Covid-19: taxa de letalidade entre profissionais de saúde no Brasil é das mais altas do mundo

Pelo menos 88 profissionais de saúde já morreram no Brasil. A falta de equipamento de protecção e a resistência a se retirar os profissionais pertencentes a grupos de risco são duas das causas apontadas.

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Mais de dez mil profissionais de saúde já foram infectados pelo coronavírus no Brasil AMANDA PEROBELLI/Reuters

A taxa de letalidade entre profissionais de saúde por covid-19 no Brasil é uma das mais altas em todo o mundo, ultrapassando inclusivamente os Estados Unidos, o país com mais mortes, e Itália, o segundo com mais óbitos na Europa. A falta de material de protecção e medo de represálias, caso saiam da linha da frente, já levou à morte de 88 profissionais de saúde, diz o Conselho Federal de Enfermagem. 

O Brasil é o nono país com mais casos em todo o mundo (127 mil) e 8605 pessoas morreram, das quais 88 eram profissionais de saúde. A taxa de letalidade é uma das mais elevadas se comparada com a dos países mais atingidos pela pandemia: Estados Unidos, Itália e Espanha. Nos Estados Unidos, onde se registam mais de 73 mil mortes, morreram 46 enfermeiros; em Itália, com 29 mil mortes, foram 35; e em Espanha, com mais de 25 mil óbitos, quatro. 

De acordo com o Conselho Internacional de Enfermagem, citado pela edição brasileira do El País, e segundo os dados que este organismo tem - não há número concretos por falta de informação, uma vez que os governos não estão todos a apurar os óbitos entre estes profisisonais -, “mais de 100 enfermeiros e técnicos perderam a vida por causa da covid-19, enquanto trabalhavam na linha da frente” e 90 mil foram infectados por todo o mundo, podendo chegar até aos 200 mil, dado as estatísticas serem consideradas conservadoras. E destes infectados, dez mil são brasileiros, diz o brasileiro Conselho Federal de Enfermagem (Cofen). 

"É um escândalo que governos não estejam colectando e reportando sistematicamente esses dados. Nos parece que eles estão ignorando esses números, o que é completamente inaceitável e custará mais vidas”, disse ao canal brasileiro Howard Cattondirector-executivo da organização internacional.

No que ao Brasil diz respeito, uma das principais razões apontadas, a par da falta de material de protecção, é a de os profissionais de saúde pertencentes a grupos de risco continuarem a trabalhar na linha da frente. "Boa parte dos serviços de saúde não afastou profissionais com idade avançada, acima de 60 anos, e com comorbidades. Eles continuam actuando na linha da frente da pandemia quando deveriam estar em serviços de retaguarda ou afastados”, explicou Manoel Neri, presidente do Cofen, citado pelo El País.

Muitos enfermeiros em grupos de risco não saem das linhas da frente por medo de sofrer represálias por parte das hierarquias, por sua vez pressionadas pelos superiores para mostrarem capacidade de resposta à pandemia. A Cofen viu-se obrigada a interpor uma acção judicial e a Justiça Federal decidiu que os enfermeiros que pertençam a grupos de risco não devem assumir posições na linha da frente, mas antes funções necessárias que evitem estarem em contacto com pacientes. No entanto, esta decisão não se estende aos serviços privados, apesar dos apelos para que assim seja. 

​Um dos casos em que a decisão judicial não chegou a tempo foi o da enfermeira Aparecida Duarte, de 63 anos. Estava incluída num dos grupos de risco, mas continuou a trabalhar nas urgências de Carapicuiba, na região metropolitana de São Paulo, um dos principais focos da doença no Brasil e onde a maioria dos óbitos de profissionais de saúde se tem registado. Morreu a 3 de Abril. 

O Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, tem desvalorizado a crise pandémica, privilegiando a economia, e entrado em choque com os governadores que decretaram medidas de isolamento social, como o confinamento. Os governantes estaduais têm-se queixado da falta de uma estratégia federal no combate à doença e muitos dos serviços de saúde brasileiros correm o risco do colapso, ao mesmo tempo que carecem das condições mínimas de segurança, como material de protecção. 

“Não apenas escassez quantitativa desses produtos, mas também a qualidade do material é questionável. Outra questão é o treinamento das equipas para usá-los: muitos profissionais se contaminam ou pelo uso inadequado do [equipamento de protecção individual], ou então na hora da retidada do material”, disse Neri. 

A falta de material de protecção tem levado os profissionais de saúde a protestar um pouco por todo o país. A enfermeira Iraildes Vieira, de 49 anos, juntou-se a um desses protestos e foi demitida pela empresa de saúde privada que a empregava em Cotia, no interior de São Paulo. 

“Houve uma época em que nós, funcionários, comprávamos touca e máscara de pano pela Internet. Depois a empresa deu o material adequado, mas começou a exigir que nós lavássemos para reutilizar por até uma semana. Não é para ser assim, ele deve ser logo descartado”, disse à Globo a enfermeira. “Eu trabalhava em um ambiente fechado, cuidava de medicação, fazia curativo. Poderia contrair o vírus a qualquer hora. Três colegas da unidade já foram infectadas”. 

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