Reabertura das creches: crianças deixadas à porta e dois metros entre berços e espreguiçadeiras

Proibidas de levar brinquedos de casa, as crianças deverão descalçar-se à entrada da sala. Os funcionários, obrigados ao uso de máscara cirúrgica, deverão estar atentos a questões gastrointestinais, segundo a Direcção-Geral de Saúde que está a ultimar uma circular para minimizar a propagação do vírus nas creches que reabrem no dia 18.

Foto
Os funcionários das creches vêm sendo testados para que instituições possam reabrir no dia 18 LUSA/ANTÓNIO COTRIM

Com os testes para rastreio do novo coronavírus aos trabalhadores das creches a decorrer desse há alguns dias, o Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social (MTSS) promete divulgar até esta segunda-feira um guia, que está ainda ser ultimado pela Direcção-Geral de Saúde (DGS), sobre os procedimentos a adoptar em cada estabelecimento para minimizar o risco de propagação do vírus. Mas, pesem embora as muitas dúvidas que subsistem, a sessão que o ministério promoveu, na sexta-feira, com os parceiros do sector, permitiu já perceber como será o dia-a-dia nas instituições para crianças até aos três anos de idade: dois metros de distância entre berços e espreguiçadeiras, janelas abertas sempre que possível, fim da partilha de brinquedos, mesas dispostas em fila e não em U, uso obrigatório de máscara cirúrgica para os educadores, dispensadores de solução desinfectante em cada sala e um plano de contingência que acautele a substituição de trabalhadores e a existência de um local de isolamento e de circuitos específicos, para o caso de ser detectado um caso suspeito.

“Sabemos que as creches e as amas são locais potenciais de transmissão porque os meninos não têm consciência de que podem transmitir a doença, querem abraçar-se e beijar-se. Cabe aos adultos passar-lhes esse conhecimento”, exortou Benvinda Santos, directora dos serviços de prevenção da doença e promoção da saúde da DGS. Numa tentativa de responder aos medos instalados, já antes, a directora-geral da Saúde, Graça Freitas, lembrara que a reabertura das creches é fundamental “porque vai permitir que parte da população retome a sua vida laboral”.

“Há uma dose de pragmatismo que é necessário ter, sob pena de paralisarmos”, declarou, apelando ao respeito por um código de conduta que, aplicando-se às creches, é, em muitas das medidas nele contidas, extrapolável para uma sociedade que tem de se treinar para uma nova forma de se comportar. “Cerca de 99% ou 98% da população portuguesa, quando acabar esta primeira ‘onda, não vai ter imunidade e, portanto, vamos estar tão desprotegidos como estávamos no início da primeira ‘onda’. O vírus continua a circular e, enquanto não estivermos imunizados, vamos de aprender uma nova forma de conduta. Temos de nos treinar para isso e vamos cometer alguns erros que são naturais”, avisou a directora-geral de saúde. Isto apesar de o Governo admitir que os pais que optem por ficar em casa até ao final do mês continuem a receber os 66% da remuneração, até que, a 1 de Junho, e se o calendário definido pelo Governo se mantiver, o pré-escolar abra também as portas

Calçado à porta e brinquedos de casa proibidos 

O guia da DGS estabelece desde logo a obrigatoriedade de os educadores usarem máscara cirúrgica e recomenda que as equipas sejam divididas de modo a que, caso um funcionário adoeça, haja quem o substitua. Nos sanitários, as instituições devem ter água, sabão e toalhetes descartáveis e a gestão dos resíduos terá de ser feita diariamente. Cada uma das salas deverá ter um dispensador de uma solução à base de álcool. Sempre que possível, deve ser preservada uma distância de dois metros entre crianças, sabendo-se, à partida, que nem sempre o será. Mas, para incutir confiança às famílias, Graça Freitas lembrou que, ao contrário do que costuma acontecer numa gripe, “que começa pelas crianças e que depois se transmite aos adultos, no caso deste vírus, habitualmente o processo de infecção não se inicia nas crianças pequenas. Assim, “se um adulto adoece primeiro, será fácil às autoridades de saúde identificar os contactos desse adulto e, se for caso disso, retirar a criança da creche muito precocemente”.

Questionada sobre que sintomas poderão justificar a recusa de acolhimento de uma criança na creche, Graça Freitas adiantou que, a par da febre e da tosse, “há que considerar mal-estar generalizado e dores no corpo e, no caso particular das crianças, as diarreias e as questões gastrointestinais”. E, avisou, “mais vale pecar por defeito do que por excesso: na dúvida, se houver um adulto em casa com essa sintomatologia, deve ligar para a Linha SNS 24 e a criança deve permanecer em casa”.

Quanto à entrega e recolha das crianças, deve ser feita “individualmente e à porta do estabelecimento” ao funcionário da respectiva sala, “para evitar cruzamentos entre pessoas que não sejam da turma”, como adiantou Benvinda Santos. Os espaços alheios à actividade educativa devem, à excepção da cantina, permanecer fechados. Cada instituição deverá pedir aos pais que forneçam calçado alternativo para que as crianças possam descalçar o que levam da rua. As portas devem, sempre que possível, permanecer abertas para “evitar o toque frequente das superfícies”.

“Há que evitar a partilha de objectos – é importante que o material a usar seja unipessoal e intransmissível – e os meninos não devem levar brinquedos de casa”, acrescentou ainda a responsável da DGS, recomendando que haja uma espreguiçadeira por bebé e que sejam desligados os aparelhos de ar condicionado. Quando ao transporte, sempre que seja feito em veículo da instituição, as regras são as mesmas que se aplicam nos demais transportes colectivos.

Os funcionários com filhos de menos de 12 anos a seu cargo, cujas aulas não serão retomadas, poderão deixá-los nas escolas que cada agrupamento reservou para os trabalhadores essenciais. E, por enquanto, as actividades extracurriculares asseguradas por profissionais externos à instituição, são desaconselhadas. Mas muitas das dúvidas lançadas pela assistência ficaram por esclarecer. As amas, cuja actividade vai igualmente ser retomada, vão ou não ser testadas? E os seus coabitantes? As educadoras poderão usar viseiras em vez de máscaras para que as crianças mais pequenas as reconheçam? Se um funcionário tiver febre, vai poder ficar em casa de baixa médica? As idas à praia, que em muitas escolas começariam já em Junho, vão poder manter-se? “Estamos a estudar as boas práticas em relação à praia. Ainda não temos resposta”, disse Graça Freitas sobre esta última questão, prometendo consultar os pediatras da DSG quanto à questão de os bebés poderem recusar o colo de uma educadora que deixaram de reconhecer por causa da máscara. “A orientação da DGS não é um documento que vá ficar gravado na pedra, é para ser melhorado e acrescentado”, justificou-se Graça Freitas, sendo que o MTSSS criou um endereço de email[email protected]) para responder às questões práticas das instituições.

Sugerir correcção