Dia 39: Os netos são a melhor terapia antienvelhecimento que existe

Uma mãe/avó e uma filha/mãe falam de educação. De birras e mal-entendidos, de raivas e perplexidades, mas também dos momentos bons. Para avós e mães, separadas pela quarentena, e não só.

Foto
@DESIGNER.SANDRAF

Querida Filha,

Foto

Obrigada pelo melhor presente de anos de sempre: a tua família, a Amora incluída. Não podia começar uma nova década, sem as voltar a abraçar, esmigalhá-las com os meus braços, até elas protestarem que lhes roubo o ar. Não tenho jeito para passar a escrito as grandes emoções, pelo menos não a quente, parece que me faltam ainda mais as palavras do que o costume. Às vezes, se calhar, quem vê de fora até imagina que não fiquei emocionada, porque tenho um censor interno que me diz qualquer coisa como “Não é preciso fazer espectáculo!”, mas tu sabes como fiquei feliz, e é isso que me importa.

Sei que já tínhamos pensado juntas que estava na hora de juntarmos as nossas quarentenas, neste tempo de desconfinamento cuidadoso mas quando vos vi entrar pela porta, não queria acreditar. Agora só faltam os de Coimbra, que também não podem demorar muito.

Mas os avós que esqueçam a possibilidade do estar no mesmo quarto com eles em distanciamento social. É impossível. Sentei-os ao colo, dei-lhes beijinhos, e confirmei: os netos são a melhor terapia antienvelhecimento que existe. À noite, no escuro do quarto, as gémeas pediram-me que lhes contasse histórias de quando eu era pequenina. Num primeiro instante julguei que estavam só a ser simpáticas, mas quando as vi entusiasmadas com a história da minha primeira paixão aos 13 anos, fui somando detalhes que tinha esquecido, de há tanto tempo não revistar estas memórias. Que bem me fez percebê-las genuinamente expectantes, em lugar de receber aquele “Já sei, já me contou”, de marido e filhos, que conhecem os nossos “tops” de trás para a frente. Rimos tanto, ridicularizaram a minha ingenuidade por ter acreditado nele, garantiram-me que está com certeza velho e gordo porque comeu demais para compensar o desgosto de me ter perdido (!) e conversámos até altas horas, como se eu fosse da idade dela e estivéssemos na camarata de um colégio interno. Adormeci como não adormeço há anos. E elas também.

O fim-de-semana prolongou-se, e achei-as tão bem, tão crescidas, tão calmas, tão generosas com os mais pequeninos, e que bom foi ver que o Mini E., não me estranhou nem um bocadinho, foi até o que mais gostou de jardinar comigo — vêm aí mais dez anos em que ele vai ser a melhor companhia.

Conclui que depois desta separação forçada, os avós vão ter de pôr de lado a ilusão de que são imprescindíveis: os pais dão mesmo conta do recado. Sabes que me parece que esta quarentena se vai revelar uma bênção para as crianças: a dose reforçada de pais vai torná-los mais seguros e autónomos. E com as pilhas carregadas de pais, vão tirar ainda mais prazer em ficar com os avós.

Obrigada, foi bom fazer 60 anos em tempo de pandemia. Estes não os esqueço, de certeza.


Querida Mãe,

Foto

O presente foi para todos! Não havia ninguém que conseguisse parar de sorrir!

Já falávamos nesta hipótese há muito tempo e sei que haverá famílias que, por uma razão ou por outra, não se poderão ainda reunir, mas dentro do nosso contexto sabíamos que a decisão era relativamente segura (tão segura, quanto a vida pode ser!).

Por momentos, apetece ser recatado em relação ao bom que foi, porque a última coisa que queremos é magoar aqueles que ainda não tiveram essa sorte mas, por outro, se não nos permitirmos celebrar plenamente estes momentos, se não nos autorizarmos a ser felizes apesar das dores dos outros (seja este o assunto ou qualquer outro), nunca nos vamos autorizar a viver. E aí, sim, estaremos a desvalorizar as bênçãos que vamos recebendo.

Achei tão engraçado ver como nos últimos dias, já com a notícia que íamos aparecer nos seus anos, os miúdos começaram a ficar cheios de saudades e impacientes. Pareciam eu quando passo alguns dias sem filhos: enquanto estou longe aguento relativamente bem, mas na viagem para casa, nas últimas horas antes de os ver, as saudades tornam-se verdadeiramente difíceis de suportar.

Depois, é tão bonito ver como afinal, apesar de todos os seus receios, a intimidade volta em três minutos. Que isto sirva de consolo aos avós que ainda guardam dentro de si o medo de estarem a perder os netos, porque em breve estarão juntos e será como se nunca se tivessem separado — mas melhor! Porque, pelo menos nós os adultos, não nos vamos esquecer tão cedo do quão valioso é cada gesto, cada abraço e cada reencontro.

Que todos os avós tenham rapidamente a nossa sorte, em segurança.

Love you!


No Birras de Mãe, uma avó/ mãe (e também sogra) e uma mãe/filha, logo de quatro filhos, separadas pela quarentena, vão diariamente escrever-se, para falar dos medos, irritações, perplexidade, raivas, mal-entendidos, mas também da sensação de perfeita comunhão que — ocasionalmente! — as invade. Na esperança de que quem as leia, mãe ou avó, sinta que é de si que falam. Facebook e Instagram