Covid-19: maioria dos profissionais da cultura conta perder mais de 50% do rendimento, mostra estudo

Trabalhadores e organizações do sector temem quebras significativas no volume de negócios e no emprego, indica a primeira fase de um estudo da Universidade do Minho sobre covid-19 e cultura, referente ao mês de Março. Resposta lenta do Ministério da Cultura aos impactos da pandemia é outra das conclusões.

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Os espectáculos ao vivo deixaram de ser uma realidade em Março MIGUEL MANSO

As dificuldades financeiras na cultura agravaram-se desde Março, com o surto do novo coronavírus a forçar o encerramento de espaços e o cancelamento de espectáculos. A quebra de rendimentos daí advinda pode até superar os 50% para os profissionais do sector, de acordo com a primeira etapa do estudo Impactos da COVID-19 no sector cultural português, conduzido pelo Observatório de Políticas de Comunicação e Cultura (POLObs), associado à Universidade do Minho (UMinho).

A análise referente ao período entre 1 e 31 de Março, consultada pelo PÚBLICO, indica que 63,4% dos trabalhadores desta área estimam “perdas de, no mínimo, 50% das receitas em virtude da covid-19”. Também as organizações do sector antecipam quebras acentuadas, com mais de 64% delas a preverem uma redução no volume de negócios igual ou superior a 25% e mais de 45% a prognosticarem uma redução de postos de trabalho superior a 25%. “2020 e 2021 não se afiguram anos positivos para o sector, se não forem tomadas as medidas estruturantes por parte da tutela e por parte dos municípios, ouvindo-se as organizações representativas”, diz ao PÚBLICO Manuel Gama, investigador do Instituto de Ciências Sociais da UMinho, que coordena o estudo.

A partir dos 144 questionários validados, observa-se que mais de 60% dos profissionais e organizações envolvidos estão ligados às artes do espectáculo, seguindo-se a área do património cultural – que representa cerca de 20% dos profissionais e mais de 15% das organizações. A maioria dos profissionais trabalha a recibos verdes ou com contratos a termo certo (quase 64%), mas o cenário difere nas organizações inquiridas, em que há 65,7% de trabalhadores com contrato sem termo. No entanto, mais de 70% desses contratados sem termo estão vinculados às cinco organizações com mais recursos humanos, todas elas públicas. “Há assumidamente um empolamento dos valores nos trabalhadores com contratos sem termo”, diz Manuel Gama.

Ministério demorou a reagir

Embora profissionais e entidades do sector tenham posto em marcha estratégias de sobrevivência à paralisação forçada pela pandemia logo na primeira quinzena de Março, com a “transferência da oferta cultural dos espaços físicos para o mundo virtual, a reacção da tutela pautou-se pela demora, reitera o investigador do POLObs. “O Ministério da Cultura (MC) esperou pelo dia 18 de Março para criar um site específico para a covid-19”, lembrou. “E as medidas específicas para o sector só apareceram no dia 26 de Março, com uma linha de emergência de um milhão de euros, gerida pela Direcção-Geral das Artes”. Manuel Gama conclui ainda, a partir da análise à actividade parlamentar de Março, inscrita no estudo, que o peso atribuído à cultura pelos actores políticos é “residual”.

O estudo indica ainda que o “pouco peso estratégico” da cultura é também visível nos municípios; nos 333 sites de câmaras municipais e de comunidades intermunicipais, foram publicados 1049 artigos relacionados com esta temática, a maioria referente ao cancelamento de eventos. “Há um número muito residual de municípios que apresentam medidas concretas para fazer face ao problema”, aponta o investigador da UMinho.

O estudo analisa ainda 533 artigos sobre cultura e covid-19, publicados por oito órgãos de comunicação social, incluindo o PÚBLICO. Embora considere esse volume de notícias “significativo”, Manuel Gama sublinha que somente 1% das chamadas à primeira página em Março destacou os dois assuntos em simultâneo, sendo a capa do PÚBLICO de 20 de Março um desses exemplos.

Entretanto, lá fora

O estudo da UMinho vai prosseguir até ao próximo ano, com a publicação da segunda etapa, referente ao segundo trimestre de 2020, marcada para Julho, e a publicação da terceira, relativa ao período entre Julho e Dezembro, agendada para Março de 2021. Apesar de utilizar os mesmos instrumentos de recolha de dados ao longo do ano, a equipa coordenada por Manuel Gama vai também recolher informação sobre as medidas de outros países para o sector cultural.

O investigador promete ainda estar atento às medidas do MC a “médio e a longo prazo” e à reabertura das salas de espectáculos – apesar de esta estar prevista para 1 de Junho, há espaços que já assumiram que esperarão por Setembro para retomar a actividade. Em Janeiro, com a investigação já concluída, a equipa do POLObs irá “ouvir alguns profissionais e organizações do sector” para perceber “o real impacto” da covid-19 na cultura, ao longo deste invulgar 2020.

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