Quase bêbados, quase tristes, quase contentes

Tenho cuidado nas palavras, amor também é respeito e a crítica, quando indevidamente usada, infecta tal qual o vírus. Valorizo mais do que nunca a importância de saber preencher o vazio e a desolação, e de calar também a dor.

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Mohammad Mahdi Samei/Unsplash

Afinal é tão fácil ficar tudo ao descoberto, ficarmos nus como amendoins descascados. Não nos vestem altos portões, nem tão pouco convicções que vêm a ser desmentidas horas depois. E foi de um dia para o outro, por muito que nos batesse à porta um prenúncio de morte. Como um casal que nunca espera a separação e vem pedindo o divórcio. Calhou-nos a quase todos. Uma separação em massa da vida como era e como a conhecíamos. E agora, como vão os nossos ímpetos de certezas e as nossas precipitações de dúvidas?

A vulnerabilidade tem uma beleza estranha, é controversa, nunca ninguém morreu de amores por coisas consensuais, por muito que possamos gostar delas. Neste estado confuso, quase bêbados, quase tristes, quase contentes, sem o querer romantizar mas notando-lhe alguma beleza, os pensamentos são céus cheios de aviões. Há uma poluição interior inevitável, verdades impermanentes, ilusões e desilusões, bem como descobertas. O inesperado e o tempo servem para ir às coisas do coração, mexer nelas, enfiar um dedo no buraco aberto ao centro do peito e deixá-lo ali a ressuscitar o músculo esquecido. Nesse encontro com a nossa sensibilidade parecemos ver mais coisas, tudo fica grande e enorme ou pequeno e minúsculo, consoante o grau de importância que atribuímos aos aviões do nosso céu interior. E, de repente, há uma lucidez nesta confusão, uma lucidez também inevitável, como o bêbado que parece ver melhor o que lhe vai na alma. Esta onda de paradoxos a desenrolar-se desde os idos de Março de 2020, a par da saudade dos afectos que já vinha de antes. Pergunto-me como será presidir para Marcelo Rebelo de Sousa com distanciamento necessário? Ficar atrás do púlpito a discursar quando sempre governou do mesmo chão. Este estado torna-nos também mais pessoas, percebemos-lhes os sacrifícios.

Desta minha confusão lúcida cresce-me a sensibilidade aos outros, ao trabalho dos outros, à importância de todos, apercebo-me de que existo, que tenho também um papel, verifico ao milímetro as nossas diferenças, este nosso sortido tão refrescante. Não que não o soubesse antes, mas é agora mais do que outras vezes escolha minha apurar-me enquanto ser humano. Apercebo-me do quanto somos rápidos a solucionar berbicachos tecnológicos, de como nos adaptamos assustadoramente às realidades e de como as oscilações de humor debaixo do mesmo tecto são berbicachos maiores.

Tenho cuidado nas palavras, amor também é respeito e a crítica, quando indevidamente usada, infecta tal qual o vírus. Valorizo mais do que nunca a importância de saber preencher o vazio e a desolação, e de calar também a dor. Coisas que deviam ser estudadas a fundo nas escolas. Respeito e imaginação, se quiserem chamar por outros nomes, Civismo e Arte. E faço a descoberta de outros mistérios meus, que eu própria não conhecia, com uma única certeza, são sempre as pessoas que nos transformam.

Destas percepções, um quase contentamento, uma confusão, uma quase tristeza pela incerteza do que há-de vir. Esta embriaguez necessária para poder ver.