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Sobre vacinas e queijo (português, claro!)

Se é verdade que um queijo só com três a quatro meses de cura é igualmente tão seguro para consumo como um de 24 meses, já o desenvolvimento de uma vacina nesse período mais curto poderia não garantir de todo essa segurança.

O que têm de comum a fabricação de uma nova vacina, por exemplo para a covid-19 e um queijo, por exemplo São Jorge DOP? Calma… nem vai ser preciso ler este texto até ao fim para satisfazer essa curiosidade: é o tempo que demora essa fabricação, facilmente entre 12 a 24 meses! Sim, também é verdade que há bons queijos de São Jorge só com três ou quatro meses de cura (que o diga o Miguel Esteves Cardoso). E porque não conseguimos produzir uma vacina também em três ou quatro meses? Provavelmente até se conseguiria, mas será boa ideia? Vamos tentar perceber.

Felizmente, ao contrário de outros países, em Portugal a vacinação é bem aceite e não é preciso muito esforço para explicar as suas vantagens. Curiosamente, mesmo em países em que a população é mais céptica em relação à vacinação, como os EUA, neste momento ninguém questiona a importância de uma vacina que confira protecção contra a covid-19. Parece-me que se esta surgisse já, a corrida à vacinação seria algo do género de uma Black Friday, ou pior!

A título de curiosidade, a primeira vacina da história foi a vacina contra a varíola, criada por Edward Jenner em 1798. Graças à vacinação generalizada, esta doença foi declarada erradicada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em 8 de Maio de 1980. Esta vacina não era mais do que a inoculação das pessoas com o agente causador da varíola bovina, muito menos agressiva para os humanos, mas que conferia protecção contra a variante humana. Aliás, pensa-se que o nome vacina deriva do nome que Jenner deu à doença bovina Variolae vaccinae e, curiosamente, era provocada também por um vírus, embora nessa altura ainda ninguém conhecesse a existência dos vírus!

Seja qual for a forma da vacina, o princípio é sempre o mesmo: provocar no nosso corpo a produção de anticorpos que permitam ao nosso sistema imunitário preparar-se antecipadamente para combater mais facilmente, ou prevenir, a doença em questão.

Existem basicamente vacinas feitas com: a) agentes vivos atenuados, sejam vírus (ex. sarampo, febre amarela, varicela) ou bactérias (ex. tuberculose); b) agentes inactivados, sejam vírus ou bactérias inteiras; c) fracções ou subunidades, desses mesmos vírus ou bactérias. Pelo que ouvimos falar e está disponível na literatura científica, as vacinas em desenvolvimento para a covid-19 cairão neste último tipo.

Todos aceitamos como normal que o desenvolvimento de medicamentos e vacinas seja um processo demorado (vários anos), mas verdade é que não se encontra nenhuma definição de prazos mínimos para tal, por exemplo pela OMS. Isto significa que na prática o tempo necessário é essencialmente o definido pelas duas partes envolvidas: quem desenvolve e quem aprova a vacina. Quem a desenvolve, define-o, por exemplo, pelos recursos humanos e materiais disponíveis, mas também pelo rigor e grau de confiança, entre outros critérios que essa empresa ou entidade queira incluir no processo. Para quem a aprova parece-me que será, essencialmente, uma questão de recursos humanos, de grau de rigor na avaliação dos dados que lhe são apresentados e na coragem para decidir, mais ou menos rapidamente.

A Federação Europeia de Associações e Indústrias Farmacêuticas (na sigla inglês, EFPIA) refere um prazo médio de 36 meses para a fabricação de vacinas, estimando que 70% deste tempo é destinado ao controlo de qualidade. É isso mesmo, mais de dois terços do tempo é ocupado com a questão de segurança.

Depois de uma fase laboratorial, que pode incluir o uso de animais, o desenvolvimento passa para ensaios em humanos, usualmente divididos em três fases sucessivas. Durante estas fases são avaliados diferentes aspectos, mas o que é mais evidente é que, começando com algumas dezenas de pessoas na fase 1, passa-se para centenas de pessoas na fase 2 e para milhares de pessoas na fase 3, sempre numa clara preocupação com a segurança. Facilmente se percebe que, tendo o factor segurança um peso tão grande no processo, é também aqui que será mais fácil ganhar tempo, o que se espera que aconteça sem o sacrificar demasiado.

Posto isto, espero que se perceba um pouco melhor a razão pela qual os prazos apresentados para o surgimento de uma vacina não são tão curtos como desejado e nem sequer muito exactos. De facto, no que toca à definição de tempos, criar uma vacina é mais parecido com a produção de um queijo do que com, por exemplo, montar uma máquina. Por outro lado, se é verdade que um queijo só com três a quatro meses de cura é igualmente tão seguro para consumo como um de 24 meses, já o desenvolvimento de uma vacina nesse período mais curto poderia não garantir de todo essa segurança.

Resta-nos confiar no rigor e responsabilidade de quem está a trabalhar nos aspcetos científicos e técnicos das vacinas e esperar que quem decide sobre a sua aprovação o faça baseado nos mesmos critérios e não em critérios políticos e/ou economicistas. 

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