Ruínas em Pompeia sugerem que romanos já reciclavam

O lixo depositado pelos pompeianos fora das muralhas da cidade não era apenas aí acumulado: voltava a entrar na cidade para ser reutilizado.

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Subúrbio da Porta Herculano, fora da muralha de Pompeia: aqui foi encontrado lixo acumulado dentro e à volta de túmulos e casas Allison Emmerson
,Herculaneum Hotel
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Pompeia chega a ter 2,5 milhões de visitantes por ano ALESSANDRO BIANCHI/Reuters

Já em Pompeia se fazia reciclagem. Entre outros usos, os pompeianos faziam grandes acumulações de lixo na parte de fora da muralha da cidade. Mais tarde, esse material voltava para dentro da cidade onde era reutilizado em construções. A gestão do lixo no Império Romano é um dos temas do livro Life and Death in the Roman Suburb, da especialista em arqueologia romana Allison Emmerson, que será publicado a 25 de Maio pela Oxford University Press.

Ao longo do livro, Allison Emmerson analisa como, quando e porque é que os habitantes das cidades do Império Romano “abandonavam” o interior das suas fortificações para desenvolverem novos arredores fora delas. “Como a lei romana exigia que os túmulos dos mortos fossem fora das muralhas da cidade, estudos anteriores referiam que havia uma estrita separação entre a ‘cidade dos vivos’ dentro das muralhas e a ‘cidade dos mortos’ fora delas”, explica ao PÚBLICO a investigadora. “Percebi que isso não era bem assim: as cidades romanas ao longo de Itália tinham subúrbios – arredores fora das muralhas que incluíam tanto vivos como mortos.”

Allison Emmerson escreveu então sobre vários aspectos da vida nos subúrbios desde a morte, passando pela vida comercial e a religião até à gestão do lixo. A professora de estudos clássicos na Universidade de Tulane, nos Estados Unidos, fez trabalhos de campo em Pompeia (em Itália) e em Isthmia (na Grécia), e os resultados desses trabalhos serão publicados no livro Life and Death in the Roman Suburb.

A gestão do lixo em Pompeia tem vindo a ganhar um especial destaque na comunicação social e nas palestras de Allison Emmerson. Pompeia era uma cidade com villas, praças, lojas de artesãos e até um anfiteatro com capacidade para 20.000 pessoas. No ano 79, acabou por ser destruída durante uma grande erupção do vulcão Vesúvio. No século XVIII, um grupo de exploradores descobriu uma cidade quase perfeitamente preservada sob um “tapete” de cinza e pedra-pomes – era Pompeia. Actualmente, é património mundial da UNESCO e, em tempos normais, chega a ter 2,5 milhões de visitantes por ano.

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Subúrbio da Porta Nocera, fora da muralha de Pompeia: escavações no século XX encontraram aqui lixo acumulado nas estradas, bem como no interior e em redor das casas Allison Emmerson

Em trabalhos de campo em Pompeia, investigadores perceberam que grandes acumulações de lixo fora das muralhas da cidade eram, de facto, “preparativos para ciclos de uso e reutilização”, disse ao jornal The Guardian Allison Emmerson. Já se chegou a pensar que essas acumulações tivessem sido formadas devido a um terramoto que afectou a cidade antes da erupção do Vesúvio. Desde o século XVIII que esses amontoados têm vindo a ser descobertos.

A investigadora exemplifica que este lixo foi amontoado ao longo de quase toda a parte de fora da muralha no lado norte da cidade. Algumas dessas acumulações tinham vários metros de altura e eram compostas por bocados de cerâmica ou gesso. Através de uma análise científica, chegou-se à conclusão de que essas acumulações funcionavam como uma espécie de aterros e que voltavam para a cidade para serem usadas como material para a construção, como pavimentos.

Como se percebeu isso? Juntamente com uma equipa da Universidade de Cincinnati (nos Estados Unidos), Allison Emmerson estudou como Pompeia foi construída. “Percebemos que parte da cidade foi construída com lixo. Os amontoados fora da muralha não eram de material para ser desperdiçado. Esse material fora da muralha estava a ser recolhido e seleccionado para voltar a ser vendido dentro das muralhas”, conta a investigadora.

Além de reciclarem e reutilizarem restos de lixo misturado com solo que amontoavam em locais fora das muralhas da cidade, Allison Emmerson acrescenta que os pompeianos também voltavam a usar objectos individuais. Por exemplo, derretiam vidro para se voltar a usar esse material ou transformavam um vaso num funil.

Mais próximos do lixo

“A reciclagem e a reutilização são comportamentos humanos naturais: desde que os humanos começaram a usar ferramentas que as reciclam e reutilizam. Os romanos não inventaram a reciclagem, mas eram excelentes recicladores”, assinala Allison Emmerson. No livro, a investigadora destaca que “a maioria do lixo no Império Romano não ficava permanentemente no subúrbio”, mas que passava a ter uma nova vida. “A situação é clara em Pompeia, mas dados de outros sítios sugerem que este modelo era a norma no período médio do Império”, lê-se. Também anuncia que pretende investigar mais sobre este tema para clarificar como era mesmo a gestão de lixo no Império Romano e como variou ao longo do tempo.

Em investigações anteriores, Allison Emmerson já tinha mostrado e considerado que os pompeianos tinham uma relação mais próxima com o lixo do que temos hoje nas nossas sociedades. “Na maior parte das vezes, não queremos saber o que acontece ao lixo que fazemos, desde que seja retirado.” A investigadora diz que em Pompeia havia uma prioridade diferente dada ao lixo: “Os pompeianos viviam muito mais perto do lixo do que a maioria de nós consideraria aceitável, não porque a cidade tivesse falta de infra-estruturas e não conseguisse fazer a sua gestão, mas porque os seus sistemas de gestão urbana eram organizados com princípio diferentes.”

Para si, este ponto pode ser relevante para a crise moderna do lixo. “Os países que fazem uma gestão mais eficaz do seu lixo aplicaram uma versão do modelo antigo, dando prioridade à comercialização [e recirculação] em vez de uma simples remoção”, nota.

Mas a história sobre a gestão do lixo nos subúrbios no Império Romano não ficará por aqui. Allison Emmerson avisa que será feita uma publicação com resultados adicionais no âmbito do projecto de investigação Porta Stabia de Pompeia, da Universidade de Cincinnati.