Editorial

A covid-19 viaja em segunda classe

Existem países que viajam em primeira e outros que o fazem em segunda classe. É tudo uma questão de inteligência.

Há países europeus que querem transformar a pandemia da covid-19 num jogo com fronteiras entre os “inteligentes” e os outros. Definitivamente, a União Europeia perde-se em dicotomias moralistas entre Norte e Sul, cumpridores e incumpridores e alguns dos seus estados-membros teimam em explorar todas as hipóteses possíveis de a dividir e desfazer.

O chanceler austríaco é um deles. Sebastian Kurz, que lidera uma coligação entre Conservadores e Verdes, utilizou a expressão países “inteligentes” para se referir às nações que terão adoptado as medidas mais eficazes para travar a pandemia e que assim se tornaram líderes mundiais do desconfinamento.

O que Kurz pretende colocar em marcha é um plano de abertura condicionada a um grupo formado também pela Dinamarca, República Checa, Grécia — que deixou de ser um  dos PIGS desde que o Syriza foi à sua vida — e por três países exteriores à UE: a Austrália, Nova Zelândia e Israel. A ideia poderia ser de Trump se os EUA não liderassem a estatística mais fúnebre desta pandemia e, claro, se fossem um país inteligente.

O grupo terá iniciado contactos para o estabelecimento de acordos de comércio e de turismo como se todos eles fossem portadores de um certificado de imunidade. O que os une não é a geografia, a geopolítica, a pertença a valores específicos e comuns, mas sim a definição de inteligência de Kurz: “Reagiram de modo rápido e intensivo e por isso têm saído da crise melhor do que outros”.

Na prática, o chanceler está a pensar no seu Tirol, cujas estâncias turísticas foram os principais focos do novo coronavírus no Norte europeu e que tardaram a fechar portas após a detecção dos primeiros casos. Neste salva-se quem puder, resta-nos, por vezes, a Alemanha, que rejeitou participar neste “concurso europeu de quem permite as primeiras viagens turísticas”.

A iniciativa austríaca pretenderá abocanhar uma parcela dessa enorme indústria em que o turismo se transformou, que representa 8,8% do Produto Interno Bruto do país, num momento em que Espanha Itália ou Reino Unido se tornaram destinos pouco apetecíveis, e sabota qualquer plano comum de reabertura de fonteiras. Num dia, a União Europeia surge na liderança do financiamento da investigação de uma vacina, no outro há um estado-membro que insiste em fazer eleições por correspondência e outro que não hesita em a fragmentar com “passaportes sanitários”. Existem países que viajam em primeira e outros que o fazem em segunda classe. É tudo uma questão de inteligência.

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