril), disse à Reuters um representante da empresa.

Grab, uma app com sede em Singapura, registou um aumento de 400% nos serviços de entrega de comida, uma semana depois do confinamento, mas referiu que os números acabaram por baixar, fixando-se em valores pouco acima do normal.

Já a tailandesa Foodpanda referiu que os pedidos aumentaram 50% de Fevereiro para Março e 10% em Abril. Transacções feitas durante a semana atingiram o pico na primeira semana de Maio.

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Poluição dos oceanos

O Sudeste Asiático tem sido um dos maiores responsáveis pelo plástico que vai parar aos oceanos, dizem os ambientalistas. A região que luta contra uma fraca gestão de resíduos vai ser agora atingida por um “massacre súbito” de plástico gerado durante a pandemia, garante o grupo Ocean Conservancy.

“Prevemos que os danos sejam mais significativos em locais que já são vulneráveis à poluição dos oceanos com plástico, como o Sudeste Asiático”, refere Doug Cress, o vice-presidente da organização.

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Não há ainda dados do desperdício de plástico provocado pela pandemia de outros países além da Tailândia. A China, o maior poluidor, e nações como a Indonésia, Filipinas, Tailândia e Vietname são responsáveis por metade da poluição de plástico nos oceanos, disse a Ocean Conservancy em 2015.

A China não disponibilizou dados detalhados do desperdício de plástico provocado pelas entregas ao domicílio, que cresceram um quarto entre Março e Abril. O ministro do Ambiente chinês tem-se focado no combate ao crescente lixo provocado pelos cuidados médicos.

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