Carro continua a ser o meio preferido para levar os miúdos à escola em Lisboa

Câmara de Lisboa quer incentivar os estudantes a usar mais os transportes públicos e modos suaves para tirar automóveis da cidade, mas ainda tem um longo caminho pela frente.

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O uso do carro vai diminuindo à medida que os estudantes sobem na carreira escolar Daniel Rocha

Todos os dias há pelo menos 22 mil alunos de Lisboa que se deslocam de carro para a escola. Um inquérito da câmara municipal a mais de metade da população escolar da cidade revela que o automóvel continua a ser o principal meio de transporte em quase todos os níveis de ensino e que os estudantes que vão a pé são praticamente tantos como os que chegam às aulas de transportes públicos.

Realizado em Outubro do ano passado pela segunda vez, o inquérito Mãos ao ar! teve em 2019 mais do triplo das respostas obtidas no ano anterior, permitindo uma leitura dos números mais fiável. Em 2018 tinham respondido 16% dos alunos de Lisboa, no ano passado foram 56,7% -- ou seja, 47.141 estudantes.

Destes, quase metade (48,6%) desloca-se de automóvel para a escola e a outra metade divide-se entre os transportes públicos (23,6%) e andar a pé (23,4%). Há ainda uma pequena percentagem de alunos que usam transporte escolar (1,3%), bicicleta (1%), mota (1%) e outros meios, como táxis, Uber ou barcos (1,1%).

Os resultados, que deviam ter sido apresentados por videoconferência esta quarta-feira, o que não aconteceu devido a problemas técnicos, mostram o longo caminho que a Câmara de Lisboa ainda tem de percorrer para atingir o seu objectivo de diminuir o uso do automóvel nas deslocações diárias. Há um ano, na apresentação do Mãos ao ar! de 2018, o vereador da Mobilidade dizia que “as crianças são hoje uma das principais razões pelas quais os pais andam de carro em Lisboa”, o que tem efeitos directos no trânsito e na mobilidade.

Pondo uma lupa sobre os números descobre-se que o carro é o meio de deslocação preponderante nos primeiro e segundo ciclos, perdendo importância daí para a frente, mas a situação difere consoante o tipo de ensino.

Nas escolas privadas, o automóvel é o meio de deslocação mais usado em todos os níveis de escolaridade, dos 81,6% registados no 1.º ciclo até aos 65,6% no Secundário. No ensino público o carro também é o predilecto no primeiro (43,3%) e no segundo (42,4%) ciclos, mas as percentagens são ultrapassadas por outros meios à medida que os alunos vão crescendo. No 3.º ciclo, 32,5% dos estudantes vai a pé para a escola, enquanto 30,9% vai de carro. No Secundário são 23% os que caminham, superando os 22,3% que se deslocam em veículo próprio, mas o autocarro é o meio preferido, escolhido por 31,4% dos estudantes.

É a única vez no inquérito em que a deslocação em autocarro supera não só a percentagem dos estudantes que vão de carro como a dos que vão a pé. De resto, os autocarros (usados por 15,5% dos alunos inquiridos) parecem não convencer estudantes nem do ensino privado nem do ensino público, sendo ultrapassados por larga margem em todos os outros níveis de escolaridade.

De entre os restantes transportes públicos destaca-se o metro, usado por 5,1% dos inquiridos, e o comboio (2,5%). Todos somados (autocarro, eléctrico, comboio e metro), só por duas décimas ultrapassam as deslocações a pé (23,6% contra 23,4%).

O transporte escolar tem um peso quase residual em toda a carreira escolar. No 1.º ciclo representa 2,6% das deslocações e a percentagem vai diminuindo até ao Secundário, com 0,2%, perfazendo uma média total de 1,3%.

Embora o universo de alunos inquiridos tenha grandes variações de freguesia para freguesia, o que aconselha cautela na leitura dos resultados, algumas tendências emergem. No Areeiro, em Santa Maria Maior, em Santo António e São Vicente há mais estudantes a ir para a escola a pé do que de carro. A maior utilização do automóvel verifica-se no Parque das Nações (77,6%) e a menor na Misericórdia (13,1%). Já a freguesia campeã no uso de transporte escolar é Campolide (10,5%), enquanto os alunos do Beato são os que mais usam autocarros (32,8%). O uso da bicicleta situa-se abaixo de 1% em quase todas as freguesias da cidade, mas no Parque das Nações e no Areeiro chega a 3,4%.

No inquérito não se apuraram as razões para os alunos usarem um meio em vez de outro. À semelhança da sondagem de 2018 e do inquérito escocês em que o lisboeta se baseia, os directores de turma perguntavam oralmente aos seus alunos como é que habitualmente se deslocavam para a escola e estes respondiam levantando a mão quando o professor lia a hipótese que lhes assentava melhor.

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