Crónica

Um farol no 1.º andar e no meio da distopia

O isolamento dos nossos rochedos parece começar agora a suavizar-se. Ainda bem. Ninguém quer ficar para sempre fechado no meio do oceano.

Deu-se uma coincidência de leituras cá em casa, durante o confinamento que começa agora a abrir-se lentamente. Encomendei um livro para a minha filha, chama-se Olá, Farol! e é de Sophie Blackall. Nas ilustrações, vê-se um farol, uma pequena casa isolada no meio do oceano. O faroleiro escreve no diário do farol, cumpre as tarefas profissionais e domésticas, ouve o vento. “Põe a mesa e trauteia uma música e anseia por alguém com quem conversar”.

A vida num farol lembra-nos a distância, e também a solidão, mesmo que não estejamos sozinhos. No farol do livro da minha filha até nasce uma criança. A coincidência foi que, também nesses dias, eu andava a ler o Rumo ao Farol, de Virginia Woolf, e, depois, até o filme vimos cá em casa. De repente, parecia-me que o nosso próprio apartamento no meio da cidade se tinha transformado, também ele, num farol.

Um farol num pequeno rochedo, rodeado de rua com cafés fechados, dia e noite, dia e noite. O tempo a passar, o tempo suspenso. As mil tarefas que existem dentro de uma casa. Tudo acontece em todo o lado, mesmo quando tudo parece parado. O nosso farol imaginário também parecia silencioso, mesmo com uma miúda de dois anos a correr pelas divisões, mesmo que também nós ouvíssemos ondas inventadas a bater nas rochas, como na história que lhe conto antes de adormecer – no final do livro, a autora conta que o farol que aparece na obra “é baseado num outro” onde tinha ficado, “localizado numa pequena ilha na extremidade mais a norte da Terra Nova que, citando Herman Melville em Moby Dick, ‘não aparece em nenhum mapa; os sítios verdadeiros nunca aparecem’”.

Foram e são assim os dias, instalados no nosso farol no 1.º andar num bairro que, antes de tudo acontecer, ficava sempre acordado. Agora, estávamos longe dos amigos, dos primos, dos tios e dos avós. Também eu, como faroleira da minha fortaleza, escrevi um diário. Cheio de desenhos da minha filha, sem notícia de mortes, uma angústia disfarçada a lápis de cor e de cera. Mas tem as datas dos estados de emergência, lembra que estávamos fechados, que não se podia sair, nem abraçar avós, nem beijar amigos. Verdade, aconteceu mesmo. Para que ela saiba um dia.

É um caderno feito a pensar nela, para que, quando crescer, tenha um registo do que viveu, do que vive, numa idade em que ainda não compreende tudo o que se passa. Numa idade em que não compreende totalmente este tempo brutal, roçando a ficção, assemelhando-se a uma distopia. Um tempo de afastamento de tudo e de todos que nos juntou, porém, aos três em casa horas e horas a fio. Não foi fácil nem só difícil. Foi outra coisa diferente. Nunca vista. Um sítio desconhecido.

O isolamento dos nossos rochedos parece começar agora a suavizar-se. Ainda bem. Ninguém quer ficar para sempre fechado no meio do oceano. Até o faroleiro da história da minha filha o sabe. Chega um dia e aquela vida acaba: “Ele cuida da luz e escreve no diário do farol, mas sabe que não o fará por muito mais tempo.”

No outro dia veio o sol e o calor. Pela janela entrava-nos aquele cheiro louco das flores. Nós, no nosso farol, ficámos um bocadinho loucos também. Aquele cheiro lembrou-nos das esplanadas, dos passeios com amigos, das brincadeiras com os filhos dos outros, das conversas que juntam todos num jardim, das madrugadas de danças sem sono, dos apertos de mão, dos sorrisos sem máscaras.

A nossa filha de dois anos e poucos meses não percebe tudo o que se passa, mas nunca falou tanto de rua. Agora, quando sai de casa, diz, espantada: “Tantos senhores!...” Aquele cheiro louco das flores lembrou-nos da liberdade despreocupada das ruas. Essa liberdade despreocupada ainda não voltou tal como era, ainda temos de acender a luz dos nossos faróis todas as noites, mas parece-nos, deste nosso 1.º andar, que aquele nevoeiro denso começa a dissipar-se. Um pouco. Talvez. É que, como conta Sophie Blackall, “alguns faroleiros habituavam-se a dormir com a algazarra da sirene, outros quase enlouqueciam quando o nevoeiro durava muitos dias”.