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Saúde pública: preparar o futuro

É necessário muito trabalho para que corra tudo bem, mesmo sem nos apercebermos. É o velho paradoxo da saúde pública: When it works, nothing happens.

A actual crise mundial provocada pela pandemia covid-19 abalou os sistemas de governança, pôs em risco a economia e o emprego e continuará a fazer estragos profundos nas sociedades, com impactos ainda impossíveis de prever. Na linha da frente da resposta aguda à crise têm estado muitos profissionais de saúde, investigadores, profissionais de serviços essenciais (redes de distribuição, defesa e segurança, limpeza), entre muitos outros.

Os agentes políticos têm coordenado respostas exigentes a um fenómeno imprevisível, de rapidíssima expansão e com consequências devastadoras para os sistemas de saúde: o novo coronavírus, mais exactamente o vírus SARS-Cov-2, é um pesadelo para a organização dos recursos hospitalares, consumindo sistemas de suporte ventilatório, camas de cuidados intensivos e assoberbando médicos e enfermeiros com situações clínicas graves.

A montante desta calamidade estão os serviços da saúde pública, tantas vezes esquecidos pelos responsáveis políticos, e que num trabalho minucioso e discreto de “soldado raso” procuram identificar pessoas infectadas, doentes ou assintomáticas, bem como os seus contactos próximos. Este trabalho é feito pelas equipas de saúde pública durante todo o ano, 365 dias por ano, todos os anos. A chamada “vigilância epidemiológica” permite que, como comunidade, nos sintamos seguros sem que tenhamos necessidade de nos lembrarmos de que estamos seguros. Quando corre tudo bem, ninguém pensa nisso. É a “normalidade” a que hoje, desesperadamente, queremos regressar.

Não devemos deixar que, no rescaldo desta crise sem precedentes, se evapore do debate público e do discurso político o reforço dos meios e competências dos trabalhadores da saúde pública. A eles compete a gestão dos recursos em saúde, o planeamento das intervenções comunitárias que permitem prevenir e detectar doenças infecciosas e não-infecciosas, produzir conhecimento sobre as tendências globais da saúde e fomentar a literacia para o conhecimento científico e médico.

O momento em que crises como a covid-19 surgem não pode ser previsto com exactidão. O que podemos fazer, enquanto cidadãos, é exigir do Estado que esteja o melhor preparado possível para o impacto das próximas epidemias, que chegarão.

Organizar as nossas redes de preparação, promover a ciência e a investigação, reforçar a defesa nacional e as parcerias estratégicas com o sector social e privado, munir a protecção civil de técnicos com competência em saúde pública, desenhar planos de contingência a nível nacional e local, lutar na União Europeia pelos meios de cooperação tecnológica e científica: estes são apenas alguns dos desafios para os quais devemos estar alerta desde já. Porque é necessário muito trabalho para que corra tudo bem, mesmo sem nos apercebermos. É o velho paradoxo da saúde pública: When it works, nothing happens.

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