Opinião

Recordando a vitória, celebramos a paz

A tarefa principal é preservar a memória dos heróis vitoriosos que nos proporcionaram paz, liberdade e independência. Lembremo-nos da vitória de Maio de 1945 para vivermos em paz.

Hoje, a 9 de maio, a Rússia comemora o 75.º aniversário da vitória na Grande Guerra Patriótica (1941-1945). Naquele dia acabou, para a Europa, a Segunda Guerra Mundial. Atribuímos uma vital importância a este acontecimento histórico – a vitória é sagrada para nós. Com o sacrifício de um número assustador de vítimas mortais (mais de 26,6 milhões de pessoas), a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas fez a contribuição decisiva para a derrota da Alemanha de Hitler e, junto com os Aliados, libertou a Europa da peste fascista.

No ano corrente celebramos o Dia da Vitória de uma maneira diferente. A pandemia de covid-19 derrubou os respetivos planos. As celebrações de grande escala foram adiadas ou passaram para o online, mas não nos vamos esquecer dos nossos heróis e dos seus méritos gloriosos.

Tenho perante os olhos uma imagem de como sempre vivíamos este dia: o solene desfile militar na Praça Vermelha, a colocação de coroas de flores aos pés da Chama Eterna, do Túmulo do Soldado Desconhecido em Moscovo e monumentos noutras cidades, fogos-de-artifício grandiosos em todo o país. E, com certeza, desfiles de milhares e milhares de pessoas comuns, que passam pelas ruas de todas as cidades da Rússia e no estrangeiro, levando fotografias dos seus membros de família, participantes da guerra, numa marcha do “Regimento Imortal”. Muitos lisboetas, especificamente os que moram perto da Alameda Dom Afonso Henriques, conhecem este evento que uma das principais praças da capital portuguesa acolheu já por três vezes. Aproveitando esta ocasião, reitero o agradecimento à câmara municipal e às juntas de freguesia do Areeiro e Penha de França pelo apoio a esta significativa ação patriótica que se prepara e se realiza pelos nossos concidadãos residentes no país.

Ao ter-se iniciado a 22 de junho de 1941 com o ataque, sem declaração de guerra, da Alemanha nazista à primeira linha da União Soviética – a Fortaleza de Brest, que se defendia abnegadamente –, durou por muitos anos o nosso confronto com um adversário muito mais bem organizado e armado. O valor pago pela vitória foi o mais alto – a vida. A vitória foi alcançada graças à coragem de todos os povos da URSS. Não há nenhuma família na Rússia que não tenha sofrido o impacto grave da guerra. Deixou uma marca no destino de cada um. Na dificílima luta, os cidadãos soviéticos defenderam a sua soberania nacional e o direito à vida de toda a Humanidade. Juntam-se a eles não só os militares e os guerrilheiros que participaram nas batalhas, mas também os civis, incluindo os que sobreviveram ao cerco a Leninegrado de 872 dias. Aqui, em Portugal, reside uma destas pessoas – o veterano da Rússia Vitaly Serebryakov. Em agosto vai completar 90 anos. Atrás de si, tem um trajeto de vida muito complexo, dificuldades severas da guerra, passou fome, dedicou-se à carreira profissional ativa nos anos do pós-guerra, inclusive na área do jornalismo. A 7 de maio do corrente ano foi condecorado com a Medalha de Jubileu “75.º aniversário da Vitória na Grande Guerra Patriótica de 1941-1945”, por decreto do Presidente da Federação da Rússia.

PÚBLICO -
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Entre as principais etapas da Grande Guerra Patriótica destacam-se as batalhas de Moscovo, Estalinegrado, Cáucaso, Kursk, defesa de Leninegrado e de Sebastopol, Operação Bagration, libertação da Europa, abertura em junho de 1944 da “segunda frente” (conhecida na Europa como Frente Ocidental), tomada de Berlim. Nestes nomes dos acontecimentos históricos refletiram-se combates brutais, heroísmo sem precedentes, milhões de vítimas, alegria de habitantes dos Estados da Europa Central e de Leste a cumprimentar os combatentes do Exército Vermelho como libertadores…

Se me perguntarem o que a vitória significa para mim pessoalmente, respondo que é um diapasão espiritual e moral atemporal. Este é um dia santo de salvação, do triunfo da paz, criação, justiça e solidariedade. Isto são tristeza e alegria misturadas. Este é um dia de glória militar, coragem e grandeza de espírito dos tombados na guerra mais sangrenta. Este é um dia que exige que digamos mais uma vez “não” à ideologia misantrópica nazista e neonazista, à superioridade racial, xenofobia e intolerância religiosa e nacional.

Acreditamos que a tarefa principal é preservar a memória dos heróis vitoriosos que, por sua unidade e solidariedade, trabalho duro, colossal abnegação, amor sem limites pela Pátria, nos proporcionaram paz, liberdade e independência. O Dia da Vitória une gerações.

Esta guerra mudou o curso da História do mundo. Honramos santamente a contribuição para a vitória comum de todos os Aliados. A vitória lançou os alicerces para uma ordem mundial moderna nos princípios da segurança coletiva, abriu o caminho para a criação da ONU, cujo 75.º aniversário celebraremos este ano. Até hoje, para manter a paz, a segurança internacional e a estabilidade estratégica, não há nada melhor e mais confiável do que esse “sistema de coordenadas” equilibrado.

Presumimos que, mantendo o papel central de coordenação das Nações Unidas, baseado na igualdade soberana dos Estados e na supremacia do direito internacional, impedimos a eventual repetição de conflitos do género.

A confirmação disso são as recentes palavras do secretário-geral da ONU, o português António Guterres, na entrevista à agência de notícias russa TASS: “Durante 75 anos não houve uma grande guerra, conseguimos evitar a Terceira Guerra Mundial. Esta é a nossa principal conquista para hoje.”

No entanto, infelizmente, cada vez mais temos que lidar com falsas interpretações da História e tentativas de distorcer a verdade. É importante não permitirmos a sua revisão juntos. Preservando as lições do passado, tal como há 75 anos, é necessário descartar as contradições, combinar esforços diante dos desafios globais, adotando uma verdadeira colegialidade, multilateralismo e uma parceria despolitizada.

Lembremo-nos da vitória de Maio de 1945 para vivermos em paz.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico